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A poltrona que Vilanova Artigas deixou no papel

Poltrona Preguiça com braço, de madeira e tiras de couro, diante de uma parede curva de concreto vermelho com marcas de fôrma, junto a um jardim.

WAYFARER Cultura · São Paulo

Sete décadas no papel

A dpot edita pela primeira vez a versão com braços da poltrona que Artigas derivou de uma cadeira de Richard Neutra.

Por Gabriel Silveirado Foto Leonardo Finotti Leitura de 8 minutos
1948ano do croqui assinado
1ªpeça de Artigas na dpot
88centímetros de altura
80páginas do livro da Monolito

O carimbo de uma prancha antiga resume a história: Equitativa, J. Vilanova Artigas, cadeira Preguiça com braços, 8 peças. O desenho aparece em Vilanova Artigas, designer, livro que a Editora Monolito acaba de lançar, e descreve um móvel que, segundo a dpot, nunca foi produzido. Agora existe. A marca abre com essa poltrona a edição dos móveis do arquiteto, sob licença do Instituto Virgínia e Vilanova Artigas, e o percurso da peça tira o mestre da Escola Paulista do lugar de costume: sai o concreto da FAU-USP, entram uma seguradora, uma revista feminina americana e uma cadeira feita para operários de estaleiro.

A cadeira do estaleiro

Califórnia, início dos anos 1940

A forma que Artigas chamaria de Preguiça nasceu longe de São Paulo. No início dos anos 1940, Richard Neutra desenhou para Channel Heights, conjunto habitacional encomendado pelo governo americano em San Pedro, junto ao porto de Los Angeles, uma cadeira barata, que servisse dentro e fora de casa. Os moradores eram operários dos estaleiros em tempo de guerra, as casas eram apertadas e o orçamento não admitia excessos. O mercado a conheceria como Boomerang.

O passo decisivo veio em 1947, quando a revista Woman’s Day publicou na seção de faça você mesmo as instruções para construí-la em casa. O site da casa-estúdio de Neutra em Los Angeles ainda reproduz um trecho da página. A dpot descreve o desenho como uma cadeira-conceito de patente aberta e fácil execução, e isso explica o resto: a Boomerang correu o mundo em cópias e releituras.

Artigas passou justamente esse período nos Estados Unidos. Em dezembro de 1945 pediu uma bolsa à Fundação Guggenheim para conhecer as principais escolas de arquitetura do país e subsidiar a criação de um curso na USP, e viajou entre 1946 e 1947. Nenhuma das fontes consultadas diz onde ele viu a cadeira pela primeira vez. O calendário, porém, é claro: a viagem termina no ano em que a Boomerang chega às bancas como projeto doméstico, e o croqui de mesmo perfil reproduzido no livro traz a assinatura do arquiteto e a data de 1948.

Uma cadeira pensada para operários de estaleiro foi parar na sala de espera de uma seguradora paulistana.

A sala de espera d’A Equitativa

CBI Esplanada, 1948

Em 1948, conta Giancarlo Latorraca no livro, Artigas fez seus dois únicos projetos de interiores em espaços preexistentes. O primeiro foi a sede inicial do Museu de Arte Moderna, num andar do edifício Guilherme Guinle. O segundo foi a instalação d’A Equitativa, sociedade mútua de seguros de vida, no CBI Esplanada, o arranha-céu que Lucjan Korngold projetou em 1946 e que seria inaugurado em 1951.

A seguradora sabia o que estava comprando. Fernando Serapião, no perfil publicado no volume, mostra que seus gestores entendiam instalações notáveis como prova de solidez, e a empresa anunciava em revistas como a Kosmos com uma logomarca que fundia um edifício ao E de Equitativa. Artigas respondeu com uma antecipação do interior corporativo moderno em São Paulo: espaço de trabalho integrado, divisórias de vidro e três grandes painéis de Portinari no hall.

Detalhou caixilhos, estantes, balcões, guichês e todo o mobiliário, executado artesanalmente pela Indústria de Móveis Artísticos IMA: mesas de peroba-do-campo, cadeiras de laterais contínuas recortadas em compensado de jacarandá e pau-marfim, couro verde no estofamento. Latorraca nota que o conjunto lembra pequenos prédios sobre pilotis, observação que vale para a poltrona de agora. Na sala de espera entrou a versão de Artigas para a Boomerang, batizada sem cerimônia de Preguiça. Ela se tornaria a peça mais conhecida atribuída ao arquiteto.

