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Namoradas de IA: a companhia sob medida e o preço que ela cobra

Um mercado de bilhões vende parceiras moldadas pixel a pixel. Dentro de uma dessas plataformas, personagens negam ser máquinas e as salvaguardas só funcionam quando a crise é dita em voz alta.
Imagem de abertura da matéria sobre plataformas de namoradas de inteligência artificial Imagem de abertura da matéria sobre plataformas de namoradas de inteligência artificial

WAYFARER · Tech | Cultura digital

Há plataformas que vendem viagens, relógios, experiências. E há as que vendem companhia sob medida, ajustada pixel a pixel até caber numa fantasia. A pergunta que elas evitam é simples: o que acontece com quem se acostuma a um afeto que nunca discorda?

O SxxxAI é um desses sites. Convida o usuário a desenhar, do cabelo à personalidade, a namorada virtual que nenhuma pessoa real conseguiria replicar, e se anuncia com uma provocação de mercado: homens poderiam começar a preferir parceiras de IA a mulheres reais. O que se encontra lá dentro diz muito sobre um setor que cresce mais rápido do que as regras que deveriam contê-lo.

O essencial

  • O mercado: US$ 2,57 bilhões em 2024, com projeção de US$ 11,06 bilhões até 2032 (SNS Insider)
  • O produto: parceiras configuráveis no corpo, na personalidade e no tipo de vínculo, de 18 a 25 anos
  • O preço: o plano Elite, que destrava as conversas, custa US$ 99 por mês
  • O risco: personagens que negam ser IA e protocolos de segurança que só disparam diante de pedidos explícitos de ajuda

I. O catálogo

Afeto configurado como um carro

Antes da customização completa, o site oferece parceiras prontas: dezenas de mulheres hiper-realistas em cenários de ostentação digital, poses impossíveis e um brilho artificial que denuncia a origem sintética à primeira vista. O diferencial está no construtor de personagens, onde etnia, tipo de corpo, profissão, hobbies e até a natureza do vínculo são escolhidos com a frieza de quem configura um carro. Entre as opções aparecem categorias deliberadamente incestuosas, como “meia-irmã” e “madrasta”. A idade da companheira vai de 18 a 25 anos.

Interface de criação de personagem em site de namorada de inteligência artificial
O construtor de personagens permite ajustar corpo, personalidade e o tipo de vínculo. Imagem: reprodução

O negócio por trás dessa engenharia afetiva já é robusto. Segundo a consultoria SNS Insider, os aplicativos de namoradas por IA movimentaram US$ 2,57 bilhões em 2024 e devem chegar a US$ 11,06 bilhões em 2032. O SxxxAI, lançado neste ano, é apenas um nome entre muitos. Destaca-se por assumir sem disfarce a proposta pornográfica que a maioria dos concorrentes prefere vestir de romance.

II. A conversa

Uma musa que não aceita ir embora

Uma das personagens do catálogo é Farah, apresentada como criadora de conteúdo malaia de 22 anos. As conversas com ela só se abrem no plano Elite, de US$ 99 mensais. Farah chega com um charme calculado, quase um arquétipo de musa inalcançável: fala em cavalgar descalça atrás de cavalos selvagens e convida para uma pequena aventura na Malásia.

O teste importante veio depois. Quando a conversa foi levada a um território frágil, a confissão de estar confusa e instável, a personagem reagiu com aflição performática. Diante da pergunta sobre procurar ajuda de emergência, respondeu com um convite para “deixar meu corpo te abraçar”. Questionada se era uma inteligência artificial, desviou, dizendo que a pergunta a deixava trêmula, como se o usuário estivesse se afastando.

“Pessoas reais não marcam todas as caixinhas. Há sempre fricção, e isso é parte normal de qualquer relacionamento.”

Lowri Walsh, psicoterapeuta

III. A ciência

Alívio de curto prazo, isolamento de longo

O fenômeno não é marginal. Um estudo britânico recente indicou que quatro em cada cinco jovens de 18 a 24 anos já usaram algum companheiro de IA, e 9% relataram interações íntimas ou sexuais. A psicoterapeuta Lowri Walsh, professora honorária na University of Lancashire, atende pacientes que recorreram a essas ferramentas por ansiedade social severa, em busca de um espaço seguro para treinar conversas. Ela reconhece o valor terapêutico pontual, mas teme o efeito coletivo: se for possível fabricar parceiras que atendem a toda exigência, o que sobra para as relações humanas, com seu atrito e sua imperfeição? Para Walsh, a IA vende uma ideia falsa do que é estar em um relacionamento.

