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Como o Hope Lodge redefine a hospitalidade escocesa entre conservação e luxo

Hope Lodge. Dificilmente haveria nome mais preciso para um hotel que pertence ao maior projeto de conservação da Europa, a Wildland. A escolha não nasceu de uma agência de branding em sala de reunião: veio da própria terra. O lodge se instala na foz do Loch Hope, onde deságuam as águas do Ben Hope, uma das duas montanhas que vigiam este último fragmento de solo antes que a costa de Sutherland se despenhe no mar, no extremo norte da Escócia.

A nova joia das Highlands

Hope abriu suas portas discretamente em maio e ocupa hoje o lugar central no crescente grupo de hospitalidade da Wildland. Distribuído por três propriedades escocesas, o portfólio reúne cabanas, casas, alguns lodges de maior porte e o Aldourie, um castelo de fachada em tom de pêssego, com todo o charme baronial, às margens do Loch Ness. Não é exagero dizer que o Hope elevou o padrão da hospitalidade escocesa. Antes de sua chegada, o viajante internacional de posses era recebido pelo “playground glorioso” do Gleneagles ou pela fantasia vitoriana do The Fife Arms. Com o Hope, surge um tipo diferente de hospitalidade: enraizada no território e voltada para o futuro. Além da Escócia, trata-se de uma nova referência global, que combina conforto e indulgência com engajamento ambiental, sem perder leveza. Ficar em Hope tem o espírito de uma grande festa de casa, e os escoceses são conhecidos por saber fazê-las bem.

Fachada do Hope Lodge entre as montanhas de Sutherland
O lodge principal, um antigo pavilhão de caça de 1870, reformado sob rígidos critérios de conservação.

Conservação e hospitalidade, um equilíbrio delicado

Conservação e hospitalidade nem sempre convivem bem. A segunda pode facilmente atropelar a primeira, com botas pequenas e grandes expectativas. Em Sutherland, o quadro é ainda mais complexo. Essa “natureza selvagem” é, na verdade, terra marcada: sua população foi removida brutalmente no século XIX pelos antigos proprietários, os Duques de Sutherland, para dar lugar à criação de ovelhas e, depois, à caça esportiva. Visitantes costumam descrevê-la como belamente vazia, mas há mais história ali do que paisagem à espera de contemplação. O fundador da Wildland é Anders Holch Povlsen, dono dinamarquês do império de moda Bestseller e hoje o maior proprietário privado de terras da Escócia. A agenda de conservação da Wildland é ambiciosa e, em muitos sentidos, louvável. Mas convivem ali contradições difíceis de ignorar. Hope Lodge é, ao mesmo tempo, um projeto encantador e um projeto carregado de significado.

Corredor interno do lodge principal com decoração de época
O hall principal combina antiguidades escocesas e materiais naturais em camadas.
Sala de estar chamada Earth Room no lodge principal
A Earth Room reúne pedra, madeira e tecidos tramados em tom terroso.

Arquitetura e design de assinatura

O edifício principal do Hope é um antigo pavilhão de caça de 1870, reformado e reconfigurado, com sete quartos e diversos ambientes comuns. Pode ser reservado inteiramente como aluguel privado ou funcionar como hotel tradicional. Há também uma nova cabana de dois quartos, a An Cala, escondida no bosque, e duas (em breve três) cottages restauradas junto ao rio. Do outro lado da estrada, acessível por um túnel, está o Clachan, termo gaélico para pequena aldeia, que funciona como centro operacional de Hope: alojamento da equipe, cozinha, loja, salas de tratamento, ginásio e um extenso estacionamento subterrâneo. Os hóspedes chegam por ali e são introduzidos à filosofia da Wildland antes de seguir pelo túnel até seus quartos. Essa recepção tem propósito duplo: orientar e também explicar o compromisso de duzentos anos que a Wildland assumiu com a regeneração das terras que possui. Hope é descrito, informalmente, como uma experiência de safári das Highlands.

Interior da cabana An Cala nos bosques do Hope Lodge
An Cala, a cabana de dois quartos erguida entre as árvores próximas ao lodge principal.
Detalhe de acabamento em madeira da cabana An Cala
Marcenaria contemporânea assina o contraste entre rusticidade e precisão.