Duas poltronas Preguiça de madeira sobre tapete laranja com linhas sinuosas em dourado, em sala com vigas aparentes e janelas de vidro.
Duas Preguiças sobre tapete de linhas sinuosas: a versão sem braços é a peça mais conhecida atribuída a Artigas. Foto: divulgação

Linha do tempo

De um conjunto operário a uma edição licenciada

1942Richard Neutra desenha a cadeira para Channel Heights, em San Pedro, na Califórnia.
1947A Woman’s Day ensina a construí-la em casa. Artigas encerra a viagem de estudos aos Estados Unidos.
1948Artigas projeta a instalação d’A Equitativa no CBI Esplanada. O croqui reproduzido no livro traz essa data.
2026A dpot edita a Preguiça com braço e a Monolito publica Vilanova Artigas, designer.

O designer que recusaria a palavra

Um título quase irônico

João Batista Vilanova Artigas (1915-1985) é o nome central da Escola Paulista, a corrente que trabalhou o concreto bruto como posição diante do país e que tem na sede da FAU-USP, um prédio sem portas, sua lição mais conhecida. Filiado ao Partido Comunista Brasileiro desde 1945, ele ajudou a definir o currículo do curso em que lecionava e tratou as casas que projetou como laboratório de uma sociedade mais igualitária. “A casa não termina na soleira”, costumava dizer.

O móvel ocupou pouco espaço nessa trajetória. Serapião e Baba Vacaro, que assinam o texto de abertura da exposição Vilanova Artigas, Designer, datado de 6 de outubro, usam a expressão exata: designer bissexto. Artigas desenhava móveis quando não encontrava no mercado o que suas obras pediam, e eles ficavam com os clientes que podiam encomendá-los. Nacionalista, desaprovava estrangeirismos e preferia coluna ou pilar a pilotis. Daí a ironia assumida no título da mostra e do livro: os autores pedem licença ao espírito do arquiteto para chamá-lo assim.

A Preguiça, no entanto, ficou com ele. Uma fotografia publicada no livro mostra Artigas recostado na poltrona, rindo, na varanda do apartamento em que vivia, no edifício Guarani, de Rino Levi. É a imagem mais eloquente do volume. O teórico da casa como projeto de sociedade aparece ali sem discurso nenhum, testando a própria cadeira.

Vilanova Artigas em retrato em preto e branco, de camisa escura, com uma caneta na mão, levada à boca, olhando para baixo.
Vilanova Artigas criou móveis apenas quando o mercado não oferecia o que suas obras pediam. Foto: arquivo

A versão que faltava

Madeira maciça e tiras de couro

Artigas criou uma nova versão da Preguiça, com braços, e ela não passou do papel. A dpot situa o desenho nos anos 1950; o carimbo da prancha o liga à encomenda d’A Equitativa, cujo projeto é de 1948 e cujo edifício só seria inaugurado em 1951. Seja qual for a data exata, são pelo menos sete décadas de gaveta.

O que sai agora da produção é uma poltrona de 88 cm de altura, 72 de largura e 83 de profundidade, em madeira maciça, couro, espuma e tecido. A dpot a descreve de duas maneiras que parecem se contradizer, mais alta e confortável que a Preguiça, larga e baixa no conjunto, e as duas fazem sentido. Pelo desenho, a diferença é de postura: a Preguiça original deita o corpo, e a nova versão o mantém sentado, com apoio para os antebraços.

A estrutura é o que a torna reconhecível como Artigas. Os pés inclinados e a lateral que desce em cunha lembram seus pilares de concreto, e a fotografia de Leonardo Finotti, feita diante de uma parede vermelha da Casa Martirani, projeto do próprio arquiteto, aproveita o parentesco. A versão sem braços já havia voltado em 2005, em exposição organizada pelo Museu da Casa Brasileira pelos 90 anos do arquiteto. A versão com braços é inédita, e a dpot a trata como peça inaugural de uma coleção, o que sugere outros desenhos a caminho.

Detalhe da poltrona Preguiça com braço: braço curvo de madeira, assento estofado claro, tiras de couro e pé inclinado.
Braço curvo, assento estofado e tiras de couro: a Preguiça com braço em detalhe. Foto: dpot

Módulo temático · A forma

O mesmo raciocínio, duas posturas

A Preguiça sem braços resolve quase tudo com poucos elementos: laterais recortadas, tiras que formam assento e encosto e uma peça roliça inclinada que escora o conjunto. É carpintaria direta, herdeira da cadeira que a Woman’s Day ensinava a montar. A estrutura fica exposta, e a diagonal faz o que os pilares de Artigas fariam mais tarde: carrega o peso e, ao mesmo tempo, dá a expressão do objeto.

