WAYFARER · Viagem | Guia de Inverno 2026-2027
Existe um silêncio que só a neve produz. Ele começa às oito e meia da manhã, na primeira descida, quando a pista ainda está penteada e ninguém disse nada. E termina à noite, diante de uma lareira, com as pernas cansadas e o rosto marcado de sol. É atrás desse silêncio que se atravessa um oceano. O resto, os palácios, os chefs, os spas, é moldura.
Enquanto o Brasil entra no verão, a Europa afia as lâminas. A temporada 2026-2027 começa com as Dolomitas ainda vivendo o eco dos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina, realizados em fevereiro, e com uma safra de hotéis que abre ou reabre na primeira quinzena de dezembro. Percorremos o mapa com um critério só: o que justifica a viagem. Não é uma lista de tudo o que existe. É uma seleção do que vale.
Qual estação é a sua
- Para ver e ser visto: St. Moritz e Courchevel 1850
- Para desaparecer: Gstaad e Lech
- Para esquiar de verdade: Verbier, Zermatt e Chamonix
- Para comer e olhar a paisagem: as Dolomitas
- Para a festa: Kitzbühel na semana do Hahnenkamm
- Para fugir do óbvio: Baqueira Beret
- Para ir em família sem drama: Andorra
As aberturas da temporada
| Hotel | Onde | Abre | O destaque |
|---|---|---|---|
| Sivolière | Courchevel 1850 | 3 dez | Spa de 800 m² com piscina de 25 m |
| The First Cortina | Cortina d’Ampezzo | 4 dez | 76 quartos, Zuma e spa de 1.000 m² |
| Bârma | Courchevel La Tania | 5 dez | Spa Susanne Kaufmann, esqui na porta |
| THE GREEN | Zillertal, Áustria | 11 dez | 3.300 m² de bem-estar e lago natural |
| Saint Roch | Courchevel 1850 | 18 dez | A volta de uma instituição, por Maisons Pariente |
| Bourbon Hotel | Courchevel 1850 | 18 dez | Cinco estrelas da coleção Chapitre Six |
| Le Morgane | Chamonix | dez | Reabertura com 54 quartos e suítes |
| The Ski Lodge | Verbier | dez | 36 quartos, sem televisão |
I. Courchevel 1850, França
A capital que nunca para de se reinventar

Nenhum lugar no mundo concentra tanto luxo por metro quadrado de neve. Courchevel 1850 é a porta de entrada dos Trois Vallées, o maior domínio esquiável interligado do planeta, com cerca de 600 quilômetros de pistas que conectam Courchevel, Méribel e Val Thorens. Chega-se de helicóptero ou de avião pequeno ao altiporto, uma pista de pouso curta e inclinada, desenhada na própria montanha. É uma das aterrissagens mais comentadas dos Alpes.
O que muda nesta temporada. Courchevel é a estação que mais se renova no inverno 2026-2027. Em 18 de dezembro, as Maisons Pariente devolvem à 1850 uma instituição local, o Saint Roch, com 37 quartos e suítes, uma cobertura de 244 m², restaurante Prunier e spa Tata Harper. No mesmo dia estreia o Bourbon Hotel, cinco estrelas da coleção Chapitre Six, com 31 quartos, trattoria Simonetta e saída de esqui pela porta. Antes deles, em 3 de dezembro, o Sivolière reabre com 35 quartos, residências para até 15 hóspedes e um spa de 800 m² com piscina de 25 metros. Mais abaixo, em La Tania, o Bârma abre em 5 de dezembro com 75 quartos e spa Susanne Kaufmann.
Os clássicos. Cheval Blanc, Les Airelles, L’Apogée e Le K2 Palace seguem como o quarteto que define o padrão da estação. E o futuro já tem nome: Raffles e One&Only anunciaram projetos na 1850, previstos para 2028 e 2030.
O almoço. O Cap Horn, ao lado do altiporto, é a mesa de montanha mais disputada da estação, com terraço ao sol e vista para quem pousa e decola.
II. Chamonix, França
A montanha em estado bruto

