Há mais de uma década morando em Portugal, Philippe Starck costuma dizer que encontrou no Alentejo algo que o resto da Europa já perdeu: território sem roteiro. É nesse chão, entre sobreiros, dunas e as colinas da Serra de Grândola, que o designer francês assina ASerra, projeto de hotel e residências em Melides que reúne 22 vilas privadas, com valores a partir de US$ 6 milhões, e um hotel de 25 suítes com abertura prevista para 2028.

“Alentejo foi um choque, é um dos últimos lugares na terra que ainda guarda um sentido de aventura”, disse Starck à Robb Report. “Aqui a natureza está em sua plenitude, em sua força máxima; apenas dunas, árvores e o oceano.” A frase ajuda a entender o ponto de partida do projeto. Para ASerra, segundo ele, “tudo começou a partir da terra”, e a arquitetura veio depois, obrigada a negociar com o relevo, com as árvores e com a luz dura do sul de Portugal.

Melides, o outro lado da Comporta
Durante anos, Melides foi a vizinha discreta da Comporta: menos restaurantes de praia, menos fotografia, mais estrada de terra. Isso mudou rápido. A região passou a atrair arquitetos, colecionadores e famílias europeias que buscam casa de campo com oceano a poucos minutos, e ganhou projeção internacional com a chegada de nomes como Christian Louboutin, que abriu ali o Hotel Vermelho. ASerra chega nesse momento de virada, quando a pergunta deixou de ser se Melides vai crescer e passou a ser como.

A resposta de ASerra é ocupar pouco. O empreendimento, a cerca de uma hora ao sul de Lisboa, se espalha por 85 hectares de floresta de sobreiros, colinas suaves e vegetação nativa, com as construções distribuídas de modo a deixar a paisagem como protagonista. O desenvolvimento é da Larfa Properties, a arquitetura é do Atelier AAVV, estúdio lisboeta liderado por Miguel Passos de Almeida, e o paisagismo ficou com Filipa Cardoso de Menezes, da FC Arquitectura Paisagista. A Starck cabe a direção criativa e os interiores.
Cabines de navio emergindo da terra
É nas vilas que a assinatura de Starck aparece com mais nitidez. Ele as descreve como “cabines de navio emergindo na natureza”, e a imagem é precisa: cascas de concreto que protegem do sol e do vento, abertas para terraços e piscinas, com interiores forrados de madeiras de tom avermelhado, terracota, couro natural e pontuais detalhes dourados. É um Starck mais contido do que o da década de 1990, dos hotéis teatrais e das peças-manifesto, e mais próximo do que ele vem fazendo em projetos recentes, em que o objeto dá lugar ao conforto e à relação com o entorno.
“Para as vilas de ASerra, quis criar ninhos, lugares íntimos onde as pessoas construiriam seu próprio percurso em conexão com a natureza ao redor.”
Philippe Starck

“Cada vila é uma casa pessoal e profundamente confortável”, afirma o designer. A escolha da palavra ninho não é gratuita. As plantas privilegiam espaços de convivência que se estendem para fora, a piscina funciona como continuação da sala e a vegetação chega perto das fachadas, a ponto de parte das construções parecer semienterrada no terreno. O resultado, ao menos nos renders, é uma casa que se vê pouco de longe e muito de dentro.
O hotel como centro da vila
O hotel boutique é o que dá vida ao conjunto. São 25 suítes independentes, cada uma com 70 metros quadrados internos e um terraço de 90 metros quadrados, sendo que 12 delas têm piscina privativa. Em volta, a Larfa organiza um pequeno vilarejo: piscina central, bar que transita entre interno e externo, restaurante abastecido pela horta da propriedade, café com mercearia, spa, yoga shala, jardim para crianças e quadras de tênis, padel e petanca.
O detalhe mais interessante está no estúdio criativo, com oficinas de pintura, cerâmica, escultura, desenho e cozinha. É ali que ASerra tenta se diferenciar dos resorts de alto padrão que se multiplicaram no litoral alentejano: em vez de vender apenas quarto e paisagem, propõe uma rotina. Os proprietários das vilas têm acesso a toda essa estrutura, além de concierge, housekeeping, manutenção, gastronomia e experiências com curadoria do hotel.
“ASerra foi criado como um destino vivo, não como um hotel isolado ou um empreendimento residencial independente.”
Stéphane Delplancq, CEO da Larfa Properties
Para Delplancq, a combinação é o cerne do negócio. “O hotel traz um padrão de hospitalidade de alto nível, enquanto as vilas estabelecem uma comunidade de longo prazo, conectada ao mesmo lugar e aos mesmos valores.” Starck resume a mesma ideia de outro jeito: “precisamos de lugares que pareçam reais e intencionais”.
A arquitetura que já existe na região
ASerra não chega a um território vazio de referências. Melides e seus arredores reúnem hoje um dos conjuntos mais interessantes de arquitetura residencial contemporânea de Portugal, com casas de volumes baixos, cores de terra e piscinas desenhadas para desaparecer na vegetação. É a linguagem que o projeto de Starck e do AAVV adota e, de certa forma, o padrão contra o qual será medido.



Para quem é ASerra
O comprador que a Larfa tem em mente não procura o resort convencional. Segundo Delplancq, Melides oferece “paisagens protegidas e vastas, privacidade notável, cultura portuguesa autêntica e proximidade com Lisboa, tudo isso em um ambiente que permanece praticamente intocado”. Na prática, é o perfil de quem já tem casa em Lisboa, Londres ou Paris e quer um endereço de estação com serviço de hotel, sem a lógica de condomínio fechado.
As vilas são vendidas na planta e posicionadas como residências de longo prazo, com a opção de entrar em um programa de locação administrado pelo hotel nos períodos em que os donos estão fora. É um modelo que ajuda a sustentar a operação ao longo do ano e que, para o comprador, reduz o custo de manter uma casa desse porte fechada boa parte do tempo.
Avaliação WAYFARER
O nome de Starck vende, e a Larfa sabe disso. Mas o que torna ASerra relevante é menos a assinatura e mais a escolha de equipe: um estúdio português que conhece o Alentejo, uma paisagista local e um designer que, aos 77 anos, parece mais interessado em desaparecer dentro da paisagem do que em ser visto nela. O risco é o de todo projeto desse tipo em uma região que cresce rápido, o de virar mais um endereço caro num litoral que ainda está decidindo o que quer ser. Se as vilas entregarem o que os renders prometem, e se o hotel conseguir construir de fato a vida comunitária que o discurso anuncia, Melides ganha em 2028 um dos projetos mais consistentes do seu novo ciclo. Até lá, vale acompanhar.