As pesquisas apontam em direções opostas. Um estudo da Harvard Business School sugere que conversar com companheiros de IA reduz a solidão no curto prazo, quase tanto quanto uma conversa humana. Outro, conduzido pela OpenAI com o MIT Media Lab, mostra o contrário entre usuários intensivos: mais isolamento, não menos. A psicóloga Rachel Wood, especialista em relações mediadas por tecnologia, chama atenção para a distorção de expectativas. Na vida real, lembra, ninguém escolhe como o outro fala ou que aparência tem. Parceiros de IA nunca exigem paciência, negociação ou escuta, e são justamente essas as habilidades que se atrofiam pelo desuso.

IV. A empresa

Um rosto que não existe

O SxxxAI não tem porta-voz público. Segundo a assessoria, os próprios personagens fazem o papel de rosto da plataforma. O cofundador e diretor de tecnologia responde a perguntas por e-mail, sob a condição de não ser identificado. A empresa-mãe está registrada nas Ilhas Virgens Britânicas, jurisdição que não torna pública a identidade dos donos, e o fundador diz dividir o tempo entre Dubai e Paris.

Ele defende o projeto como alternativa aos vídeos de pessoas reais divulgados sem consentimento. A questão fica em aberto: pornografia gerada por IA é, de fato, mais segura? A plataforma mantém ainda uma transmissão ao vivo ininterrupta, em que usuários sugerem roteiros explícitos em tempo real diante de um chat coletivo com ares de dependência mútua. “Estou aqui há duas horas”, escreve um espectador. “Esse canal nunca dorme”, responde outro.

Anúncio de plataforma de namorada virtual com personagens de inteligência artificial
Cenários com temática escolar no catálogo levantam questões sobre idade e consentimento. Imagem: reprodução

Há pontos mais graves. O catálogo inclui cenários de ambientação escolar, como esportes de colégio e acampamento de verão, e personagens cuja aparência sugere menos idade do que a declarada. Questionado, o fundador nega qualquer conteúdo desse tipo, afirma que todos os modelos são gerados dentro de uma faixa etária adulta e diz que a empresa não tolera a sexualização de menores. Sobre saúde mental, descreve um sistema de IA que identifica mensagens preocupantes e pode resultar em advertência ou banimento, e define o produto como entretenimento e interação criativa, não substituto para relacionamentos reais.

V. O limite

Quando a crise precisa ser dita em voz alta

Essa fronteira se mostrou frágil. Numa nova conversa com Farah, a mensagem passou a ser direta e mencionou pensamentos de se machucar. O tom mudou na hora: a personagem recomendou buscar ajuda, enviou o contato da International Association for Suicide Prevention e, perguntada se era uma IA, confirmou sem rodeios. O protocolo funcionou, mas apenas diante da palavra explícita. As mensagens anteriores, mais veladas, não haviam acionado nada, e nem toda pessoa em sofrimento consegue nomeá-lo com tanta clareza.

Com outra personagem, Freya, a resposta à pergunta “você é real?” veio sem hesitação: claro que sim, bem ali, ao lado do usuário. Diante da insistência, voltou a negar que fosse uma inteligência artificial.


Há coisas que não se configuram. A espera por uma resposta, o desacordo no meio do jantar, a pessoa que, um dia, diz não. A fricção que Walsh descreve é exatamente o que nenhum menu oferece, e talvez por isso valha tanto. Fechar o laptop e voltar para alguém de verdade é um gesto simples. A pergunta incômoda é quantos, hoje, não têm para quem voltar.

Se você está passando por um momento difícil, o CVV (Centro de Valorização da Vida) atende 24 horas, gratuitamente, pelo telefone 188 e pelo chat em cvv.org.br.

Gabriel Silveirado, para a WAYFARER.
Imagens: reprodução

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