WAYFARER · Design | Guarulhos
Aeroportos raramente oferecem repouso. Entre filas, chamadas de embarque e o arrastar incessante das malas, o tempo ali é sempre de espera. No Terminal 3 de Guarulhos, o Estúdio Campana resolveu transformar essa espera em viagem.
A Sala Pedra Preta é o novo lounge do Itaú, operado pelo Plaza Premium Group, com cerca de 1.400 metros quadrados entre descanso, trabalho, convivência, gastronomia e bem-estar, sem fronteiras rígidas entre eles. A arquitetura e os interiores são do escritório global Perkins&Will; a direção de arte e a curadoria ambiental, do Estúdio Campana. O acesso é reservado a clientes do Itaú Personnalité The One Mastercard Black, do World Legend Mastercard e a convidados do Itaú Private Bank.
Em 30 segundos
- Novo lounge do Itaú no Terminal 3 de Guarulhos, com direção de arte do Estúdio Campana
- Fachada de cerca de mil m² de madeira Goiabão que desenha as curvas do rio Juruá
- Instalações em alumínio, couro de pirarucu e EVA feitas à mão, em centenas de horas de trabalho
- Obras de Burle Marx, Tomie Ohtake, Portinari, Beatriz Milhazes e Vik Muniz; cozinha do chef Luiz Filipe Souza, do Evvai
- Primeiro projeto de arquitetura do estúdio desde a morte de Fernando Campana, em 2022
“A inspiração veio inteiramente da paisagem”, disse Humberto Campana à revista Wallpaper*. “Eu queria que a jornada começasse no momento em que o viajante entra no espaço.”

Um rio na fachada
A travessia começa antes da porta. A fachada envolve o lounge numa pele escultórica de cerca de mil metros quadrados de lâminas sobrepostas de madeira Goiabão, que reproduzem as curvas do rio Juruá vistas de avião. O limite de uma sala privada vira, assim, uma obra para todo o terminal, “certamente um chamariz para os viajantes”, nas palavras de Campana. As linhas sinuosas trazem uma sensação de calor e movimento que continua lá dentro, nos sofás e no desenho dos ambientes.

O Brasil em materiais
Os interiores carregam o tom subtropical que marca a trajetória do estúdio e seu compromisso com o design ético e as comunidades artesãs. Cada ambiente evoca uma paisagem: os céus noturnos do Jalapão, a vegetação rala do Cerrado, as montanhas do Rio, as falésias do Rio Grande do Norte. “No fim, eu queria criar um convite para percorrer o Brasil”, diz Campana.
Por trás das formas simples há um trabalho manual intenso. O balcão de recepção, batizado de “Pão de Açúcar”, reúne lâminas sobrepostas de nogueira aplicadas à mão por catorze artesãos ao longo de 120 dias. Acima dele, o lustre “Paisagem” concentra cerca de um quarto de tonelada de alumínio torcido num dossel dourado que filtra a luz como uma copa de árvore. No bar, o balcão ganha textura em couro de pirarucu, peixe amazônico cuja pele era descartada.

“No fim, eu queria criar um convite para percorrer o Brasil.” Humberto Campana
O alumínio reaparece no restaurante, onde a instalação Cosmos suspende cerca de meia tonelada de hastes metálicas numa constelação visível de dentro do lounge e por quem cruza o Terminal 3. Na área do Private Bank, o protagonismo volta às mãos: inspirada na coleção “Sushi” do estúdio, a instalação Falésias entrelaça centenas de metros de EVA, tiras metálicas e borracha em espirais laranja, preto e dourado, num trabalho de cerca de 800 horas.


Arte, mesa e taça
A curadoria de arte é do Itaú Cultural e reúne obras de Roberto Burle Marx, Tomie Ohtake, Candido Portinari, Di Cavalcanti, Beatriz Milhazes, Vik Muniz, Leda Catunda e Athos Bulcão, entre outros. A cozinha está a cargo do chef Luiz Filipe Souza, do Evvai, e a carta de vinhos, da sommelière Juliana Carani.

Para Campana, a lógica do espaço importava tanto quanto os objetos. “O espaço é orgânico, mas fluido”, afirma. “Tudo flui, criando uma sensação de leveza.” O projeto tem ainda um peso íntimo: é o primeiro trabalho de arquitetura do estúdio desde a morte do irmão e cofundador Fernando Campana, em 2022. “Foi nosso primeiro projeto arquitetônico desde que o Fernando partiu”, diz Humberto.
Num lugar feito para a pressa, os Campana desenharam um intervalo. Entre um voo e outro, o viajante atravessa um rio, um cerrado, um céu de Jalapão, sem sair do terminal. A espera, que é o tempo mais desperdiçado de qualquer viagem, vira o começo dela.
Serviço: Sala Pedra Preta, Terminal 3 do Aeroporto Internacional de São Paulo/Guarulhos. Acesso para clientes Itaú Personnalité The One Mastercard Black, World Legend Mastercard e convidados do Itaú Private Bank. Wallpaper* · Estúdio Campana
Gabriel Silveirado, para a WAYFARER.
Fotos: cortesia Estúdio Campana


