Assistir ao ápice do futebol deveria ser, em tese, democrático: uma bola, duas traves, vinte e dois jogadores. Mas a Copa do Mundo de 2026, que reúne Estados Unidos, México e Canadá como anfitriões e amplia o torneio para 48 seleções e 104 partidas em 16 cidades, consolidou-se como a edição mais cara já vendida ao público. Ingressos de entrada superam a casa dos mil dólares em alguns estádios; os mais disputados passam da marca de dez mil. O jogo do povo, ironicamente, tornou-se moeda de prestígio para o topo da pirâmide.
Por trás dos números há uma mudança estrutural na forma como o alto patrimônio consome esporte. “Eventos esportivos ao redor do mundo dispararam e a demanda está lá”, observa Diedra Pyle, cofundadora da Fioraé Luxury Travel, que aponta um salto no interesse por combinar esporte e viagem. O setor de turismo esportivo já vale US$ 707,29 bilhões globalmente e, segundo projeções da McKinsey, deve alcançar US$ 1,3 trilhão até 2032, respondendo por cerca de 10% de todo o mercado de turismo.
Os grandes eventos que constroem experiências de luxo

Futebol (FIFA e Premier League), tênis de Grand Slam, NBA Finals, Super Bowl, corridas como F1, Nascar e a Volta da França, golfe e eventos multidesportivos como as Olimpíadas formam o núcleo desse mercado em expansão. “O esporte está tomando o mundo, chegando a cada canto. Combinado com viagem e hospitalidade, torna-se uma mina de oportunidades”, diz Julie Danziger, cofundadora da Embark Beyond. Desde 2021, mais de 50 milhões de pessoas assistiram a pelo menos um Grande Prêmio de Fórmula 1; a temporada de 2024 registrou público recorde não só em Mônaco, mas nas 24 etapas do calendário. O público também mudou de perfil: segundo a Nielsen Sports, mulheres no Oriente Médio e na Ásia-Pacífico passaram a acompanhar os novos pilotos com intensidade crescente.
O motor dessa expansão é o que especialistas em viagem chamam de exclusividade experiencial. Não basta estar presente: o que importa é o grau de acesso. “Acesso é a prioridade número um”, afirma Danziger. “Viajantes de alto patrimônio não querem apenas um bom lugar no evento principal, querem estar dentro da ação. É uma lógica de tudo ou nada.”
O pacote F1 Garage promete “experimentar a corrida direto do pit lane. Totalmente bruto. Totalmente sensorial. Totalmente imersivo.” No Aberto da Austrália, o AO Reserve (a partir de US$ 2.999, com jantar omakase incluído) oferece poltronas de couro tão próximas da quadra que um erro de Jannik Sinner pode acertar o público. É o tipo de acesso que nomes como Liam Hemsworth e Russell Crowe disputam nos bastidores. “Só entrar já não basta”, resume Pyle. “Viajantes de alto patrimônio buscam cada vez mais acesso e melhor hospitalidade, e isso virou um leilão silencioso.”
Na Copa do Mundo de 2026, os pacotes de hospitalidade seguem o padrão visto em Paris e em Milão-Cortina, onde rumores apontam gastos de até US$ 500 mil em experiências “ultraexclusivas”. O pacote oficial Follow My Team, vendido pela FIFA, inclui partidas da fase de grupos e acesso a quatro lounges, com preço inicial de US$ 6.000. Mesmo os ingressos de entrada para o primeiro jogo dos Estados Unidos, contra o Paraguai no SoFi Stadium, partiram de US$ 1.400, com o Tier 1 na faixa de US$ 3.400. “No fim, o cliente quer viver o evento da melhor forma possível, sem fricção. Chegar, ser cuidado, imergir completamente no momento. É a diferença entre assistir e realmente experimentar”, explica Erica Jackowitz, cofundadora da Rêve Travel Club. “Para a Copa, falamos de um piso de US$ 32.000 por ingresso em hospitalidade de alto nível, incluindo camadas de acesso que vão de experiências pré e pós-jogo até a reserva de um heliponto único no Meadowlands.”
Levando o dia de jogo além do estádio

Hospitalidade corporativa em torno de grandes eventos não é novidade, mas ganhou nova escala com a entrada direta de hotéis de luxo na disputa. Em Miami, sede da Copa, o W South Beach lançou o “Million-Dollar Soccer Superstar Package”, avaliado, sim, em US$ 1 milhão: diárias na cobertura de dois quartos com vista para o Atlântico, acesso VIP aos jogos com escolta policial, charutos diários e visitas a destilarias de rum. Ao lado, o 1 Hotel South Beach oferece vinte ingressos de camarote, dez residências de um quarto com vista para o mar por três noites e crédito de US$ 10.000 em alimentos e bebidas, por mais de US$ 475.000. Em Houston, o pacote do The Post Oak parte de US$ 15.000 e inclui massagens, transporte para os jogos e concierge dedicado à Copa. Em Boston, a “Goal-den Legendary Experience”, de US$ 75.000, começa na suíte presidencial do Liberty Hotel e segue com traslados de helicóptero até o Gillette Stadium, em Foxborough. O Langham, na mesma cidade, oferece transporte equivalente via Bell Helicopter.
Enquanto o setor se volta cada vez mais para o público ultrarrico, torcedores comuns dizem sentir o peso do “price out”. Ingressos para as fases eliminatórias subiram mais de 34%, segundo analistas do setor, com o valor mínimo para a final partindo de US$ 7.600 em alguns sites de venda.
“Deixou de ser apenas assistir a um jogo. Tornou-se tema de conversa, declaração de moda, até símbolo de status”, diz Danziger. Jason Squatriglia, especialista em viagens de luxo da Robb Report, concorda: “Nos jogos do Kansas City Chiefs na última temporada, recebi vários pedidos pelo camarote mais próximo possível de Taylor Swift, o que já diz muito sobre como o esporte deixou de ser só sobre o jogo em si.”


