O convite chegava em formato de encanto: um minúsculo livro pendurado em corrente de prata, com a inscrição “Era uma vez”. Dentro, uma semente brotava gravada, evocando Jack e o Pé de Feijão. Quando os convidados entraram no Grand Palais, a magia já havia se multiplicado. Videiras gigantes trepavam pelas laterais do espaço, espelhos e vasos redimensionados ao estilo de “Os Emprestadores” criavam um universo onde a proporção e a fantasia se entrelaçavam.

O livro que começou tudo
Matthieu Blazy descobriu um livro encadernado em couro na biblioteca de Gabrielle Chanel: “Les Fées, Contes des Contes” (Fadas, Contos dos Contos). Esse achado arqueológico de moda tornou-se o ponto de partida para sua segunda incursão na alta costura da maison. “Comecei a me perguntar: a vida de Gabrielle Chanel foi um conto de fadas?”, refletiu o designer belga, que chegou à Chanel em 2025. “Questionei se, junto aos ateliês de alta costura, poderíamos criar peças que contassem histórias como as páginas de um livro.”
A resposta veio em forma de uma coleção que casava fantasia com funcionalidade, onde cada detalhe sussurrava narrativas infantis. Botões metamorfoseavam-se de patinhos feios em cisnes elegantes. Saltos de sapatos transformavam-se em ovos dourados. Borboletas tremulantes e flores desabrochando ornamentavam os corpos. Outras peças evocavam palha tecida, um toque contemporâneo ao “Mágico de Oz”.

O contraste entre o ornamentado e o etéreo
Blazy equilibrou a riqueza dos bordados e aplicações com momentos de leveza quase suspensa. Vestidos liquefeitos com drapeados neoclássicos remetiam ao trabalho pioneiro de Gabrielle Chanel com jersey. Outras peças emergiam em organza delicada ou renda guipure, tecido que ecoava ao longo de toda a narrativa visual.
Essa dualidade refletia a própria filosofia de Chanel: nem apenas espetáculo, nem apenas minimalismo. Um colete estruturado em preto, um sobretudo alongado, peças de silhueta precisa conviviam com as criações mais exuberantes. “Gabrielle escalou a escada para encontrar seu ovo de ouro fazendo roupas para mulheres reais”, explicou Blazy. “Suas peças nunca foram paródias. Enraizavam-se na vida.”

O ofício invisível da alta costura
Os ateliês de alta costura são, por definição, fábricas de fantasia. Blazy aproveitou a oportunidade para demonstrar a amplitude dos métiers de Chanel. A metalurgia ganhou destaque particular: botões que evocavam personagens como o Gato de Botas, correntes delicadas adornando silhuetas, contas e amuletos que pareciam fruto da obsessão de uma ave coletora.
Mas havia também segredos bordados nas costuras. Pequenos talismãs foram costurados nas forras e bolsos, um toque aos “prazeres privados” que definem a alta costura. Esses detalhes invisíveis ao primeiro olhar revelam a verdadeira sofisticação do ofício: a roupa não é apenas para ser vista, mas para ser vivida.

Fantasia e função em harmonia
“Chanel é simultaneamente uma maison de fantasia e de função”, afirmou Blazy nos bastidores. Essa tensão criativa é precisamente o que permitiu a Gabrielle Chanel revolucionar o vestiário feminino no século XX. Não era sobre o “uau” monumental, mas sobre os detalhes que transformam o cotidiano em elegância.
A coleção de inverno 2026 reafirma essa lição. Entre as criações mais ornamentadas e narrativas, surgem peças de uma sobriedade quase severa. Não há contradição aqui, mas continuidade. Chanel sempre soube que o verdadeiro luxo reside não apenas no que se vê, mas no que se sente quando se veste. Blazy, em sua segunda outing de alta costura, demonstrou compreender profundamente essa herança.

