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A arte de não ter pressa

Na Vila Nova Conceição, uma vitrine de vidro guarda o que São Paulo tem de mais próximo de um cofre para carros. Fomos entender por que o 911 vintage virou o ativo mais silencioso da cidade e quem decide qual deles merece estar ali.
Porsche 911 SC 3.0 Targa, geração G, ar-refrigerado Porsche 911 SC 3.0 Targa, geração G, ar-refrigerado
Porsche 911 SC 3.0 Targa. Foto: Porsche AG

WAYFARER DRIVE · O Endereço

Na Vila Nova Conceição, uma vitrine de vidro guarda o que São Paulo tem de mais próximo de um cofre para carros. Fomos entender por que o 911 vintage virou o ativo mais silencioso da cidade, quem decide qual deles merece estar ali, e o que separa quem compra um clássico de quem escolhe um.

O luxo, em São Paulo, costuma fazer barulho. A L’ART prefere o contrário.

Fica na Avenida Hélio Pellegrino, 651, num trecho da Vila Nova Conceição onde nada anuncia o que existe atrás do vidro. Quem passa de carro vê uma vitrine. Quem para, vê um critério. Não há letreiro que grite, não há promoção, não há a coreografia habitual das concessionárias. Há um salão envidraçado, uma fileira de carros que parecem esperar, e o silêncio de um lugar que não precisa convencer ninguém.

Dentro, mais de 200 automóveis se distribuem entre o showroom e os galpões de apoio. Fuscas restaurados ao lado de Mercedes de coleção, um Audi RS2 de 1995 com 49 mil quilômetros, um Rolls-Royce dividindo espaço com um Puma, uma Kombi Corujinha em salmão e cinza, e, sempre, algum Porsche ar-refrigerado esperando o dono certo. Não é loja de passar e olhar. É lugar de quem já sabe o que quer e só precisa encontrar o exemplar que justifique a assinatura.

Foi essa a pergunta que nos levou até lá. Não como se compra um clássico, mas como se escolhe um.

Porsche 911 Carrera Coupé 1975 em Signal Orange no acervo da L'ART
911 Carrera Coupé 1975 em Signal Orange, motor RS original de fábrica, no acervo da casa. Foto: L’ART / Divulgação

Origem: dois caminhos, uma vitrine

A L’ART nasceu duas vezes.

A primeira, em 2007, quando Mauro Gaibar abriu um escritório na Avenida Nove de Julho para vender o que já vendia havia trinta anos: carros, e só carros. Gaibar é da Mooca, neto de imigrante espanhol que chegou ao Brasil no começo do século passado e ganhou a vida como carroceiro. A vocação, ele costuma dizer, veio dali. Salvo uma passagem breve pelo ramo de confecção entre 1978 e 1982, nunca fez outra coisa. Viveu a época de ouro da Alameda Barão de Limeira, quando o centro de São Paulo era o lugar onde se comprava automóvel e o comércio de carros ainda tinha a cadência de um bairro. Ficou tanto tempo no setor que já vendeu carro para três gerações da mesma família.

Foi ali, ele conta, que percebeu a virada. Há pouco mais de uma década, o mercado de clássicos deixou de ser território exclusivo de colecionadores e restauradores e passou a atrair um terceiro perfil: o investidor. Gente que entendeu que um carro certo, guardado certo, não deprecia. E que trabalhar com esse tipo de ativo é mais confortável do que empurrar seminovo, porque não existe a necessidade da venda rápida. O estoque pode esperar. O cliente também.

A segunda fundação veio em 2009, quando Delso Calascibetta entrou como sócio. Calascibetta tem outro currículo: passou pela Young & Rubicam, teve confecção própria, chegou a importar colchões. O que os dois tinham em comum era a garagem. O primeiro antigo de Delso foi um Opala; o último antes da loja, um Citroën 2CV Charleston em vinho e preto, da fornada final, com 700 quilômetros rodados. Um carro que ele descreve com o carinho de quem sabe que nunca vai encontrar outro igual.

