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Shirish Saraf e a Kalizma, a última lenda flutuante

Shirish Saraf passou a vida refazendo tudo o que adquire. Diante da Kalizma, o iate de 1906 que pertenceu a Richard Burton e Elizabeth Taylor, fez o contrário: escolheu não mudar nada. Dez dias a bordo, navegando a costa do Montenegro, com o homem que se recusa a dizer que é dono da lenda.

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A Entrevista

Foi o refúgio de Elizabeth Taylor e Richard Burton, sobreviveu a duas guerras mundiais e recebeu a realeza na America’s Cup. Hoje a Kalizma, o iate de 1906, tem um novo custódio. Shirish Saraf, o homem que refaz tudo o que possui, e que diante dela escolheu não mudar nada.

A Kalizma navegando, escoltada pelos tenders
Kalizma. Cento e vinte anos depois, a lenda ainda navega, escoltada pelos tenders.

Em 1967, Richard Burton comprou um iate para Elizabeth Taylor. Fretaram-no primeiro, num cruzeiro pelo Mediterrâneo, se apaixonaram, e Burton o comprou, assinando como Richard Taylor para dar aos paparazzi o que eles queriam. Rebatizou-o com as iniciais de três filhas, Kate, Liza, Maria: Kalizma. A bordo, longe das câmeras, o casal mais observado do mundo encontrou o único endereço que ninguém alcançava. Foi neste convés que Taylor recebeu, das mãos de um mensageiro, o diamante da Cartier de 69,42 quilates, comprado em 1969, para usar em Mônaco, no baile da princesa Grace.

Elizabeth Taylor usando o diamante Cartier a bordo da Kalizma
Elizabeth Taylor com o diamante Cartier de 69,42 quilates, entregue a bordo da Kalizma. Arquivo.

Mas a Kalizma já era lenda muito antes de Hollywood. Nasceu em 1906 com o nome de Minona, projetada por G.L. Watson e construída pelos estaleiros escoceses Ramage & Ferguson, no auge da era dourada da vela. Sobreviveu a duas guerras mundiais, servindo nas duas. Em 1983, foi camarote flutuante da America’s Cup, com a realeza a bordo. Passou por vários donos em mais de um século. E continua aqui.

1906Construção
1967Vira Kalizma
2Guerras mundiais
120Anos no mar
3Filhas no nome

Embarquei nela a convite de Shirish Saraf, o homem que a guarda hoje, para uma jornada pela costa do Montenegro. De Tivat às muralhas de Kotor, pela Boka Bay, o fiorde do Adriático onde as montanhas caem na água e o mar vira um lago. Uma travessia dessas é tempo suficiente para observar um homem dentro da própria casa, que é onde as pessoas param de se apresentar e começam a ser. E há uma coincidência de que ele gosta mais do que admite: no mesmo ano em que a embarcação virou Kalizma, 1967, Saraf nascia, do outro lado do mundo.

Ele recebe sem cerimônia, o que já é uma forma de cerimônia. Senta no convés de popa, óculos rosé contra a luz do fim de tarde, e deixa o barco falar primeiro. “Ela carrega uma alma diferente, e uma energia diferente”, diz. “E todos nós sentimos essa energia ao subir a bordo.” Há uma palavra que ele usa quase sem perceber o peso que carrega. Custódio. Alguém que segura uma coisa por um tempo, sabendo que ela vai seguir sem ele. A palavra não descreve apenas a relação dele com um iate. Descreve o modo como ele resolveu viver, e que ela lhe foi entregue, muitos anos antes, por outra pessoa.

Capítulo I

O que o pai dele disse em Dubai

A família tem raízes na Caxemira, nas montanhas. Ele cresceu em Omã, foi educado na Inglaterra, e hoje divide a vida entre Dubai, Hong Kong e a Índia, embora chame Londres de casa. O mar, na infância, era um rumor. “Venho da Caxemira, das montanhas”, diz. “O mar me era estranho.”

O primeiro encontro com a Kalizma aconteceu em Dubai, onde ela estava atracada, e ele não estava sozinho. Subiu a bordo com o pai. E foi o pai quem, naquele convés, lhe disse que aquele era um barco a ser guardado. Foi o pai, também, quem lhe deu a única definição da embarcação que Saraf repete até hoje: o Orient Express dos mares. Um pai levando um filho a bordo de um objeto do século passado e dizendo, em resumo, que aquilo não se compra. Se preserva.

