
WAYFARER Cultura · São Paulo
A dpot edita pela primeira vez a versão com braços da poltrona que Artigas derivou de uma cadeira de Richard Neutra.
O carimbo de uma prancha antiga resume a história: Equitativa, J. Vilanova Artigas, cadeira Preguiça com braços, 8 peças. O desenho aparece em Vilanova Artigas, designer, livro que a Editora Monolito acaba de lançar, e descreve um móvel que, segundo a dpot, nunca foi produzido. Agora existe. A marca abre com essa poltrona a edição dos móveis do arquiteto, sob licença do Instituto Virgínia e Vilanova Artigas, e o percurso da peça tira o mestre da Escola Paulista do lugar de costume: sai o concreto da FAU-USP, entram uma seguradora, uma revista feminina americana e uma cadeira feita para operários de estaleiro.
A cadeira do estaleiro
Califórnia, início dos anos 1940
A forma que Artigas chamaria de Preguiça nasceu longe de São Paulo. No início dos anos 1940, Richard Neutra desenhou para Channel Heights, conjunto habitacional encomendado pelo governo americano em San Pedro, junto ao porto de Los Angeles, uma cadeira barata, que servisse dentro e fora de casa. Os moradores eram operários dos estaleiros em tempo de guerra, as casas eram apertadas e o orçamento não admitia excessos. O mercado a conheceria como Boomerang.
O passo decisivo veio em 1947, quando a revista Woman’s Day publicou na seção de faça você mesmo as instruções para construí-la em casa. O site da casa-estúdio de Neutra em Los Angeles ainda reproduz um trecho da página. A dpot descreve o desenho como uma cadeira-conceito de patente aberta e fácil execução, e isso explica o resto: a Boomerang correu o mundo em cópias e releituras.
Artigas passou justamente esse período nos Estados Unidos. Em dezembro de 1945 pediu uma bolsa à Fundação Guggenheim para conhecer as principais escolas de arquitetura do país e subsidiar a criação de um curso na USP, e viajou entre 1946 e 1947. Nenhuma das fontes consultadas diz onde ele viu a cadeira pela primeira vez. O calendário, porém, é claro: a viagem termina no ano em que a Boomerang chega às bancas como projeto doméstico, e o croqui de mesmo perfil reproduzido no livro traz a assinatura do arquiteto e a data de 1948.
Uma cadeira pensada para operários de estaleiro foi parar na sala de espera de uma seguradora paulistana.
A sala de espera d’A Equitativa
CBI Esplanada, 1948
Em 1948, conta Giancarlo Latorraca no livro, Artigas fez seus dois únicos projetos de interiores em espaços preexistentes. O primeiro foi a sede inicial do Museu de Arte Moderna, num andar do edifício Guilherme Guinle. O segundo foi a instalação d’A Equitativa, sociedade mútua de seguros de vida, no CBI Esplanada, o arranha-céu que Lucjan Korngold projetou em 1946 e que seria inaugurado em 1951.
A seguradora sabia o que estava comprando. Fernando Serapião, no perfil publicado no volume, mostra que seus gestores entendiam instalações notáveis como prova de solidez, e a empresa anunciava em revistas como a Kosmos com uma logomarca que fundia um edifício ao E de Equitativa. Artigas respondeu com uma antecipação do interior corporativo moderno em São Paulo: espaço de trabalho integrado, divisórias de vidro e três grandes painéis de Portinari no hall.
Detalhou caixilhos, estantes, balcões, guichês e todo o mobiliário, executado artesanalmente pela Indústria de Móveis Artísticos IMA: mesas de peroba-do-campo, cadeiras de laterais contínuas recortadas em compensado de jacarandá e pau-marfim, couro verde no estofamento. Latorraca nota que o conjunto lembra pequenos prédios sobre pilotis, observação que vale para a poltrona de agora. Na sala de espera entrou a versão de Artigas para a Boomerang, batizada sem cerimônia de Preguiça. Ela se tornaria a peça mais conhecida atribuída ao arquiteto.

Linha do tempo
De um conjunto operário a uma edição licenciada
O designer que recusaria a palavra
Um título quase irônico
João Batista Vilanova Artigas (1915-1985) é o nome central da Escola Paulista, a corrente que trabalhou o concreto bruto como posição diante do país e que tem na sede da FAU-USP, um prédio sem portas, sua lição mais conhecida. Filiado ao Partido Comunista Brasileiro desde 1945, ele ajudou a definir o currículo do curso em que lecionava e tratou as casas que projetou como laboratório de uma sociedade mais igualitária. “A casa não termina na soleira”, costumava dizer.
O móvel ocupou pouco espaço nessa trajetória. Serapião e Baba Vacaro, que assinam o texto de abertura da exposição Vilanova Artigas, Designer, datado de 6 de outubro, usam a expressão exata: designer bissexto. Artigas desenhava móveis quando não encontrava no mercado o que suas obras pediam, e eles ficavam com os clientes que podiam encomendá-los. Nacionalista, desaprovava estrangeirismos e preferia coluna ou pilar a pilotis. Daí a ironia assumida no título da mostra e do livro: os autores pedem licença ao espírito do arquiteto para chamá-lo assim.
A Preguiça, no entanto, ficou com ele. Uma fotografia publicada no livro mostra Artigas recostado na poltrona, rindo, na varanda do apartamento em que vivia, no edifício Guarani, de Rino Levi. É a imagem mais eloquente do volume. O teórico da casa como projeto de sociedade aparece ali sem discurso nenhum, testando a própria cadeira.

