WAYFARER · Drive
O primeiro Neue Klasse de produção chega em pré-venda por R$ 582.950, com 570 km de autonomia e uma decisão de projeto que passa despercebida: não há cromado em lugar nenhum.
A BMW não lançou um carro. Lançou um gabarito.
O iX3 50 xDrive é o primeiro modelo da Neue Klasse a sair da linha de montagem, em Debrecen, na Hungria. O que ele estreia não fica nele. A arquitetura eletrônica, o sistema operacional, a linguagem de desenho e a sexta geração do eDrive vão migrar para mais de quarenta modelos e atualizações da marca até 2027. Comprar um iX3 hoje é comprar o primeiro exemplar de uma década inteira de BMW.
Os números sustentam a conversa. Dois motores elétricos somam 469 cv e 645 Nm, levam o carro a 100 km/h em 4,9 segundos e param em 210 km/h. A bateria tem 108,7 kWh úteis e entrega até 570 quilômetros no ciclo PBEV do Inmetro. Pelos dados da própria BMW, é a maior autonomia entre os elétricos hoje à venda no país, e é sobre esse número que a marca está construindo o posicionamento do carro. Em corrente contínua, aceita 400 kW: de 10% a 80% em cerca de 21 minutos.
Desenho: o cromado se aposenta
A grade vertical cita os Neue Klasse dos anos 1960 e divide a dianteira com os faróis duplos. Até aí, arqueologia de marca. O que interessa é o que sumiu. A BMW retirou o cromado do carro inteiro, por decisão de sustentabilidade, e transferiu para a iluminação a função de dar acabamento ao conjunto.
Desde os anos 1950, cromado significava categoria. A BMW acabou de dizer que não significa mais.
O resto do desenho segue a mesma economia. Vidros nivelados à carroceria, maçanetas integradas, arcos de roda na cor do carro. São 4,78 metros de comprimento, 1,89 de largura e 1,63 de altura, com coeficiente de arrasto de 0,24, número que explica boa parte da autonomia e da cabine calma.
Interior: a tela que virou para-brisa
O iX3 é o primeiro carro de produção com o BMW Panoramic iDrive. A informação essencial deixa o painel e vai para a base do para-brisa, de coluna a coluna, no campo de visão de quem dirige. Há um head-up display tridimensional opcional acima disso, e uma tela central ao lado do volante para o resto.
O detalhe que merece registro é o oposto da novidade. A BMW manteve comandos físicos para setas, limpadores, espelhos, volume, seletor de marchas, freio de estacionamento e pisca-alerta. Num mercado que passou seis anos enterrando botões dentro de menus, isso é uma correção de rota, não uma concessão.
São cinco lugares, 520 litros de porta-malas que chegam a 1.750 com os bancos rebatidos, e mais 58 litros sob o capô. O banco traseiro tem superfície contínua, desenhada para parecer sofá.
Engenharia: quatro cérebros e uma bateria que sustenta o carro
A arquitetura eletrônica foi reorganizada em quatro computadores de alto desempenho, cada um responsável por um domínio: dinâmica, condução automatizada, entretenimento, conforto. O que cuida da dinâmica se chama Heart of Joy e processa dados até dez vezes mais rápido que uma unidade convencional. Dele sai a função Soft Stop, que permite que até 98% das frenagens do dia a dia aconteçam só por regeneração, sem tocar nos freios.
A bateria deixou de ser um componente instalado e virou parte da estrutura, o que aumenta a rigidez e libera espaço. A rede elétrica foi dividida em quatro zonas, cortando cerca de 600 metros de cabo e 30% do peso do chicote. Um terço do carro é feito de matéria-prima secundária, e a pegada de carbono ao longo do ciclo de vida é 34% menor que a da geração anterior.

Posicionamento
O iX3 50 xDrive chega em versão única, sempre com pacote M Sport, rodas de 21 polegadas, som Harman Kardon de 13 alto-falantes e teto panorâmico. Oito cores de carroceria, quatro acabamentos internos, R$ 582.950 na pré-venda.
Este texto não é uma avaliação. Ainda não dirigimos o carro, e a WAYFARER não escreve sobre dirigir sem ter dirigido. O que dá para afirmar agora é de outra ordem: a BMW colocou sua tese inteira dentro de um único produto e a submeteu ao mercado antes de espalhá-la. Se o iX3 estiver certo, os próximos quarenta modelos já nascem certos.
Um carro que serve de gabarito carrega um risco raro. Se errar, erra quarenta vezes.
Gabriel Silveirado, para a WAYFARER.


