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O herdeiro mais jovem da LVMH e sua aposta na credibilidade relojoeira da Louis Vuitton

Aos 22 anos, Jean Arnault recebeu um mandato que exigiria paciência incomum para alguém daquela idade: reposicionar a relojoaria da Louis Vuitton, historicamente tratada como nota de rodapé no universo da moda, diante de um público de colecionadores que não perdoa superficialidade. Formado em engenharia mecânica pelo Imperial College London e em matemática financeira pelo M.I.T., ele assumiu a divisão em 2021, o mais jovem dos cinco filhos de Bernard Arnault, presidente e CEO da LVMH, todos hoje distribuídos em funções estratégicas pelo conglomerado.

A relojoaria representa menos de 1% da receita total da Louis Vuitton, segundo relatório da Morgan Stanley com a LuxeConsult. Ainda assim, Arnault chegou com um trunfo raro: segurança financeira para pensar em longo prazo e dois nomes que poucas marcas conseguiriam reunir sob o mesmo teto, Michel Navas e Enrico Barbasini, à frente da La Fabrique du Temps (LFT), ateliê de desenvolvimento de movimentos adquirido pela Louis Vuitton em 2011. Os dois mestres relojoeiros, formados em casas como Patek Philippe, Audemars Piguet, Gérald Genta e Franck Muller, eram, em suas próprias palavras, “subutilizados”.

Jean Arnault em visita à Fabrique du Temps em Genebra
Arnault visita a manufatura com frequência quase semanal, aqui na ala de métiers d’art da La Fabrique du Temps.

Essa percepção amadureceu quando Arnault, ainda aos 20 anos, passou por um programa de estágio interno que o levou por todos os departamentos da manufatura, da bancada de engenharia às oficinas de design. Navas lembra do espanto ao perceber a profundidade do conhecimento do jovem herdeiro. Ao mencionar seus sete anos cuidando de repetições de minutos na Patek Philippe, ouviu de volta a referência exata do calibre, incluindo o modelo com tourbillon. “Ele sabe até a referência”, resume o relojoeiro.

Colecionadores notaram o mesmo traço. Drew Coblitz, que possui um Tambour, descreve um executivo que se recusa a ficar apenas no topo da hierarquia, envolvido em cada área da produção. Para ele, essa presença conecta os relógios à pessoa de Arnault, e não apenas ao peso institucional da maior companhia de luxo do mundo.

Artesãos trabalham com apoios de pulso Louis Vuitton na manufatura
Apoios de pulso e montagem manual de componentes do Tambour Taiko Arty Automata.

Entusiasmo, porém, não substitui estratégia. Arnault credita a Michael Burke, então CEO da Louis Vuitton, a lição que reorganizou seu método: nenhuma estratégia vale sem protótipo testado antes de qualquer promessa. O conselho ecoava o que ouvia do próprio pai: se o produto é bom, as vendas seguem. Essa convicção o levou a obsessão pela perfeição técnica, entendendo que credibilidade neste setor não se compra, se conquista.

A reestruturação foi profunda. Em contramão ao instinto corporativo de escalar produção, Arnault reduziu o volume de relógios fabricados e ampliou o quadro de artesãos especializados, aproximando a Louis Vuitton do comportamento de uma manufatura independente. “Fomos para territórios mais extremos: esmalte, gravação, até o lado de usinagem CNC”, descreve. O Spin Time, uma das complicações-assinatura da marca, que antes dependia de um ébauche ETA sob o mecanismo desenvolvido pela LFT, passou a usar, a partir de 2025, um movimento inteiramente desenvolvido internamente. A estrutura, adquirida entre 2011 e 2014 junto com a Léman Cadrans, se organiza hoje em três núcleos: La Fabrique des Arts, La Fabrique des Mouvements e La Fabrique des Boîtiers.

Modelos Louis Vuitton Spin Time em diferentes acabamentos
A nova direção estética do Spin Time reflete o refinamento buscado por Arnault.

