Nota editorial: publicada originalmente em 2023 e atualizada em setembro de 2026.
Um relógio marca o tempo. O mercado de relógios usados, nos últimos anos, marcou outra coisa: a distância entre desejo e euforia. Quando esta matéria foi publicada, em 2023, a ideia de que um Rolex podia render mais do que a bolsa americana circulava com força. O que veio depois ensina mais sobre investimento alternativo do que qualquer tabela de valorização.
O pico: a febre de 2021 e 2022
Durante a pandemia, a combinação de oferta restrita nas lojas oficiais, juros baixos e dinheiro sobrando empurrou os preços do mercado secundário para cima. Modelos de Rolex, Patek Philippe e Audemars Piguet chegaram a ser revendidos muito acima do preço de vitrine, e estudos de consultorias apontavam valorização superior à de índices acionários em períodos de cinco anos. O ápice veio na primavera de 2022.
A correção: onze trimestres de queda
Com a alta dos juros e o fim da euforia, os preços recuaram por onze trimestres seguidos, segundo o relatório da Morgan Stanley com a WatchCharts. Em janeiro de 2025, os Rolex usados estavam no menor nível em quatro anos, cerca de 3% abaixo de janeiro de 2021, e a fatia de modelos negociados acima do preço de loja caiu de 68% para 56% em um ano. A Patek Philippe resistiu melhor e ainda acumulava alta de 28% desde o início de 2021.
A retomada: 2025, o primeiro ano de alta desde 2021
O fundo do poço veio no fim de 2024. Em 2025, os preços do mercado secundário subiram 4,9%, a primeira alta anual desde 2021, e o índice Bloomberg Subdial, que acompanha os 50 relógios mais negociados, começou 2026 no maior nível em mais de dois anos. Pesaram os reajustes das marcas nos modelos novos, incluindo um aumento estimado de 6% da Rolex em janeiro, e as tarifas comerciais, que empurram compradores para o usado. Fora das três ou quatro marcas mais disputadas, porém, os descontos em relação ao novo seguem na casa de 30% a 40%.
O mercado brasileiro: a experiência da Orit
No Brasil, a Orit, especializada em compra e venda de joias e relógios usados, acompanhou o mesmo ciclo. Em 2023, Claudia Krieger, hoje CEO da empresa, atribuía a alta dos preços ao desequilíbrio entre oferta e demanda e lembrava que um relógio de grife usado pode custar metade do novo. A empresa relatava então forte crescimento da base de compradores de relógios entre 2020 e 2022 e vendas de joias assinadas 150% maiores de 2020 para 2021. Em 2025, a Orit fechou o ano com alta de 17% na receita do varejo, com as joias respondendo por 70% do faturamento no último trimestre.
O que vale como investimento
Assessores costumam sugerir que ativos alternativos ocupem uma parcela pequena de uma carteira diversificada. Joias e relógios cabem nessa categoria, com ressalvas claras: não pagam dividendos, têm custo de guarda e seguro, dependem de autenticidade e procedência, e a liquidez varia muito conforme a marca e o modelo. O ciclo de 2022 a 2025 mostrou que a valorização se concentra em poucas referências e pode evaporar rápido. Comprar usado pode, sim, significar pagar menos por uma peça que manterá valor, mas o melhor motivo para ter um relógio continua sendo querer usá-lo.
O relógio marca o tempo, e o tempo corrigiu o mercado. Quem comprou pelo prazer de usar atravessou a queda sem susto. Paciência, critério, gosto próprio: no mercado de usados, são esses os ativos que não desvalorizam.
Redação WAYFARER

