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Como a elite global está redesenhando o mapa imobiliário de Miami

Em um estreito arco de ilhas artificiais e bairros costeiros voltados para a Baía de Biscayne, Miami se tornou o cenário de uma disputa silenciosa entre algumas das maiores fortunas do planeta. A cidade, já consolidada como um dos principais polos de luxo dos Estados Unidos, assiste agora a uma nova corrida pelo que talvez seja seu recurso mais escasso: terrenos exclusivos com vista aberta para o mar e para o skyline do centro.

Nos bairros mais disputados de Miami Beach, especialmente nas ilhas privadas e comunidades fechadas, investidores ligados ao universo da tecnologia, das finanças e do capital global disputam propriedades raras que dificilmente chegam ao mercado. Em muitos casos, as negociações acontecem longe dos anúncios imobiliários tradicionais. Conversas iniciadas em clubes de golfe, partidas de padel, encontros em iates privados ou eventos sociais acabam resultando em ofertas milionárias capazes de convencer proprietários relutantes a vender suas casas.

A escassez de imóveis nessa faixa extrema do mercado explica a intensidade dessa disputa. No final de fevereiro, havia apenas oito casas unifamiliares listadas em Miami com preços acima de 50 milhões de dólares. Diante de um inventário tão limitado, compradores com patrimônio praticamente ilimitado oferecem cifras que ultrapassam qualquer parâmetro convencional de avaliação.

O contraste com o restante do mercado imobiliário americano é evidente. Enquanto grande parte dos Estados Unidos enfrenta um período de desaceleração nas vendas, com juros elevados e estoques inflados de propriedades caras, o topo da pirâmide segue em plena atividade. Em janeiro, o preço médio das residências em Miami girava em torno de 610 mil dólares, com queda anual de mais de sete por cento e tempo médio de venda de quase quatro meses. No segmento ultraexclusivo, porém, a dinâmica é outra. Ali, a disputa não se concentra nas casas em si, mas nos terrenos mais bem posicionados.

Entre os compradores recentes estão alguns dos nomes mais conhecidos da economia global. Em março de 2025, o empresário Michael Ferro Jr., da Merrick Ventures, adquiriu uma propriedade de 2,5 acres na famosa Star Island por 120 milhões de dólares. Pouco depois, o gestor de hedge fund Nick Maounis comprou uma mansão de nove quartos em La Gorce Circle por 74,25 milhões de dólares, marcada por uma escada em espiral inspirada no Museu Guggenheim.

O interesse também vem de gigantes da tecnologia. Larry Page, cofundador do Google, investiu mais de 173 milhões de dólares na compra de duas propriedades em Coconut Grove, incluindo um grande complexo à beira-mar. Sergey Brin também demonstrou interesse em imóveis da região, enquanto Mark Zuckerberg e sua esposa, Priscilla Chan, estabeleceram um novo recorde para o condado de Miami-Dade ao pagar cerca de 170 milhões de dólares por uma mansão em construção na ilha de Indian Creek.

Para muitos desses compradores, adquirir apenas uma casa não é suficiente. A estratégia frequentemente envolve comprar propriedades vizinhas para criar grandes complexos privados que incluem múltiplas residências, quadras esportivas, piscinas, jardins elaborados e áreas de lazer integradas. Em Venetian Islands, por exemplo, uma proprietária pediu 12 milhões de dólares por uma casa avaliada em cerca de 7 milhões. O interessado aceitou imediatamente, assinando o cheque na hora.

Desenvolvedores locais comparam esse momento ao período conhecido como Gilded Age, quando famílias industriais americanas construíram vastas propriedades inspiradas nas grandes residências aristocráticas europeias. Hoje, a lógica parece semelhante. Um terreno adquirido por 105 milhões de dólares na exclusiva North Bay Road deverá dar lugar a uma residência projetada para ser vendida por cerca de 300 milhões.

Entre todas as áreas cobiçadas da região, poucas possuem tanto prestígio quanto Indian Creek Village. A pequena ilha artificial, conectada ao continente por uma única ponte com acesso controlado, abriga apenas algumas dezenas de residências, um clube de golfe e um sistema próprio de segurança que inclui patrulhamento terrestre, marítimo e monitoramento por câmeras. Conhecida informalmente como Billionaire Bunker, a ilha reúne moradores como Jeff Bezos, Ivanka Trump e Tom Brady.

A valorização desse mercado acompanha o crescimento acelerado da riqueza entre os mais ricos dos Estados Unidos. Segundo dados do Federal Reserve, o patrimônio líquido do 0,1 por cento mais rico da população dobrou desde 2020, alcançando quase 25 trilhões de dólares. Esse grupo hoje concentra mais de 14 por cento de toda a riqueza das famílias americanas.

Nesse contexto, o preço de uma propriedade pode se tornar quase irrelevante. Para compradores com fortunas na casa das centenas de bilhões, uma oferta adicional de alguns milhões representa pouco mais do que um ajuste marginal em seus ativos.

Alguns analistas apontam a política tributária como um dos fatores que impulsionam a mudança para a Flórida. Diferentemente de estados como Califórnia ou Nova York, o estado não cobra imposto de renda estadual. A possibilidade de novas taxações sobre grandes fortunas em outras regiões também contribui para esse movimento migratório.

Ainda assim, muitos desses bilionários mantêm múltiplas residências ao redor do mundo, o que torna difícil saber quantos realmente pretendem estabelecer raízes permanentes em Miami. Alguns sinais, no entanto, indicam mudanças concretas. Escolas privadas de elite da cidade registram aumento recorde no número de inscrições, refletindo a chegada de novas famílias.

Na vida cotidiana desses moradores, a água se torna parte essencial da mobilidade. Em uma cidade onde o trânsito frequentemente se torna caótico, helicópteros, lanchas rápidas e marinas privadas funcionam como rotas alternativas. Jeff Bezos, por exemplo, costuma chegar a Miami em jato particular, seguir de helicóptero até uma plataforma na Baía de Biscayne e completar o trajeto final até sua casa de lancha.

Enquanto isso, muitas das antigas mansões da região estão sendo demolidas para dar lugar a projetos ainda mais ambiciosos. Em Sunset Island, uma nova residência avaliada em 85 milhões de dólares terá piscina infinita de dois níveis, janelas inteligentes controladas por inteligência artificial e um lustre monumental suspenso do terceiro andar até o salão principal.

Mesmo assim, algumas propriedades permanecem fora do alcance. Em um terreno vizinho, com vista direta para o centro de Miami, um comprador ofereceu 100 milhões de dólares por uma casa que nem sequer estava à venda. O proprietário recusou.

Na atual corrida imobiliária de Miami, a disputa não se define apenas por quem pode pagar mais. Ela também depende de algo cada vez mais raro no litoral da cidade: proprietários dispostos a abrir mão de um dos endereços mais cobiçados do mundo.

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