Em uma cena global que transita entre armazéns industriais em Nova York, festivais multitudinários e celebrações que atravessam continentes, Saraga construiu sua trajetória como quem lapida uma narrativa em constante movimento. O DJ e produtor desenvolveu não apenas técnica e repertório, mas uma escuta sensível capaz de traduzir a energia de cada pista em histórias sonoras que evoluem ao longo da noite.
Nesta conversa exclusiva com a WAYFARER, conduzida por nosso publisher Gabriel Silveirado, Saraga fala sobre a importância da conexão com o público, a intensidade única do Carnaval brasileiro e a arte de conduzir tensão e catarse como capítulos de um mesmo enredo musical. Entre memórias decisivas da carreira e reflexões sobre o presente, ele revela também a emoção por trás de Red Roses, faixa que se tornou um dos pontos altos de seus sets recentes.

Você já tocou em algumas das festas mais icônicas do mundo. Quais realmente moldaram você como artista nos primeiros anos?
Eu não diria que houve uma festa específica que me moldou como artista. Para mim, sempre foi um processo longo. Você aprende gradualmente, desenvolvendo seu gosto, suas habilidades técnicas e sua capacidade de ler e conduzir uma pista de dança. Cada set, cada público e cada experiência contribuem para essa evolução.
Existe uma energia diferente entre noites underground, grandes festivais e festas em destinos especiais. Onde você se sente mais em casa?
Sinceramente, eu me sinto em casa em todos esses ambientes. Estou fazendo isso há mais de 15 anos, e essa jornada me deu uma ampla bagagem. Cada contexto tem sua própria identidade, mas aprendi a me adaptar e a me sentir confortável praticamente em qualquer lugar. O que mais importa para mim é a conexão com o público, não apenas o formato do evento.
Quando você é convidado para tocar em uma nova festa, o que faz você dizer sim? O público, a cidade, o conceito?
Vários fatores influenciam. O público e o local são muito importantes, pois definem a atmosfera geral. Também presto atenção nos artistas que já tocaram ali. Isso me ajuda a entender a identidade musical do evento e se ela está alinhada com a minha visão e energia.

O Carnaval no Brasil transforma tudo em uma longa celebração emocional. Como tocar aqui se compara a outras grandes cenas de festa ao redor do mundo?
O Carnaval no Brasil é realmente único, não consigo compará-lo a nenhum outro lugar. Existe uma intensidade impressionante. Muita coisa acontece em apenas uma semana, e a cidade, especialmente o Rio, parece não parar de celebrar. Todas as festas em que toquei aqui tiveram uma energia incrível. A vibração é de outro nível e o público se entrega completamente ao momento, dançando com uma liberdade e uma emoção muito especiais.
As pistas brasileiras são muito expressivas e presentes. Isso muda a forma como você constrói tensão e liberação durante um set?
Esta é a minha quarta vez no Brasil, e sinto que desenvolvi uma compreensão mais profunda do público brasileiro. Quando toco aqui, foco ainda mais na narrativa. Procuro conduzir a audiência por diferentes estados emocionais, mantendo uma energia forte e consistente. O público brasileiro é extremamente responsivo, o que me permite explorar contrastes e dinâmicas de maneira muito natural.
Você aborda uma grande noite com uma direção musical clara ou prefere ler a energia e deixar a noite acontecer?
Normalmente venho preparado com algumas ideias, às vezes até com uma faixa específica para abrir. Mas, na maioria das vezes, prefiro ler a energia do ambiente e deixar a noite se desenvolver organicamente. Para mim, essa abordagem sempre funciona melhor. Um set deve parecer vivo e reativo, e não algo fixo.

Existe uma festa ou noite na sua carreira que ainda vive na sua memória, aquele set que você nunca esquece?
Há muitos momentos inesquecíveis, mas se eu tivesse que escolher um, seria uma noite em Nova York, cerca de sete anos atrás. Foi a primeira vez que toquei lá. Eu estava programado para fazer um set de encerramento de duas horas em um galpão no Brooklyn, mas a energia era tão intensa que acabei tocando por quatro horas. Aquela noite marcou um grande ponto de virada na minha carreira. Foi quando conheci meu novo empresário, me mudei para Nova York e comecei um período em que toquei lá semanalmente. Foi um capítulo extremamente formador da minha vida, tanto profissional quanto pessoalmente.
Depois de tocar em tantos lugares, o que ainda faz uma festa parecer realmente especial e diferente para você hoje?
O público continua sendo o elemento mais importante. A energia, a abertura e a conexão com a música definem tudo. Ao mesmo tempo, o cenário como um todo, o local, a produção e o ambiente também desempenham um papel significativo. Quando todos esses elementos se alinham, a experiência se torna verdadeiramente memorável.
Sua faixa Red Roses carrega uma atmosfera emocional muito marcante e tem estado presente em muitos dos seus sets recentes. O que a inspirou e como ela se traduz na pista quando você a toca ao vivo?
Com Red Roses, eu quis levar o ouvinte por uma jornada. A faixa começa com uma energia envolvente e sensual, conduzida por uma linha de baixo forte, e evolui gradualmente para algo mais emocional e imersivo. Gosto de pensar nela como uma história musical que muda de clima e sentimento. Costumo tocá-la perto do final dos meus sets, porque cria um momento emocional poderoso. Permite que o público experimente intensidade e catarse, algo que sempre busco construir. A reação tem sido incrível, ela se conecta de maneira muito natural com as pessoas.