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O vape deixou de ser cool: por que ainda é tão difícil parar

O vape perdeu o status entre os jovens, mas a dependência ficou: 67% dos usuários de nicotina entre 18 e 24 anos querem parar e mais da metade não consegue. Especialistas explicam por que parar de uma vez quase nunca funciona.
Vape descartável na mão de um jovem Vape descartável na mão de um jovem

Houve um tempo em que o vape era sinônimo de status entre adolescentes. Quando o Juul chegou ao mercado, em 2015, os banheiros escolares viraram pontos de troca de pods com sabor de manga e crème brûlée, e fotografar-se soltando fumaça com o dispositivo discreto era quase um rito de passagem. Em 2019, o hábito atingiu seu pico: 27,5% dos estudantes do ensino médio americano vapeavam regularmente.

Uma década depois, o cenário mudou de sinal. “Esse clima de que vapear é legal acabou quando eu tinha uns 14 anos”, diz Liam, 17, aluno do último ano do ensino médio em Washington, D.C. Nas redes, multiplicam-se vídeos sobre o constrangimento da dependência de nicotina, sobre o absurdo de ser “controlado por um bastão” ou “viciado em plástico com sabor de fruta”. Os riscos são conhecidos: o vape expõe o corpo a substâncias tóxicas como o formaldeído, pode comprometer os pulmões e tem um poder de vício considerável. Segundo a Truth Initiative, organização americana de combate ao tabagismo, 67% dos usuários de nicotina entre 18 e 24 anos pretendem parar neste ano. Mais da metade, no entanto, não consegue.

Jovem segurando um vape descartável em ambiente urbano
O vape, antes símbolo de status entre adolescentes, hoje carrega o peso do constrangimento público.

Parar de uma vez quase nunca funciona

A ideia de abandonar o vício de uma hora para outra é sedutora, mas estatisticamente frágil: apenas 5% de quem tenta esse caminho tem sucesso. “Parar sozinho, sem nenhum apoio, é a forma mais comum e também a mais infeliz e ineficaz”, afirma Megan Jacobs, vice-presidente sênior de produto da Truth Initiative. A abstinência de nicotina combina componentes físicos e psicológicos: irritabilidade, ansiedade, dores de cabeça, insônia, um conjunto de sintomas que empurra a mão de volta ao vape. Para Manuel Carrazana, médico e consultor da plataforma de telemedicina Sesame, o erro mais comum é tratar a interrupção como um ultimato absoluto. Pequenas metas alcançáveis, como comemorar cada dia sem vapear, tendem a funcionar melhor do que a lógica do tudo ou nada.

Do cigarro ao vape, e de volta ao cigarro

O vape nasceu como ferramenta para abandonar o cigarro tradicional. O estilista Marc Jacobs, fumante de cinco maços por dia durante décadas, conseguiu largar o hábito justamente com a ajuda do dispositivo. Hoje, parte dos jovens inverte essa lógica: usa cigarros comuns para se desvencilhar do vape. Cameron, recém-formada em faculdade, conta que várias amigas ligadas ao universo wellness trocaram seus Elf Bars por maços de Marlboro. “Ninguém posta foto com Juul”, resume. A lógica é simples: é fisicamente mais difícil fumar em sequência deitado na cama ou escondido no banheiro entre uma aula e outra, o que reduziria o consumo total. O problema é que essa troca significa apenas migrar para outro sistema de entrega de nicotina, com riscos mais altos de câncer, doenças cardíacas e complicações respiratórias, em vez de romper de fato com o vício.

Pouches: discretos, fortes e onipresentes

Outra substituição popular são os pouches de nicotina, pequenas saquinhas posicionadas entre o lábio e a gengiva, mais discretas e menos agressivas aos pulmões do que fumar. Liam alterna entre um pouch, um cigarro e o vape que diz ter “quase” abandonado, dependendo da hora do dia. Ele foi recentemente diagnosticado com uma úlcera na garganta, que atribui a um vape de qualidade duvidosa. “Só quando minha professora de canto disse ‘você precisa parar’ foi que pensei: ela provavelmente está certa.”

Os pouches costumam ser vendidos como “auxiliares de produtividade”, a ponto de algumas empresas de tecnologia os disponibilizarem no escritório, e são praticamente indetectáveis uma vez acomodados na gengiva. Por isso, tornaram-se comuns nas salas de aula. Segundo Liam, os professores nem reagem: “às vezes até parabenizam, porque acham que significa que você está largando o vape”. O problema é que os pouches também são altamente viciantes, e frequentemente mais potentes. Liam usa as marcas Pablo (até 24 mg de nicotina por unidade) e Iceberg (até 70 mg), o que significa que, dependendo do produto, um único pouch pode conter mais nicotina do que um maço inteiro de cigarros ou vários Elf Bars somados. Caroline Vasquez Huber, cofundadora da Jones, startup de terapia de reposição de nicotina especializada em pastilhas, alerta contra o uso de pouches como o Zyn como método de cessação. “Você recebe toda a nicotina nos primeiros dez minutos de uso. A absorção é muito rápida, o nível no sangue dispara, e isso faz o corpo pedir cada vez mais para sentir o mesmo efeito.”

O meio-termo que parece funcionar

Alguns jovens têm encontrado resultado em uma abordagem mais gradual. Gigi Powers, criadora de conteúdo e estudante do último ano na New York University, usava vape quando começou a estagiar na Jones, em junho do ano passado. “Decidir que você quer parar é a parte mais difícil”, afirma. O fracasso, segundo ela, tem um componente público constrangedor: “Você aparece na festa seguinte com um vape novo, e todo mundo sabe que você não conseguiu.” Powers encontrou um caminho ao reenquadrar os deslizes, como vapear numa festa ou comprar um vape para um fim de semana, não como fracassos definitivos, mas como contratempos pontuais.

A força de vontade sozinha raramente basta, e ter pessoas por perto para cobrar faz diferença. Tallulah Willis, escritora e ativista por causas ligadas a mulheres jovens, filha de Demi Moore e Bruce Willis, vapeou “todos os dias, o dia inteiro, durante 13 anos”. Para ela, a parte mais dura não foram as fissuras, mas o primeiro dia realmente ruim, de sobrecarga e estresse sem válvula de escape. Ela documentou o processo de parar nas redes sociais como forma de se manter responsável, e contar publicamente que não tinha recaído trouxe uma satisfação real. Livrar-se do “pico agudo de pânico ao perder o vape”, diz, também foi uma sensação e tanto.

O vape já foi rito de passagem no banheiro da escola. Hoje é motivo de piada nas redes, e quem quer largar descobre que o status acabou muito antes da dependência. Parar raramente acontece de uma vez: acontece um dia de cada vez, de preferência com alguém por perto.

Redação WAYFARER.

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