Na época, a distância entre ele e o barco não se media em dinheiro. Media-se em imaginação. “Quando a vi em 1995, em Dubai, eu era um banqueiro que ganhava dois mil dólares”, conta, sem vaidade. “Imaginaria eu que trinta anos depois estaria sentado sobre Elizabeth Taylor, Richard Burton e o iate deles? Eu não conseguiria nem sonhar com a despesa de um único dia para mantê-la, mesmo que a ganhasse de graça.”

A Kalizma vista de cima, os rastros na água
Cinquenta metros de casco, e mais de um século no mar.

O que veio depois é conhecido de quem acompanha finanças na Ásia. Saraf cofundou a Abraaj Capital, que chegou a administrar mais de seis bilhões de dólares, e em 2008 fundou a própria casa, a Samena Capital. É o currículo de alguém acostumado a comprar, reestruturar e transformar. Em 2019, comprou a Kalizma. Vinte e quatro anos depois de subir naquele convés ao lado do pai, ele fez o que lhe foi dito que se fizesse.

Capítulo II

A camisa que se veste

Shirish Saraf no convés da Kalizma
Shirish Saraf, custódio da Kalizma desde 2019. Nascido no mesmo ano em que o barco ganhou o nome.

Pergunte a ele por que esta embarcação, e não outra, e a resposta vem por uma imagem. “Toda embarcação é uma camisa que se veste. A embarcação tem de servir ao dono.” Uma metáfora vinda de quem poderia mandar fazer qualquer roupa sob qualquer medida. A Kalizma é a única que ele escolheu não ajustar, aquela em torno da qual decidiu moldar a si mesmo. E a metáfora vira confissão: “Eu a sinto como um lar.”

Durante a pandemia, a Kalizma foi exatamente isso: o refúgio onde se recolheu com a família. Foram meses entre as Maldivas, o Sri Lanka e Goa, o pai, a mãe e Aria, a filha, todos a bordo, três gerações a bordo. Ele resume aqueles dias numa palavra só: mágicos.

A saúde do pai já era frágil. Ainda assim, no verão passado, com a Kalizma refeita, ele fez questão de subir a bordo uma última vez, no sul da França, e passou um mês no barco que mandara o filho guardar, trinta anos antes, num convés em Dubai. Faleceu em abril, pouco depois de os dois voltarem juntos à Caxemira, a terra da família. Por cinco anos viu a Kalizma navegar. Viveu para ver o filho fazer exatamente o que lhe pedira: não comprar uma lenda, e sim preservá-la.

Há uma frase, dita quase rindo, que resume a inversão de tudo. Não foi ele quem sustentou a ambição pela Kalizma; foi ela que sustentou a dele. “Ela me fez querer ganhar mais.”

Ele é franco sobre o que ela não é. “Os barcos de hoje são mais largos. Num iate de cinquenta metros você terá mais espaço, pés-direitos mais altos, quartos mais luxuosos”, admite. “Mas o que não terá é a magia da parte de cima, ou o aconchego do salão, nem a história junto.” É o argumento inteiro a favor dela, feito pelo homem menos inclinado a elogiá-la.

“Elegância discreta. Numa época em que tudo parece tão temporário e de tão curto prazo, isto é de longuíssimo prazo.”

O salão da Kalizma, com as fotografias de Burton e Taylor
No salão, as fotografias de Richard Burton e Elizabeth Taylor seguem penduradas onde sempre estiveram.
Richard Burton e Elizabeth Taylor no salão da Kalizma
Richard Burton e Elizabeth Taylor a bordo, nos anos em que a Kalizma foi o refúgio do casal. Arquivo.