Com a sociedade, a L’ART deixou o escritório e ganhou o showroom envidraçado da Hélio Pellegrino. Hoje, a segunda geração da família Gaibar, Gustavo e Guilherme, atua ao lado do pai. O nome, L’Art de L’Automobile, não é afetação. É a tese da casa: alguns carros se olham como se olha um quadro. Demora-se.

Ganhar com o cliente, jamais do cliente.

A frase é de Gaibar e aparece em quase tudo que já se escreveu sobre a loja. Soa como slogan até se entender o que significa na prática: margem sem pressa, estoque sem rotatividade forçada, e a liberdade de recusar um carro que não passe no crivo. Clientes que passaram por lá sem fechar negócio escreveram depois para agradecer a recepção. É o tipo de depoimento que não se compra.


Operação: o trabalho que o comprador não vê

Há uma diferença entre uma loja de antigos e uma casa de clássicos, e ela não está na fachada. Está no que acontece antes de o carro chegar à vitrine.

A L’ART não restaura internamente. Trabalha com uma rede de parceiros especializados por serviço e por marca, oficinas que conhecem Porsche como Porsche e Mercedes como Mercedes, e mantém, em média, cerca de vinte projetos em andamento ao mesmo tempo. Quando adquire uma peça nova, faz uma revitalização completa antes de expor. Um carro pode levar meses entre a chegada e a vitrine. Nesse intervalo, passa por procedência verificada, originalidade conferida, histórico documentado e o tipo de acabamento que só se nota quando falta. O que o cliente recebe é um automóvel pronto para ser dirigido, não para ser descoberto.

Calascibetta gosta de usar a palavra “concurso” para definir o que sai de lá. No vocabulário do antigomobilismo, é o exemplar completamente original ou restaurado além do padrão de fábrica, digno de disputar prêmio em Pebble Beach ou Villa d’Este. A explicação dele é técnica: as tintas de época não tinham a pigmentação de hoje, os vernizes perdiam brilho rápido, e parafusos e porcas de primeira linha raramente eram usados por questão de custo. Numa restauração de alto nível, tudo isso é refeito com o que a época não tinha. O resultado é um carro melhor do que quando saiu da fábrica, e mais fiel a ela do que nunca.

Os dois sócios têm suas relíquias de estimação. Calascibetta lembra de um Porsche 356 Carrera que tirou nota 98 em concurso nos Estados Unidos, numa escala em que ninguém nunca chegou aos 100. Gaibar se orgulha de um Hispano-Suiza 30-40 HP de 1911, que pertencia a um colecionador assassinado em 1975, ficou esquecido no fundo de uma oficina por décadas, e foi restaurado e vendido pela L’ART. O carro hoje integra o acervo do museu Carde, em Campos do Jordão. Quase não ficou: uma equipe ligada ao rei Felipe VI da Espanha ofereceu 50% acima do valor de compra para levá-lo à coleção real, que não tem nenhum Hispano-Suiza. O museu recusou.

O modelo comercial acompanha essa lógica. Não há guerra de preço, porque não há concorrência direta pelo mesmo exemplar. Segundo Gaibar, o diferencial é a exclusividade: modelos raros, difíceis de encontrar, e por isso mesmo fora de qualquer comparação de tabela. Visita com agendamento, atendimento pelos sócios, e uma paciência que o mercado de seminovos não conhece. Ainda assim, a casa gira: cerca de vinte carros por mês trocam de dono ali. Não é volume. É cadência.

Hoje, os sócios já não precisam correr atrás de estoque. Os próprios donos procuram a loja. Boa parte do que chega ao salão vem de coleções particulares que estão sendo desfeitas, de heranças, de gente que passou décadas com o mesmo carro e quer entregá-lo a quem vai continuar cuidando. A dupla analisa pessoalmente cada peça, e nem sempre o que é impecável para o dono é impecável para eles. É nesse fluxo silencioso, entre garagens que não aparecem em anúncio, que os melhores exemplares circulam. Estar na ponta certa desse fluxo é o que a L’ART construiu em quase vinte anos.