Se Courchevel é vitrine, Chamonix é oficina. Aos pés do Mont Blanc, a cidade que sediou os primeiros Jogos Olímpicos de Inverno, em 1924, é a capital mundial do alpinismo e do esqui de alta montanha. Seu programa mais lendário é a Vallée Blanche: uma descida fora de pista que sai do topo da Aiguille du Midi e atravessa cerca de 20 quilômetros de glaciar, sempre com guia. Não há experiência parecida nos Alpes.
A novidade é a reabertura do histórico Le Morgane, em dezembro, depois de uma reforma, com 54 quartos e suítes, todos com varanda ou terraço voltados para o maciço. É a base certa para quem viaja pela montanha, e não pela cena.
III. Zermatt, Suíça
A montanha como protagonista

Em Zermatt não há carros, só táxis elétricos, trenós e o trem que sobe do vale. O Matterhorn ocupa a janela de quase todo quarto, e a vila inteira parece organizada em torno dele. É a estação para quem quer altitude: a estação de teleférico do Matterhorn Glacier Paradise fica a 3.883 metros, a mais alta da Europa, e a neve costuma durar até o fim de abril.
O grande programa é atravessar a fronteira esquiando. Pelas pistas do alto, desce-se até Cervinia, na Itália, para almoçar massa fresca e voltar à Suíça à tarde. Desde 2023, o Matterhorn Alpine Crossing liga Zermatt e Cervinia também por teleférico, de um vale ao outro.
Onde ficar: The Omnia, no alto de uma rocha sobre a vila, para quem gosta de arquitetura contemporânea; o CERVO Mountain Resort, para um clima de lodge mais descontraído; e o Riffelalp Resort, a 2.222 metros, para dormir dentro da paisagem. Onde comer: Chez Vrony, em Findeln, é o almoço de montanha que todo mundo recomenda, com o Matterhorn emoldurado no terraço.
IV. St. Moritz, Suíça
Onde o inverno virou estilo de vida
St. Moritz inventou o turismo de inverno, e ainda age como quem sabe disso. Conta a história que, em 1864, o hoteleiro Johannes Badrutt fez uma aposta com hóspedes ingleses do seu Kulm Hotel: se voltassem no inverno e não gostassem, ele pagaria a viagem. Voltaram, gostaram, e nasceu ali a ideia de passar a estação fria na montanha. A cidade sediou duas Olimpíadas de Inverno, em 1928 e 1948, e no Engadin o sol aparece na maior parte dos dias.

O inverno aqui tem calendário social. De 22 a 24 de janeiro de 2027, o lago congelado recebe a Snow Polo World Cup. Em fevereiro, aos domingos, vem o White Turf, corridas de cavalo sobre o gelo que reúnem a sociedade europeia de casaco de pele e champanhe. E há a Cresta Run, a pista de tobogã descida de cabeça, tradição centenária mantida por um clube privado.
Onde ficar: o Badrutt’s Palace, com sua torre inconfundível, é o endereço histórico; o Kulm, berço daquela aposta de 1864, guarda a memória da cidade; o Suvretta House oferece mais distância do centro e um elevador próprio para as pistas de Corviglia.
Nos Alpes, o maior luxo não é o chalé. É a primeira descida da manhã, antes de qualquer outra pessoa.
V. Gstaad e Verbier, Suíça
O sussurro e o grito
Gstaad é o oposto do barulho. Chalés de madeira escura, uma promenade sem carros, o Gstaad Palace no alto da colina como um castelo de conto, e The Alpina Gstaad e Le Grand Bellevue como versões contemporâneas do mesmo sossego. Esquia-se pouco e bem, almoça-se longamente, e ninguém pergunta quem você é, porque provavelmente já sabe. Para neve garantida, o Glacier 3000, a uns 20 minutos de carro, completa o programa. É o luxo que não precisa ser visto.

