A possibilidade de criação de um novo imposto sobre grandes fortunas na Califórnia já começa a produzir efeitos concretos, mesmo antes de qualquer aprovação formal. A simples tramitação da proposta, que prevê a cobrança de uma taxa única de 5% sobre patrimônios superiores a US$ 1 bilhão, tem levado parte do grupo mais rico do estado a antecipar decisões estratégicas e mudar de endereço.
De acordo com informações divulgadas pela Bloomberg, ao menos seis bilionários deixaram a Califórnia antes do prazo de 1º de janeiro, data que definiria quem estaria sujeito à eventual cobrança. Outros nomes de altíssimo patrimônio avaliam seguir o mesmo caminho caso a medida avance. O movimento reforça um padrão já observado em outros mercados, no qual alterações no ambiente tributário influenciam diretamente decisões de residência e investimento.
Entre os casos mais emblemáticos estão os de Peter Thiel e David Sacks, ambos figuras centrais do ecossistema de tecnologia e investimentos do Vale do Silício. No fim de 2025, Thiel, cofundador do PayPal, transferiu sua base para a Flórida, enquanto Sacks optou pelo Texas. Divesh Makan, fundador da gestora global Iconiq Capital, afirma ter conhecimento de ao menos quatro ou cinco famílias que deixaram o estado, alertando que o fluxo pode se intensificar caso o projeto seja aprovado. David Lesperance, especialista em imigração e planejamento tributário para famílias de alta renda, relatou ter auxiliado diretamente na mudança de quatro bilionários para fora da Califórnia.
A proposta ainda enfrenta um caminho incerto. Para avançar, precisa reunir assinaturas suficientes para ser incluída na cédula eleitoral de novembro e, posteriormente, ser aprovada por voto popular. O governador da Califórnia, Gavin Newsom, já se posicionou de forma contrária à medida. Críticos argumentam que o imposto pode fragilizar o ecossistema de inovação do estado, especialmente startups e empresas de tecnologia que dependem de capital intensivo e de um ambiente competitivo para crescer.
Há também o receio de que o impacto fiscal seja o oposto do esperado. A economia californiana é fortemente sustentada pela arrecadação proveniente dos ultrarricos e, caso uma parcela significativa desse grupo deixe o estado, a base tributária pode encolher no médio e longo prazo. Ainda assim, os proponentes do projeto estimam que a medida poderia gerar cerca de US$ 100 bilhões, destinados a cobrir déficits em áreas como saúde, assistência alimentar e educação.
Nem todos, porém, consideram a mudança uma opção. Jensen Huang, CEO da Nvidia, afirmou que não pretende deixar a Califórnia mesmo se o imposto entrar em vigor. Com fortuna estimada em mais de US$ 150 bilhões, o executivo declarou que a escolha por viver no Vale do Silício vem acompanhada da aceitação das regras fiscais locais.
O debate californiano reflete uma tendência global. Em 2024, o Reino Unido encerrou o regime fiscal conhecido como “non-dom”, levando muitos milionários a deixarem o país. Nesse contexto, a Itália emergiu como um destino atrativo, ao oferecer um modelo de tributação fixa para estrangeiros de alta renda, permitindo o pagamento de uma taxa anual para isenção sobre rendimentos obtidos no exterior.
Mais do que uma discussão sobre arrecadação, o caso da Califórnia expõe o delicado equilíbrio entre justiça fiscal, competitividade econômica e mobilidade global de grandes fortunas. Enquanto o projeto segue em análise, o movimento silencioso de saídas antecipadas já sinaliza que, no universo do capital extremo, decisões políticas raramente passam despercebidas.