A restauração é onde a filosofia dele vira decisão prática. Ele melhora tudo o que possui, é instinto de carreira. Com a Kalizma, o reflexo parou num ponto exato: a intenção, ao começar a obra, era que nada alterasse a alma do barco. Ao longo de 2019 e 2020, os melhores artesãos trabalharam nela com os melhores materiais. A madeira, o latão, as proporções de 1906 foram preservados com quase teimosia, enquanto o conforto contemporâneo entrou por baixo, invisível. Em 2022, o resultado levou o Judges’ Special Award do World Superyacht Awards. Andar pelos conveses com ele é notar que toca em pouca coisa. Não está mostrando o trabalho dele. Está mostrando o dela.

Capítulo III

A aritmética da sobrevivência

Nada disso teria peso se a Kalizma fosse apenas velha. Velhice é comum; sobrevivência, não. Ela passou mais de um século no que Saraf chama, sem exagero, da substância mais corrosiva do mundo, e continua aqui.

“O mar é a substância mais corrosiva do mundo, onde nem o aço sobrevive. Para um iate que sobreviveu 120 anos no mar, é como um único ser humano restante num mundo de sete bilhões.”

O sino de latão da Kalizma, gravado com o ano de 1906
O sino de latão, gravado: Kalizma, 1906. Um comandante da Marinha Real batizou a própria filha com ele.

E o mar, no caso dela, nem foi o pior inimigo. Na Primeira Guerra, foi requisitada pela Marinha Real britânica e serviu na frota de patrulha auxiliar, de 1914 a 1920. Foi armada. O registro histórico de Sir Archibald Hurd documenta a Minona socorrendo quatro vapores sob ataque de um submarino alemão. Um iate de recreio encarando um U-boat no Atlântico. Na Segunda, voltou a servir, de 1939 a 1945, agora como H.M.S. Minona, navio-base do serviço de resgate em alto-mar, em Campbeltown. O comandante, o tenente R.D. Robinson, chegou a batizar a própria filha com os sinos dela. O mesmo latão que ainda está no convés hoje, a meio metro de onde tomamos café pela manhã.

Ela é seis anos mais velha que o Titanic, e nasceu do mesmo mundo: a mesma indústria naval britânica, a mesma década que acreditou que o aço venceria o mar. Foi, aliás, uma das primeiras embarcações a vapor a ter luz elétrica. O Titanic provou o contrário do que aquela era prometia, e o provou em quatro dias. A Kalizma vai fazer 120 anos. Duas embarcações da mesma promessa, e o oceano ficou com uma.

É a conta com que vale a pena ficar. Não a fama, não as pedras, a sobrevivência. Ela não desistiu, nem no mar, nem sob fogo. Quando se sugere que existem barcos comparáveis, ele corrige com a paciência de quem já respondeu isso antes: “Não existe outra Kalizma. Ela carrega um valor que vem de 1906.”

Elizabeth Taylor e Richard Burton embarcando na Kalizma
Elizabeth Taylor com a tripulação da Kalizma
À esquerda, Taylor e Burton embarcando na Kalizma, em Londres. À direita, Taylor com a tripulação. Arquivo.

Linha do tempo

Quatro nomes, duas guerras, cento e vinte anos

1906

Lançamento · Leith, Escócia

Batizada Minona. Projeto de G.L. Watson, construção Ramage & Ferguson, para um vice-comodoro do Royal Eastern Yacht Club. Uma das primeiras embarcações a vapor com luz elétrica.

1914

Primeira Guerra Mundial

Requisitada pela Marinha Real. Armada, serve na frota de patrulha auxiliar até 1920. Documentada socorrendo quatro vapores sob ataque de um U-boat.

1939

Segunda Guerra Mundial

Serve como H.M.S. Minona até 1945, navio-base do resgate em alto-mar, em Campbeltown. Seu comandante batiza a própria filha com os sinos do barco.

1947

Anos de paz

Volta à vida civil. Rebatizada Cortynia, depois Odysseia. Entre 1954 e 1955, o motor a vapor dá lugar ao diesel.

1967

Burton e Taylor

Richard Burton a compra para Elizabeth Taylor e a rebatiza Kalizma, das iniciais de Kate, Liza e Maria. A bordo, em 1969, Taylor recebe o diamante Cartier de 69 quilates.

1983

America’s Cup

Sob Peter de Savary, então dono do barco, a Kalizma é camarote flutuante da regata, recebendo o príncipe Philip a bordo.