Em seus primeiros dias no cargo, Arnault ouviu de Navas e Barbasini um recado direto sobre o que precisava mudar. Levou poucos meses para se convencer de que tinham razão, ainda que a decisão de priorizar peças de alto artesanato sobre volume comercial envolvesse riscos de negócio evidentes. Parte dessa transformação passou por atrair os melhores talentos da Suíça, incluindo um artesão dedicado exclusivamente à fabricação de parafusos há 27 anos, hoje considerado uma referência no ofício.

A manufatura reúne profissionais vindos das principais casas do setor. Um especialista em guilloché com duas décadas de experiência na Breguet trabalha num mostrador Convergence tão sensível que a vibração de um carro no estacionamento pode comprometer o traço. Um esmaltador recém-chegado da Patek Philippe, reconhecível pelo bigode e pelo chapéu-coco, descreve a Louis Vuitton como “um coelho louco em turnê pelo mundo”. Um ex-funcionário da Jaeger-LeCoultre afirma ter encontrado projetos mais instigantes ali do que na manufatura que deixou.

Esmaltador mistura pigmentos em almofariz para preparar mostrador
A preparação artesanal do esmalte antecede semanas de trabalho sobre cada mostrador.

A chegada de Arnault não foi recebida sem ceticismo. William Massena, colecionador experiente e distribuidor da Daniel Roth, relembra a reação inicial do mercado: muitos viram apenas “herdeiro ganhando um brinquedo”. A percepção mudou à medida que ficou evidente o domínio técnico do executivo e sua disposição genuína para aprender, traço raro, segundo Massena, num setor cada vez mais blindado.

O próprio Arnault reconhece ter subestimado a resistência interna à sua visão, que incluiu descontinuar 80% do catálogo então vigente para elevar o padrão de acabamento em toda a coleção. Peças com o cobiçado Poinçon de Genève geravam orgulho entre os artesãos; a mudança de rumo gerou incerteza sobre a direção da marca, ainda que sem cortes de equipe.

Parede com potes de pigmentos de esmalte coloridos usados em projetos sob encomenda
Pigmentos de esmalte reunidos para projetos bespoke na Fabrique des Arts.

A nova visão se materializou rapidamente. Em março de 2023, o Daniel Roth Tourbillon Souscription reviveu a arquitetura de caixa dupla elipse que consagrou a marca nos anos 1990, limitado a 20 peças em ouro amarelo com o calibre inédito DR001 da LFT. Em junho do mesmo ano, veio o Gérald Genta Mickey Mouse Minute Repeater, criado para o leilão beneficente Only Watch, com horas saltantes e minutos retrógrados inspirados em uma peça histórica da marca.

Artesão opera máquina antiga de guilloché para decorar mostrador
O guilloché exige silêncio quase absoluto: até o som de um salto pode desviar o traço da ferramenta.

Arnault optou deliberadamente por um lançamento contido, mesmo tendo recursos para construir uma marca do zero. Preferiu o modelo de souscription, no qual colecionadores financiam antecipadamente a produção e quitam o saldo na entrega, crescendo de forma orgânica. Lex Borrero, executivo de entretenimento baseado em Miami e dono do Daniel Roth Extra Plat Skeleton, aposta que o movimento ganhará tração contínua. Para Arnault, o Daniel Roth de hoje e o de daqui a cinco anos manterão a mesma identidade visual, como o Porsche 911, mas incorporarão complicações inéditas.

Em julho de 2023, o Tambour reapareceu completamente reformulado: pulseira integrada, calibre automático LFT023 desenvolvido internamente com micro-rotor em ouro rosa de 22 quilates, pontes microjateadas com bordas chanfradas e polidas, platina com padrão circular e rubis transparentes visíveis. Mesmo amigos colecionadores próximos elogiaram o relógio sem comprá-lo, episódio que Arnault relembra com humor e certa resignação.