A versão que faltava
Madeira maciça e tiras de couro
Artigas criou uma nova versão da Preguiça, com braços, e ela não passou do papel. A dpot situa o desenho nos anos 1950; o carimbo da prancha o liga à encomenda d’A Equitativa, cujo projeto é de 1948 e cujo edifício só seria inaugurado em 1951. Seja qual for a data exata, são pelo menos sete décadas de gaveta.
O que sai agora da produção é uma poltrona de 88 cm de altura, 72 de largura e 83 de profundidade, em madeira maciça, couro, espuma e tecido. A dpot a descreve de duas maneiras que parecem se contradizer, mais alta e confortável que a Preguiça, larga e baixa no conjunto, e as duas fazem sentido. Pelo desenho, a diferença é de postura: a Preguiça original deita o corpo, e a nova versão o mantém sentado, com apoio para os antebraços.
A estrutura é o que a torna reconhecível como Artigas. Os pés inclinados e a lateral que desce em cunha lembram seus pilares de concreto, e a fotografia de Leonardo Finotti, feita diante de uma parede vermelha da Casa Martirani, projeto do próprio arquiteto, aproveita o parentesco. A versão sem braços já havia voltado em 2005, em exposição organizada pelo Museu da Casa Brasileira pelos 90 anos do arquiteto. A versão com braços é inédita, e a dpot a trata como peça inaugural de uma coleção, o que sugere outros desenhos a caminho.

Módulo temático · A forma
O mesmo raciocínio, duas posturas
A Preguiça sem braços resolve quase tudo com poucos elementos: laterais recortadas, tiras que formam assento e encosto e uma peça roliça inclinada que escora o conjunto. É carpintaria direta, herdeira da cadeira que a Woman’s Day ensinava a montar. A estrutura fica exposta, e a diagonal faz o que os pilares de Artigas fariam mais tarde: carrega o peso e, ao mesmo tempo, dá a expressão do objeto.
Na versão com braços, a inclinação continua nos pés, mas o braço curvo de madeira costura lateral e apoio num único gesto, e o assento ganha estofamento. O ensaio de Finotti reforça a leitura: o vermelho do concreto e o castanho da madeira ficam a poucos tons de distância, e a poltrona parece ter saído da mesma parede.
Amostras extraídas do ensaio de Leonardo Finotti: concreto, madeira, piso e jardim.

Oitenta páginas para um capítulo raro
Coleção Designer, Monolito e dpot
O livro é curto e cumpre o que promete. Integra a Coleção Designer, que a Monolito desenvolve com a dpot e que já reuniu Lucio Costa, Rino Levi, Giancarlo Palanti, John Graz, Sergio Bernardes e Geraldo de Barros. São dois textos, o perfil O designado, de Serapião, e o artigo Arquitetura do design, de Latorraca, seguidos de um ensaio fotográfico sobre a Preguiça, com a colaboração do Instituto Virgínia e Vilanova Artigas.
A pesquisa passou pela Biblioteca da FAU-USP e recupera desenhos pouco conhecidos, propostas não executadas e intervenções integradas à arquitetura, como os bancos de concreto da própria faculdade. As fotografias incluem trabalhos de Fernando Laszlo e Leonardo Finotti. O melhor do volume está nos documentos: o croqui de 1948 e a prancha carimbada, vistos em sequência, obrigam a rever a ideia de que Artigas só pensava em grande escala.
A Monolito conhece o personagem: a edição 27 da revista, de 2015, tratou de Artigas e da FAU/USP. A diferença agora é a escala. O interesse pelo desenho dele também chega a outros objetos: em fevereiro, o showroom da dpot exibiu um tapete da Punto e Filo, feito sob licença do instituto a partir de um desenho original do arquiteto.


O legado de Artigas também pode ser lido na curva de um braço.
Ficha técnica
Preguiça com braço e Vilanova Artigas, designer
01A poltrona
- Peça
- Poltrona Preguiça com braço
- Desenho
- João Batista Vilanova Artigas (1915-1985)
- Encomenda de origem
- A Equitativa, edifício CBI Esplanada, São Paulo
- Edição
- dpot, com exclusividade, sob licença do Instituto Virgínia e Vilanova Artigas (IVVA)
- Medidas
- 88 cm de altura, 72 cm de largura e 83 cm de profundidade
- Materiais
- Madeira maciça, couro, espuma e tecido
- Preço e prazo
- Sob consulta à dpot
02O livro
- Título
- Vilanova Artigas, designer
- Editora
- Monolito, 2026, Coleção Designer
- Textos
- O designado, de Fernando Serapião, e Arquitetura do design, de Giancarlo Latorraca
- Formato
- 20 × 27 cm, brochura, 80 páginas, em português
- ISBN
- 978-65-88931-29-5
- Preço
- R$ 82 no site da editora em novembro de 2026
03Onde encontrar
- Poltrona
- dpot.com.br · @dpotbrasil
- Livro
- editoramonolito.com.br · @editoramonolito
Há uma ironia confortável nesse percurso. Neutra desenhou a cadeira para operários, a Woman’s Day a entregou a quem tivesse serrote em casa, e Artigas, comunista desde 1945, a levou para a sala de espera de uma seguradora. A versão com braços chega agora como edição licenciada, para arquitetos e colecionadores. A dpot fala em permitir um usufruto maior, e isso é verdade diante dos poucos clientes que tiveram esses móveis, mas ainda fica longe da democracia que a Boomerang prometia.
O mérito da edição está em outro lugar. Ela tira do carimbo de uma prancha uma peça que ninguém tinha visto construída e obriga a olhar para Artigas numa escala em que ele raramente foi olhado. Para quem quiser essa história sem comprar a poltrona, são R$ 82 e oitenta páginas. Artigas, que não gostava da palavra designer, talvez preferisse a segunda opção.