2019

Shirish Saraf

Adquirida em leilão no Sri Lanka, em estado precário. Restaurada ao longo de 2019 e 2020 sob uma regra: nada deve alterar a alma do barco.

2022

World Superyacht Awards

Vence o Judges’ Special Award e é indicada a melhor superiate reconstruído do ano.

2026

Hoje · Montenegro

Cento e vinte anos após o lançamento, a Kalizma segue navegando. A alma, como sempre, segue com ela.

Capítulo IV

O homem que escreve

Perto do fim da tarde, ele faz uma coisa que ninguém esperava. Recita um poema de cor. É Kipling, os versos sobre encontrar o triunfo e o desastre e tratar esses dois impostores da mesma forma. Não anuncia, não pede licença. Apenas diz, e conclui: “Essa é a alma da Kalizma.”

Não é acaso. Saraf tem um interesse profundo por literatura e vem escrevendo um romance em verso. Explica de onde vem a linguagem dele. Um homem que descreve um barco como uma camisa, a posse como uma custódia e o mar como o inimigo mais paciente do mundo é um homem que passa o tempo livre procurando as palavras certas. Faz sentido que goste de um poema sobre equanimidade: atravessou os dois lados da fortuna e concluiu que nenhum deles merece confiança excessiva.

A Kalizma navegando em mar aberto
Em travessia. As linhas de 1906 mantidas como sempre foram, com o conforto contemporâneo escondido por baixo.

Não é coincidência que um sujeito que escreve versos seja também o que decidiu não tocar nas linhas de 1906. As duas coisas nascem do mesmo lugar: a suspeita de que certas formas são melhores do que qualquer melhoria que se possa fazer nelas.

Capítulo V

O que ele guarda para os outros

Aqui a palavra custódio deixa de ser sobre o barco. Em 2015, Saraf criou uma bolsa de estudos em Charterhouse, a escola inglesa onde estudou, destinada a uma criança da Índia. No ano seguinte, fundou a Samena Foundation, voltada a crianças sem recursos, que apoia o mosteiro de Phaya Taung, em Mianmar, lar de mil órfãos. Foi conselheiro da Little Dreams Foundation, de Orianne e Phil Collins. E há o Go Dharmic, com o qual distribuiu comida na Índia durante a pandemia. Perguntado sobre isso, desviou o crédito: “Fizemos distribuição de alimentos juntos na Índia durante a COVID: mais de um milhão de refeições. É incrível a escala, a logística, a paixão, o compromisso e a sinceridade com que ele faz isso.”

Perguntaram do papel dele, e ele respondeu falando do trabalho do outro. Um milhão de refeições aparece de passagem, como um detalhe logístico. É o mesmo movimento que faz no convés quando se fala da Kalizma: sai da frente, e deixa a coisa aparecer. Uma bolsa que ele não vai usar. Um mosteiro que ele não vai habitar. Um barco que, ele insiste, não vai possuir para sempre. Shirish Saraf construiu uma vida ficando entre as coisas e o futuro delas. Aprendeu isso, talvez, num convés em Dubai, com o pai ao lado.

Capítulo VI

A recusa

Chega o momento em que se pergunta a ele, diretamente, se possui a Kalizma. E aqui está o coração de tudo, porque ele recusa a pergunta. “Como posso dizer que sempre serei dono da Kalizma? A história mostra que ela teve muitos donos, e, com o tempo, você não foi nada além do custódio da Kalizma, enquanto ela segue a própria jornada.”

Amanda Ford, Shirish Saraf e Gabriel Silveirado a bordo da Kalizma
Amanda Ford, Shirish Saraf e Gabriel Silveirado a bordo da Kalizma.

Ele recorre a um relógio para explicar, porque o relógio é o objeto que mais facilmente perdoamos por nos sobreviver. A comparação, vinda de um homem cujo instinto é refazer tudo o que toca, não é modéstia. É uma concessão.

“Ninguém possui de verdade um Patek Philippe. Você apenas o deixa para a próxima geração. Não quero ter o ego de achar que serei dono dela para a vida toda. Ela encontrará o novo dono quando chegar a hora certa.”