O verdadeiro ponto de virada veio em outubro de 2023, com a colaboração entre Louis Vuitton e Akrivia, ateliê de Rexhep Rexhepi, um dos nomes mais respeitados da relojoaria independente. O anúncio surpreendeu o setor e funcionou como chancela difícil de ignorar. A parceria também formalizou um propósito mais amplo: usar a estrutura de um conglomerado para sustentar a relojoaria independente, movimento que deu origem ao LVMH Watch Prize for Independent Creatives. A receita das dez unidades do LVRR-01, vendido a 497 mil dólares, financiou prêmios de 150 mil euros e um ano de mentoria na La Fabrique du Temps para os vencedores.

Tambour Convergence e Tambour Convergence Guilloché lado a lado
Os lançamentos de 2025 e 2026 consolidaram a aceitação do Tambour entre colecionadores.

Colaborações seguintes com Voutilainen e De Bethune mantiveram o mesmo princípio. Arnault afirma que haverá apenas cinco parcerias no total, embora o prêmio anual continue. Ele reconhece a escala da marca, comparável à da Rolex em termos de reconhecimento global, mesmo sendo pequena em volume relojoeiro, e vê nisso responsabilidade: usar esse peso para beneficiar o ofício como um todo. Questionado sobre eventuais aquisições de marcas independentes pela LVMH, não descarta a possibilidade, mas condiciona qualquer movimento à preservação do savoir-faire original, não à escala industrial.

Relojoeiro monta manualmente um movimento na manufatura
A montagem manual permanece no centro do processo, mesmo com a ampliação da produção interna.

Conquistar o consumidor final segue sendo o maior desafio. Massena observa que marcas como Hermès e Chanel enfrentam o mesmo estigma: o preconceito de que casas de moda não produzem relojoaria séria. Borrero admite que via a Louis Vuitton como “relógio de joalheria” até ser convidado para a LVMH Watch Week de 2024, quando conheceu Michel Navas pessoalmente e decidiu apostar no Tambour Convergence, do qual se tornou o primeiro comprador global, repetindo a aquisição na versão Guilloché.

Um colecionador de Chicago, que prefere não se identificar, comprou o Escale em ouro rosa de 18 quilates ainda em sua primeira geração, movido pela curiosidade genuína de testar a visão de Arnault na prática. Mesmo elogiando a sofisticação técnica, como o mecanismo de ativação discreto do Escale Minute Repeater embutido na caixa, admite que o nome na frente do mostrador ainda é, para ele, um obstáculo simbólico.

Gaveta com amostras de pedra e escultura de meteorito usadas em mostradores
Materiais raros, incluindo fragmentos de meteorito, abastecem o departamento de mostradores em pedra.

Conquistar clientes também passa por presença pessoal. Justin Reis, presidente da 1916 Company, que distribui a Daniel Roth, organizou encontros íntimos com colecionadores em Nova York e Los Angeles já em 2023, nos quais Arnault explicava, em detalhe, a direção futura da marca. Em alguns casos, ele mesmo entrega peças únicas, como um relógio de bolso sob encomenda cuja destinatária chorou ao recebê-lo. A esmaltadora responsável pelo mostrador relatou a Arnault que ouviu composições do pianista francês Sofiane Pamart durante as horas de trabalho minucioso, trilha que hoje a remete sempre àquela peça específica.

O compromisso declarado é de continuidade: para quem investe dezenas de milhares de dólares em uma peça, Arnault garante que a direção da marca não mudará drasticamente nos próximos anos. Relojoaria, lembra, exige tempo, e os sinais de que essa aposta está funcionando já aparecem: amigos colecionadores que antes elogiavam sem comprar começaram, nos últimos 12 a 18 meses, a adquirir as peças.

Modelos Daniel Roth Tourbillon Souscription e Extra Plat lado a lado
A família Daniel Roth segue a lógica de crescimento gradual defendida por Arnault.

A agenda de Arnault já se estende a Hublot e Zenith, e rumores apontam interesse crescente por outra especialidade histórica da Louis Vuitton: os baús. Um colecionador recente resumiu bem esse momento de transição, elogiando o Spin Time no pulso de Arnault antes de completar, surpreso: “E, a propósito, eu não sabia que vocês fazem baús tão bonitos.”

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