Verbier é a mais jovem e a mais atlética das suíças. Faz parte dos 4 Vallées, tem no Mont Fort, a 3.330 metros, seu ponto mais alto, e é a casa do Xtreme Verbier, a final do circuito mundial de freeride, disputada na face quase vertical do Bec des Rosses. O après-ski entra pela madrugada. A novidade da temporada é The Ski Lodge, hotel-butique de 36 quartos perto da Place Centrale, que abre em dezembro sem televisão nos quartos e com um bar chamado The Listening Room. A mensagem é clara: aqui, a noite é para ser ouvida. Entre os endereços consagrados, o W Verbier e o Chalet d’Adrien.
VI. Áustria
Lech e Kitzbühel: a discrição e a adrenalina
Lech, no Arlberg, é a resposta austríaca a Gstaad: uma vila pequena, de igreja branca e chalés de madeira, frequentada por famílias reais europeias e por quem prefere não ser fotografado. Faz parte do Ski Arlberg, o maior domínio esquiável interligado da Áustria, com mais de 300 quilômetros de pistas preparadas e outros 200 de fora de pista, conectando Lech, Zürs, Warth, Stuben e St. Anton. O Almhof Schneider e o Gasthof Post são os endereços de tradição; o Aurelio, a versão mais contemporânea.

Kitzbühel combina uma cidade medieval de fachadas coloridas com a pista mais temida do esqui mundial. Na Streif, os atletas da Copa do Mundo passam dos 140 km/h, e a semana do Hahnenkamm, de 18 a 24 de janeiro de 2027, transforma a cidade no grande encontro social do inverno austríaco: provas de super-G, downhill e slalom de dia, festas e jantares disputados à noite. Para quem quer ver o esqui como espetáculo, não há data melhor no calendário europeu.

Ainda no Tirol, no vale do Zillertal, abre em 11 de dezembro THE GREEN, com 75 quartos e suítes e 3.300 m² de bem-estar, incluindo um lago natural para nadar e uma piscina no terraço. É a novidade austríaca para quem viaja com crianças, com clube infantil incluído.
VII. Dolomitas, Itália
O inverno depois dos Jogos

Para muita gente, as Dolomitas são as montanhas mais bonitas dos Alpes: paredões de rocha clara que ficam rosados no fim da tarde, fenômeno que os ladinos chamam de enrosadira. São patrimônio mundial da Unesco desde 2009, e esquiar aqui tem algo de visita a um museu a céu aberto. É também a região onde se come melhor na montanha. Os refúgios servem canederli, polenta e vinhos do Alto Adige que não ficam atrás de muitos restaurantes de cidade.
Cortina d’Ampezzo chega à temporada com o prestígio renovado de ter recebido as provas de esqui alpino feminino dos Jogos de 2026, na Olympia delle Tofane, e com um hotel novo. The First Cortina, do grupo The Pavilions, abre em 4 de dezembro no Corso Italia, com 76 quartos e suítes voltados para as montanhas, restaurante Zuma, a pâtisserie Velo e um spa de 1.000 m². Entre os clássicos, o Cristallo segue como o grande hotel da cidade, e o Corso Italia continua sendo a passarela do fim de tarde, de casaco longo e óculos escuros.
Alta Badia é a alternativa mais silenciosa e mais gastronômica. Em San Cassiano, o antigo Rosa Alpina foi reaberto em 2025 como Aman Rosa Alpina, o segundo hotel da Aman na Itália, depois de Veneza, e o único da marca nas Dolomitas. Esta é a sua segunda temporada de inverno. Da porta, chega-se ao circuito mais famoso da região.

O trunfo das Dolomitas é o Dolomiti Superski, um único passe que conecta 12 áreas de esqui e cerca de 1.200 quilômetros de pistas. O programa obrigatório é a Sella Ronda, que contorna o maciço do Sella num dia inteiro, passando por Val Gardena, Alta Badia, Arabba e Val di Fassa sem tirar os esquis. Faz-se nos dois sentidos, laranja no horário e verde no anti-horário, e cada um tem personalidade própria.