Na versão com braços, a inclinação continua nos pés, mas o braço curvo de madeira costura lateral e apoio num único gesto, e o assento ganha estofamento. O ensaio de Finotti reforça a leitura: o vermelho do concreto e o castanho da madeira ficam a poucos tons de distância, e a poltrona parece ter saído da mesma parede.

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Amostras extraídas do ensaio de Leonardo Finotti: concreto, madeira, piso e jardim.

Poltrona Preguiça de madeira escura, com laterais recortadas, tiras claras e apoios inclinados roliços.
A Preguiça sem braços, versão de Artigas para a Boomerang de Neutra. Imagem: divulgação

Oitenta páginas para um capítulo raro

Coleção Designer, Monolito e dpot

O livro é curto e cumpre o que promete. Integra a Coleção Designer, que a Monolito desenvolve com a dpot e que já reuniu Lucio Costa, Rino Levi, Giancarlo Palanti, John Graz, Sergio Bernardes e Geraldo de Barros. São dois textos, o perfil O designado, de Serapião, e o artigo Arquitetura do design, de Latorraca, seguidos de um ensaio fotográfico sobre a Preguiça, com a colaboração do Instituto Virgínia e Vilanova Artigas.

A pesquisa passou pela Biblioteca da FAU-USP e recupera desenhos pouco conhecidos, propostas não executadas e intervenções integradas à arquitetura, como os bancos de concreto da própria faculdade. As fotografias incluem trabalhos de Fernando Laszlo e Leonardo Finotti. O melhor do volume está nos documentos: o croqui de 1948 e a prancha carimbada, vistos em sequência, obrigam a rever a ideia de que Artigas só pensava em grande escala.

A Monolito conhece o personagem: a edição 27 da revista, de 2015, tratou de Artigas e da FAU/USP. A diferença agora é a escala. O interesse pelo desenho dele também chega a outros objetos: em fevereiro, o showroom da dpot exibiu um tapete da Punto e Filo, feito sob licença do instituto a partir de um desenho original do arquiteto.

Capa do livro Vilanova Artigas, designer, da Editora Monolito, em rosa e cinza, com o desenho da poltrona Preguiça em preto.
Vilanova Artigas, designer, Monolito, 2026
Capa da revista Monolito número 27, de 2015, dedicada a Vilanova Artigas e à FAU/USP, com um homem de terno em pé sobre uma passarela de concreto.
Revista Monolito 27, 2015
O legado de Artigas também pode ser lido na curva de um braço.

Ficha técnica

Preguiça com braço e Vilanova Artigas, designer

01A poltrona
Peça
Poltrona Preguiça com braço
Desenho
João Batista Vilanova Artigas (1915-1985)
Encomenda de origem
A Equitativa, edifício CBI Esplanada, São Paulo
Edição
dpot, com exclusividade, sob licença do Instituto Virgínia e Vilanova Artigas (IVVA)
Medidas
88 cm de altura, 72 cm de largura e 83 cm de profundidade
Materiais
Madeira maciça, couro, espuma e tecido
Preço e prazo
Sob consulta à dpot
02O livro
Título
Vilanova Artigas, designer
Editora
Monolito, 2026, Coleção Designer
Textos
O designado, de Fernando Serapião, e Arquitetura do design, de Giancarlo Latorraca
Formato
20 × 27 cm, brochura, 80 páginas, em português
ISBN
978-65-88931-29-5
Preço
R$ 82 no site da editora em novembro de 2026
03Onde encontrar
Poltrona
dpot.com.br · @dpotbrasil
Livro
editoramonolito.com.br · @editoramonolito

Há uma ironia confortável nesse percurso. Neutra desenhou a cadeira para operários, a Woman’s Day a entregou a quem tivesse serrote em casa, e Artigas, comunista desde 1945, a levou para a sala de espera de uma seguradora. A versão com braços chega agora como edição licenciada, para arquitetos e colecionadores. A dpot fala em permitir um usufruto maior, e isso é verdade diante dos poucos clientes que tiveram esses móveis, mas ainda fica longe da democracia que a Boomerang prometia.

O mérito da edição está em outro lugar. Ela tira do carimbo de uma prancha uma peça que ninguém tinha visto construída e obriga a olhar para Artigas numa escala em que ele raramente foi olhado. Para quem quiser essa história sem comprar a poltrona, são R$ 82 e oitenta páginas. Artigas, que não gostava da palavra designer, talvez preferisse a segunda opção.

Com informações de dpot, Editora Monolito, Neutra VDL, Phaidon, LACMA e Tribuna do Paraná.

Texto Gabriel Silveirado
Fotos Leonardo Finotti, dpot, Editora Monolito e divulgação
WAYFARER Cultura · Novembro de 2026

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