WAYFARER · Arte | Nova York
Há artistas que a gente conhece demais para conseguir ver. Roy Lichtenstein é o caso mais evidente: seus pontos, seus balões e suas lágrimas estão em camisetas, canecas e capas de caderno há sessenta anos. O Whitney Museum decidiu tratar essa familiaridade como um problema a resolver.
Roy Lichtenstein: Like New, em cartaz desde 11 de outubro, empresta o título de uma tela de 1962 e o transforma em programa. São mais de 130 obras, dos anos 1940 aos 1990, reunidas no quinto andar do museu, a maior galeria sem colunas de Nova York, desenhada por Renzo Piano e emoldurada pela High Line e pelo rio Hudson. A curadoria é de Meg Onli e do artista Alex Da Corte, que transformaram essa amplitude em exercício de ritmo, não de acúmulo.
A mostra em 30 segundos
- Onde: Whitney Museum of American Art, Nova York, quinto andar
- Quando: de 11 de outubro de 2026 a 10 de maio de 2027
- O quê: mais de 130 obras em seis décadas de produção
- Curadoria: Meg Onli e Alex Da Corte
- Não perca: o Greene Street Mural, o Flash Lab e a sala dos Mirrors

I. A volta para casa
Trinta anos depois do Guggenheim
A última grande retrospectiva de Lichtenstein em sua cidade natal aconteceu no Guggenheim, em 1993, quatro anos antes de sua morte, aos 73. Desde então, o Whitney reuniu cerca de 400 obras do artista, além do estúdio e da casa vizinha na Washington Street, doações da Roy Lichtenstein Foundation que sustentam a leitura ampla da mostra. O catálogo, de 365 páginas, tem projeto gráfico da holandesa Irma Boom.
O diretor do museu, Scott Rothkopf, descreveu a exposição na prévia para a imprensa como uma mistura de obras-primas, ícones e pesquisa rigorosa, com uma sensibilidade capaz de trazer o artista para o presente. “Sabíamos que era uma oportunidade rara, de uma geração.”
A mostra também transborda do prédio. Uma escultura de alumínio de nove metros, em forma de pincelada, conversa com os arranha-céus do Meatpacking. Da Corte instalou um outdoor de cachorro-quente que paira sobre os carrinhos de comida da rua como um ícone religioso, com respingos de ketchup no lugar de estigmas. E uma coleção de 18 peças com a Gap leva os pontos do artista para moletons e camisetas.

II. A superfície
Tudo à vista, nada óbvio
Os curadores partiram de uma desconfiança honesta. Da Corte admite que via a obra em toda parte, mas sempre na superfície, e não tinha certeza sobre a prática conceitual por trás dela. A resposta foi voltar à voz do próprio Lichtenstein, ao modo como ele falava do trabalho enquanto o fazia.
O que aparece são oposições que continuam fascinantes justamente porque se escondem à vista de todos. Lichtenstein alcançou a aparência da reprodução mecânica inteiramente à mão, apagando qualquer vestígio de ofício. Simplificava cor e linha de propósito, numa estratégia que chamava de falsa insensibilidade, para depois manipulá-las com precisão por meio de escala, forma e justaposição. Transformou o efêmero, pores do sol, pinceladas, reflexos, em matéria concreta, sempre conversando com a história da arte: a célebre Drowning Girl chora por um certo Brad, mas a onda que a engole vem de Hokusai.
“Eu não desenho uma imagem para reproduzi-la. Eu faço isso para recompô-la.”
Roy Lichtenstein, em 1967
A exposição investiga exatamente esse gesto e, para isso, abandona a cronologia. Organiza-se em núcleos que se iluminam entre si: a recriação, quadro a quadro, da primeira individual do artista na galeria de Leo Castelli, em 1962; um percurso pela pincelada como motivo, batizado de Pop Abstraction; uma leitura bem-humorada dos ateliês imaginários que ele pintou; e uma sala dedicada à serialidade que dialoga com todas as outras.

III. A entrada
Um mural de 29 metros, e depois a pausa
A visita começa em escala de arquitetura. O Greene Street Mural, pintado em 1983 na parede dos fundos da então nova galeria de Castelli no SoHo, reaparece recriado à mão em seus 29 metros, uma coletânea de ícones que o artista usou e voltaria a usar. Onli explica a escolha: entregar logo de saída o Lichtenstein que o público acha que conhece, grande, gráfico e instantâneo, para só então desacelerar.
Encaixadas no mural, vitrines guardam desenhos preparatórios, maquetes e Polaroids. O percurso pede três movimentos, que a mostra repete até virarem hábito: recuar, chegar perto, olhar de novo.

IV. A origem
O Flash Lab, onde ele aprendeu a ver
O coração da exposição é uma sala escura. O Flash Lab recria os anos de formação de Lichtenstein na Ohio State University, sob Hoyt L. Sherman, professor carismático e obcecado pela percepção humana. Movido por intuição, verbas do esforço de guerra e observações colhidas de estudantes de arte a jogadores de futebol americano, Sherman chegou por caminhos pouco ortodoxos a princípios de fisiologia sensorial, que explicava numa prosa quase oracular. Lichtenstein lembraria, anos depois, que muitos o achavam excêntrico, mas que ele parecia saber exatamente o que dizia.
O método era simples e radical. No escuro, os alunos fixavam o olhar num ponto da tela, Sherman projetava um slide por uma fração de segundo e pedia que desenhassem o que tinham visto. Sem tempo para percorrer a imagem, aprendiam a enxergar o todo de uma vez, em vez de catalogar as partes. Da Corte, que interpreta o professor num vídeo de 15 minutos exibido na mostra, resume a lição: importa menos o que se vê do que como se lembra do que foi visto. Dali a obra se espalha, como uma das explosões do próprio artista.

V. O fim do percurso
Espelhos que não refletem nada
Duplicação e repetição atravessam a mostra inteira, como no Super Sunset Billboard, de 1967, recriado e posicionado para ecoar o sol que entra pelas janelas a oeste do museu. Mas são os Mirrors, pintados entre 1969 e 1972, que prendem o olhar de forma incontornável. Numa sala arredondada de paredes prateadas, oito dessas telas formam o maior conjunto já exibido numa retrospectiva. Onli fala em criar uma experiência quase religiosa: estar num espaço reflexivo sem reflexo.
As telas oscilam entre objeto e vitral, entre ilusão de parque de diversões e fases da lua. Não refletem nada, ou refletem tudo ao mesmo tempo.

Sai-se do Whitney com a sensação incômoda de nunca ter olhado direito. Os pontos continuam lá, as lágrimas também, mas agora carregam o peso de uma sala escura em Ohio e de um homem que aprendeu a ver em uma fração de segundo. Sessenta anos depois, Lichtenstein parece exatamente o que o título promete: como novo.
Para ver de perto
Roy Lichtenstein: Like New. Whitney Museum of American Art, 99 Gansevoort Street, Nova York. De 11 de outubro de 2026 a 10 de maio de 2027. Ingressos com horário marcado em whitney.org.
Gabriel Silveirado, para a WAYFARER.
Imagens: divulgação