O ecossistema se completa com a L’ART Shop, uma linha de lifestyle para colecionadores, e um canal no YouTube onde os próprios donos apresentam os carros, com a informalidade de quem gosta do que faz. É a face pública de uma operação que, no fundo, prefere o sigilo.


O mercado: por que o 911 ar-refrigerado virou patrimônio

Porsche 911 Carrera Coupé 1974, geração G
911 Carrera Coupé 2.7, 1974, o primeiro ano da geração G. Foto: Porsche AG

Falar em Porsche vintage é falar de 911. Mas a saudade, quando é honesta, tem nome mais específico: os ar-refrigerados, produzidos até 1998, com o motor boxer que a Porsche levou três décadas para aposentar e que o mercado levou dez anos para transformar em ativo.

Os números explicam. Lá fora, um 911 da geração G, os modelos de para-choque de impacto produzidos entre 1974 e 1989, tem preço médio na casa dos US$ 70 mil, com exemplares de coleção passando de US$ 175 mil. Um Carrera 3.2 Targa de meados dos anos 80, bem documentado, gira entre US$ 80 mil e US$ 140 mil nas casas americanas e europeias. As gerações 964 e 993, as últimas ar-refrigeradas, subiram de forma consistente na última década, e as versões Turbo e RS já cruzaram a marca do meio milhão de dólares. Um 964 Turbo em estado de concurso passou de US$ 1,5 milhão em leilão.

No Brasil, a conta tem outra escala. A importação encarece, a oferta é escassa e o colecionador local paga pelo carro e pela raridade de ele estar aqui. Um 911 SC de 1980 aparece anunciado em São Paulo por R$ 660 mil. Um 911 E de 1973, por R$ 1,75 milhão. Um Targa da geração G, com histórico limpo e matching numbers, deve ficar entre R$ 700 mil e R$ 1,1 milhão. Gaibar já afirmou que alguns modelos valorizaram até 600% ao longo dos anos, e que o segmento de clássicos não sofre a depreciação do mercado tradicional. Na L’ART, uma Maserati de 1961 já passou dos R$ 2 milhões. Hoje, o salão oferece um 911 Carrera Coupé 1975 em Signal Orange, com motor RS de fábrica e o mesmo dono desde 2007, por R$ 2,2 milhões, e um 930 Turbo 3.0 do mesmo ano por R$ 3,45 milhões.

Porsche 930 Turbo 3.0 1975 no acervo da L'ARTPorsche 911 E Coupé 1973 no acervo da L'ART
À esquerda, 930 Turbo 3.0 de 1975. À direita, 911 E Coupé de 1973. Fotos: L’ART / Divulgação

Não é papo de vendedor. É a lógica de um objeto que parou de ser fabricado, cuja mecânica ainda funciona e cujo desenho a Porsche nunca precisou corrigir. Um relógio mecânico não precisa de tela para ser preciso. Um 911 também não. E como no mercado de relógios, o que define o preço não é o modelo, é o conjunto: originalidade, documentação, quantidade de mãos, estado da mecânica. Full set, caixa e papéis. O colecionador de Porsche entende o vocabulário.

O luxo de verdade não é o ouro nem o mármore. É o tempo que se recusa a ter pressa.


O Targa: a saudade com barra de aço

O coupé entrou para a história. O Targa entrou para a memória.

Lançado como resposta a uma legislação de segurança americana que nunca chegou a proibir os conversíveis, o Targa acabou virando a forma mais elegante de sentir a estrada pela nuca. Barra de aço escovado, teto que sai com as próprias mãos, o vento como passageiro. O nome veio da Targa Florio, a corrida siciliana que a Porsche venceu mais vezes do que qualquer outra marca, e a barra virou tão reconhecível que a Porsche a registrou como assinatura.