VIII. Pirineus
Baqueira e Andorra: o segredo ibérico

Os Pirineus raramente aparecem nas listas de esqui de luxo, e talvez por isso mesmo mereçam a viagem. Baqueira Beret, no Val d’Aran, na Catalunha, é a estação preferida da família real espanhola e da elite de Madri e Barcelona. A neve é confiável graças à influência atlântica, as filas são curtas, e à noite a conversa gira em torno de vinho, presunto e mesas longas que terminam tarde, como manda a tradição espanhola. O Hotel Val de Neu, ao pé das pistas, é a escolha clássica.
Andorra tem o Grandvalira, o maior domínio esquiável dos Pirineus, que recebeu as finais da Copa do Mundo de esqui alpino em 2023, em Soldeu. Ali mesmo, o Sport Hotel Hermitage combina saída direta para as pistas com um dos maiores spas de montanha da região. É a opção mais acessível deste guia e a mais fácil para famílias, sem abrir mão do conforto.

IX. O calendário
As datas que organizam o inverno
- Início de dezembro: abertura das grandes estações e da maior parte dos hotéis novos
- 18 a 24 de janeiro de 2027: semana do Hahnenkamm, em Kitzbühel
- 22 a 24 de janeiro de 2027: Snow Polo World Cup, no lago congelado de St. Moritz
- Domingos de fevereiro: White Turf, corridas de cavalo sobre o gelo em St. Moritz
- Fim de março: Xtreme Verbier, a final mundial de freeride
- Abril: fim da temporada, com neve ainda boa em altitude, de Zermatt a Val Thorens
X. O guarda-roupa
Vestir a montanha
Na neve, a elegância começa pela técnica. As marcas nascidas nos Alpes continuam sendo as mais respeitadas: a Moncler, fundada em 1952 em Monestier-de-Clermont, perto de Grenoble, que começou fazendo sacos de dormir e roupas acolchoadas para expedições antes de virar ícone de moda; a Fusalp, criada no mesmo ano em Annecy, de cortes ajustados e herança francesa; e a Bogner, fundada em Munique em 1932, que vestiu gerações de esquiadores e equipes olímpicas. Fora das pistas, a regra das estações mais discretas vale para todas: casacos longos, botas de neve de boa sola e nenhum logotipo grande demais.
XI. Antes de ir
O que saber ao planejar
- Como chegar: Genebra é a porta para Courchevel, Chamonix e Verbier; Zurique, para St. Moritz e Lech; Genebra ou Zurique, para Zermatt; Genebra ou Berna, para Gstaad; Innsbruck, Munique ou Salzburgo, para Kitzbühel; Veneza e Innsbruck, para as Dolomitas; Barcelona e Toulouse, para os Pirineus.
- O trajeto final: os traslados de carro levam de duas a quatro horas. Courchevel e St. Moritz recebem helicópteros e aviões particulares em altiportos e aeródromos próprios.
- Quando reservar: Natal, Réveillon e as férias escolares europeias de fevereiro esgotam meses antes. Para essas datas, o ideal é fechar ainda em outubro.
- A melhor janela: as semanas de janeiro depois do Ano-Novo, com neve firme e pistas vazias, e o mês de março, com dias longos e sol para almoçar ao ar livre.
- Para iniciantes: todas as estações deste guia têm escolas com aulas particulares em inglês. Vale reservar o instrutor junto com o hotel, sobretudo na alta temporada.
- Seguro: verifique se o seguro-viagem cobre esportes de inverno e resgate em montanha. Muitos planos básicos não cobrem.
No fim, todas as estações deste guia vendem a mesma coisa, embalada de formas diferentes. Um palácio em St. Moritz, um refúgio nas Dolomitas, uma mesa longa em Baqueira. O que se leva para casa, porém, é sempre o mesmo: o silêncio da primeira descida, a pista ainda intocada e a sensação rara de que, por alguns minutos, a montanha inteira foi só sua.
Gabriel Silveirado, para a WAYFARER.
Fotos: Wikimedia Commons, com créditos individuais nas legendas