Existe um tipo de luxo que é alto, rápido, e que já passou na estação seguinte. E existe este, o luxo do tempo que se recusa a ter pressa. Saraf chegou, tarde e por um caminho improvável, ao segundo tipo. É o mais difícil dos dois, porque exige que o dono aceite ser ele o passageiro.

· · ·

Capítulo VII

A vida a bordo

O convés de popa da Kalizma, com as montanhas ao fundo
O convés de popa. Ao fundo, as montanhas que fecham a baía como um anfiteatro.

Nem tudo, é claro, é filosofia. A Kalizma é também uma casa que se move. A rotina tem a precisão silenciosa das casas bem governadas: o café servido no convés quando a baía ainda está lisa como vidro, as tardes em que o barco desliza entre as muralhas venezianas de Kotor e as montanhas que fecham o horizonte como um anfiteatro. Em nenhum momento a embarcação pareceu um objeto de exibição. Pareceu o que Saraf insiste que ela é: uma casa antiga, extraordinariamente bem cuidada, que por acaso flutua.

Ele fala das travessias recentes com a naturalidade de quem descreve estações do ano: Amalfi, a França, o Sri Lanka, e a Turquia, de que gosta especialmente, das águas mais quentes de Kaş e Kalkan às ruínas romanas que se alcançam a partir do convés. Fala da filha, Aria, que canta e monta a cavalo, com o orgulho desarmado de qualquer pai. As coisas que ele guarda, ele guarda para alguém. A próxima geração não é uma abstração retórica na boca dele. Tem nome. Perguntado sobre ocasiões a bordo, ele oferece, sem que ninguém sugira, uma ideia que formula sozinho: a de a Cartier voltar a se encontrar com a Kalizma, já que a pedra da maison esteve, um dia, sobre estes conveses.

Ficha da embarcação

Projeto G.L. Watson · Estaleiro Ramage & Ferguson

Ano de lançamento1906
Comprimento50 m
Boca6,3 m
Arqueação278 GT
CascoAço
Velocidade máxima12 nós

Minona · Cortynia · Odysseia · Kalizma

Capítulo VIII

A alma, e o que fica

À medida que a luz baixa e o azul toma o lugar do dourado, a conversa muda de registro. Saraf, que é hindu, oferece uma imagem que resume, melhor do que qualquer outra, a relação dele com a embarcação. “No hinduísmo, dizemos que a alma segue e a embarcação morre. Neste caso, a embarcação seguiu, e a alma vai com ela.”

Ele não é o melhorador dela. É a testemunha. O homem que refaz tudo encontrou, enfim, a coisa que o refez. E a descreve como se descreveria uma pessoa, porque em algum momento ela deixou de ser descritível de outra forma.

“Uma velha senhora muito elegante, refinada no gosto, que viu muita coisa ir e vir, como a vida, e encontrou muitos triunfos e muitos desastres pelo caminho.”

A Kalizma ao crepúsculo, luzes acesas
As lendas que a possuíram se foram. O barco, como sempre, permanece.

As lendas que a possuíram se foram. Os capitães que a levaram à guerra se foram. E o pai que o levou a bordo em Dubai, e que viveu para vê-la refeita, também se foi. Ele mesmo partirá um dia, e diz isso sem hesitar. O barco, como sempre, permanece.

No fim da jornada, desci da Kalizma em Tivat com a sensação inversa à da chegada. Sobe-se a bordo dela pensando em Burton, em Taylor, nos diamantes, no século. Desce-se pensando no homem que hoje a guarda, e no pai dele, que trinta anos antes subiu num convés em Dubai e disse ao filho que aquilo era para ser guardado. Um iate de 1906, e um homem que, tendo o poder de mudar qualquer coisa, passou a vida descobrindo o que não se deve mudar. Ela carrega uma alma diferente, ele diz, e todos sentem essa energia ao subir a bordo. É impossível discordar. Mais impossível ainda é não perceber que a frase serve para ele também.

A Kalizma ancorada, na hora dourada
Ao anoitecer. A alma, como sempre, segue com ela.

·

Gabriel Silveirado embarcou na Kalizma a convite de Shirish Saraf, numa jornada pela costa do Montenegro, entre Tivat, Kotor e a Boka Bay. Entrevista conduzida com Amanda Ford, para a WAYFARER. Fotografia de Anna Sereda.

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