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Anna Wintour: o percurso da inglesa que conquistou a América e o trono da Vogue

Durante 37 anos à frente da Vogue americana, Anna Wintour redesenhou a moda, o Met Gala e a cultura das celebridades. Em 2025, deixou a cadeira de editora sem deixar a sala.

Nota editorial: publicada originalmente em 2019 e atualizada em setembro de 2026.

Poucas pessoas definiram tanto o que o mundo veste sem jamais tirar os óculos escuros.

Anna Wintour dirigiu a Vogue americana por 37 anos, de 1988 a 2025, e transformou uma revista de moda no centro de gravidade de uma indústria inteira. Em 2025, deixou o comando diário da edição dos Estados Unidos, mas não saiu de cena: segue como diretora global de conteúdo da Condé Nast e diretora editorial global da Vogue. O trono mudou de mãos. A coroa, nem tanto.

Londres: um começo sem diploma

Nascida em Londres em 3 de novembro de 1949, filha de Charles Wintour, que por quase duas décadas editou o Evening Standard, e de Eleanor Baker, ela cresceu em Hampstead, numa família cercada de jornalismo. Largou a escola aos 18 anos e trocou a universidade pelo trabalho, começando como assistente de moda na Harper’s & Queen.

Anna Wintour

Em 1976, para escapar da sombra do sobrenome, mudou-se para Nova York. Passou por várias redações, entre elas a New York Magazine, e foi demitida da Harper’s Bazaar por ser, nas palavras do editor, “europeia demais”. Anos depois, ela traduziria o comentário como obstinação. Tinha razão.

Anna Wintour

Em 1985 voltou a Londres para dirigir a Vogue britânica. Ficou pouco. Em 1988 assumiu a Vogue americana, o cargo que definiria sua vida e boa parte da moda das décadas seguintes.

Vogue: um reinado de rupturas

Anna Wintour

A primeira capa já foi uma provocação. Em novembro de 1988, a modelo israelense Michaela Bercu aparecia de olhos quase fechados, cabelo no rosto, casaco Christian Lacroix e jeans. A gráfica chegou a desconfiar de erro. Em maio de 1989, Madonna ocupou a capa, e a Vogue passou a abrir espaço para celebridades, uma aposta criticada na época e depois copiada por todo o mercado. Wintour entendeu antes dos outros que a cultura das celebridades seria o idioma da moda.

As polêmicas nunca a abandonaram. A capa com Kim Kardashian e Kanye West, em abril de 2014, dividiu leitores. Em 2016, a revista declarou apoio a Hillary Clinton, a primeira vez que se posicionava numa eleição presidencial americana.

Anna Wintour

A imagem fria, sustentada pelos óculos escuros e pelo sorriso raro, inspirou O Diabo Veste Prada, romance de Lauren Weisberger, que foi sua assistente, e o filme de 2006 com Meryl Streep. Wintour nunca se esquivou: disse preferir ordens claras, mesmo quando não são o que as pessoas querem ouvir.

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Met Gala: de jantar beneficente a evento global

A relação entre a Vogue e o Costume Institute do Metropolitan Museum vem dos anos 1970, quando Diana Vreeland, ex-editora da revista, se tornou consultora do museu. Wintour levou essa aliança a outra escala. Sob sua presidência, o baile anual que abre a exposição de moda do Met passou a acontecer em maio, a lista de convidados passou a misturar moda, cinema, música e esporte, e a noite virou o evento de moda mais comentado do planeta. Em 2014, o espaço do Costume Institute foi rebatizado de Anna Wintour Costume Center.

Anna Wintour

Depois do 11 de setembro, que atingiu Nova York em plena semana de moda, ela mobilizou a indústria para socorrer jovens estilistas que tinham perdido tudo. Daí nasceu o CFDA/Vogue Fashion Fund, que desde então premia e orienta novos talentos americanos.

Persona: o bob e os óculos

Anna Wintour

Como Karl Lagerfeld com o rabo de cavalo e as luvas, Wintour construiu uma silhueta reconhecível a quilômetros: o corte bob que usa desde a juventude, os óculos escuros, os colares e os sapatos Manolo Blahnik. Sobre os óculos, já explicou que são úteis porque evitam que os outros saibam o que ela pensa.

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Transição: uma saída que não é despedida

Os rumores de aposentadoria circularam por mais de uma década. Quando a mudança enfim veio, em 2025, veio no ritmo dela. Wintour anunciou que deixaria a edição americana, e em setembro Chloe Malle foi nomeada chefe de conteúdo editorial da Vogue dos Estados Unidos, reportando diretamente a ela. Condecorada Dame pela coroa britânica em 2017, Wintour continua à frente do conteúdo global da Condé Nast e do Met Gala.

Os óculos continuam no lugar, e o bob também. Trinta e sete anos depois da capa que a gráfica achou que era erro, Anna Wintour deixou a cadeira de editora sem deixar a sala: segue decidindo, em voz baixa, o que o resto do mundo vai achar elegante.

Leia também: Chanel in Vogue documenta a história da maison na revista Vogue e New York Fashion Week vista da primeira fila.

Redação WAYFARER

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