Durante anos foi o 911 de segunda escolha, o que o comprador aceitava quando não encontrava o coupé. O mercado corrigiu isso. Hoje, um Targa da geração G em bom estado vale, em muitos casos, o mesmo que o coupé equivalente, e a curva de valorização tem sido mais íngreme justamente por causa da oferta menor. O que era compromisso virou assinatura.

Na L’ART, é o tipo de carro que não fica muito tempo na vitrine. Quando fica, é porque a casa está esperando o comprador certo, não qualquer comprador.


Quem compra: o novo colecionador paulistano

O perfil mudou, e Gaibar é o primeiro a dizer. Antes, o público era só classe A. Hoje, segundo ele, todo mundo acordou para o carro antigo, e o salão recebe gente de perfis que não existiam dez anos atrás.

O colecionador clássico, o entusiasta de meia-idade que restaura por prazer e guarda por afeto, continua existindo. Mas divide o espaço com um comprador mais jovem, que chegou ao clássico pela estética antes de chegar pela mecânica. Viu o 911 nas redes, no cinema, nas fotos de estrada mediterrânea com luz de fim de tarde. Entendeu que aquilo era um objeto de design antes de entender que era um carro.

É um público que compra de forma diferente. Pesquisa mais, pergunta mais, quer saber a história do exemplar antes do preço. Trata o carro como trata um relógio ou uma peça de arte: como algo que se possui por um tempo e depois se passa adiante, de preferência valendo mais. Para esse comprador, a documentação não é burocracia. É o produto.

A L’ART se adaptou sem perder o tom. O atendimento continua sendo feito pelos sócios, o agendamento continua sendo regra, mas a comunicação ganhou Instagram, TikTok e vídeos em que Gaibar e Calascibetta falam dos carros como quem fala de amigos antigos. A discrição não mudou. Só aprendeu a se mostrar.


Como se escolhe um clássico

Porsche 911 L Coupé 1968 no acervo da L'ART
911 L Coupé de 1968, o 911 antes dos para-choques de impacto. Foto: L’ART / Divulgação

Perguntamos o óbvio: o que olhar. A resposta, sem surpresa, foi que o que se olha primeiro é o papel, não a lata.

Procedência é o começo. De onde veio o carro, quantos donos teve, se há registro de importação ou se é nacional de origem. Depois, originalidade: motor e câmbio com os números que batem com o chassi, pintura na cor de fábrica ou com histórico da mudança, interior sem improviso. Só então a mecânica, que num ar-refrigerado bem cuidado é mais robusta do que a reputação sugere. E por fim, o estado geral, que é o que a maioria olha primeiro e deveria olhar por último.

A regra de ouro é a mesma dos relógios: o carro certo raramente é o mais barato, e quase nunca é o que aparece em anúncio aberto. Ele circula entre quem sabe. E quem sabe, em São Paulo, costuma passar pela Hélio Pellegrino. Calascibetta não é modesto a respeito: diz que a L’ART virou a única loja do país a trabalhar com carros desse nível. Depois de uma tarde lá dentro, é difícil discordar.


Saímos no fim da tarde. A vitrine, vista de fora, continuava a mesma: uma fileira de carros parados, um vidro que não reflete pressa, um endereço que a cidade ainda trata como segredo. Existe uma diferença entre quem compra um clássico e quem escolhe um. A L’ART trabalha para o segundo. E todo colecionador tem um endereço que não divide. Em São Paulo, muitos deles apontam para o mesmo número.


L’ART de L’Automobile
Av. Hélio Pellegrino, 651, Vila Nova Conceição, São Paulo
Visitas com agendamento · (11) 3885-2005 · @lart.br

Gabriel Silveirado, para a WAYFARER. São Paulo, com gratidão a Mauro Gaibar e Delso Calascibetta.

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