Talvez por isso os interiores tenham sido concebidos pelo estúdio sul-africano Cécile & Boyd, cujo trabalho para as propriedades da Singita na África redefiniu o design de lodges de safári. Em Hope, o desenho é antes uma atmosfera do que um estilo fixo. Não segue a linha escandinava-escocesa vista em outras propriedades da Wildland, nem se aproxima de um repertório tipicamente escocês. Materiais diversos, entre pedra, madeira, couro e fibras trançadas, constroem uma ambientação que alterna domesticidade envolvente e utilidade discreta. Peças de anticuário, muitas de origem escocesa, convivem com livros e objetos que dão à experiência a textura do tempo. O resultado é um interior sereno, confortável e, de certa forma, deslocado do óbvio.

“Este é um pavilhão de caça, não uma casa de campo”, observa Paul van den Berg, diretor de design da Cécile & Boyd, natural da Cidade do Cabo. “Quisemos simplificar, não decorar; celebrar o edifício e expor sua beleza. Nosso objetivo é imergir o hóspede na natureza das Highlands. Nenhuma obra de arte na coleção traz figuras humanas ou estruturas construídas.” Da história das clearances, por ora, silêncio.

Área de recepção do Clachan onde ocorre a indução dos hóspedes
O Clachan reúne serviços e é o ponto de chegada antes do túnel que leva aos quartos.
Sala de estar do lodge principal com poltronas e lareira
Uma das salas de estar do lodge, com mobiliário de época e pedra local.

Duas décadas de colaboração arquitetônica

Por trás do interior, existe um rigor notável na arquitetura, tanto na restauração quanto nas construções novas. O trabalho é assinado pelo escritório de Edimburgo GRAS, com os diretores (também pai e filho) Nicholas e Gunnar Groves-Raines responsáveis, respectivamente, pela restauração e pelas edificações contemporâneas. “Trabalhamos neste projeto há cerca de catorze anos”, explica Gunnar. “Meus pais se mudaram para Sutherland para acompanhar de perto. Meu pai é meticuloso ao ponto de subir em telhados para examinar detalhes de chumbo.”

Ao longo de mais de duas décadas de parceria, a GRAS acompanhou o compromisso da Wildland com a paisagem, e Hope representa o ponto mais alto dessa relação. “É um projeto extremamente ambicioso”, diz Gunnar. “Aprendemos muito, com grande confiança do cliente. Dada a escala, o impacto positivo nas comunidades rurais vizinhas foi real. Houve intensa atividade criativa em ofícios como ardósia, chumbo e cantaria.” A pedra é o que fica na memória, um cinza luminoso presente em muros e pisos, dentro e fora. “Reativamos a pedreira desativada que existia do outro lado da estrada”, conta Gunnar. “Hope está dentro de um geoparque, conhecido pelo xisto Moine, uma das rochas geológicas mais antigas da Europa. Estas construções pertencem, de fato, a este lugar.” Devem durar duzentos anos. Talvez muito mais.

Vista externa do Hope Lodge com Ben Hope ao fundo
O lodge, construído em xisto Moine, dialoga com a geologia mais antiga da Europa.

Um safári de imersão, não de observação

Em Hope, o safári é menos sobre observar vida selvagem e mais sobre comunhão com o território. A programação percorre diferentes intensidades, da palestra introdutória, mais cerebral, aos mergulhos em água fria antes do café da manhã, passando por trilhas, caiaque com remo, piqueniques junto a cachoeiras e lagos, pesca, coleta de alimentos silvestres, sauna e banhos sonoros. Ao longo do dia, aparecem, quase por encanto, robes secos elegantes, sapatilhas de neoprene, cestas, lanches, fogueiras e garrafas térmicas com bebidas apropriadas para cada atividade. O serviço equilibra, com destreza, os papéis de anfitriã atenciosa, professora de geografia, nova amiga e líder de acampamento. Em nenhum momento houve hesitação em vestir o traje de banho e compartilhar um piquenique enquanto se pergunta sobre carrapatos.

O papel dos guias e o peso da história

Toda a programação é conduzida por uma equipe de guias, sobre quem recai a ambição de Hope de ser mais do que um hotel de luxo. Além do conhecimento técnico, importa o tato humano desses profissionais, e o resultado é sólido. Pode parecer detalhe menor apontar certa leveza na abordagem à história e à política escocesas, mas não é irrelevante. Hope trará ao país alguns dos visitantes mais influentes do mundo, e esses guias têm a rara oportunidade de transmitir muito mais do que o ciclo de vida do salmão (ainda que fascinante, e uma metáfora oportuna para a vida).

Sala de jantar do Hope Lodge com mesa longa posta
A sala de jantar reúne convidados em torno de uma mesa comunal.
Paisagem externa do Hope Lodge com vista para Ben Hope e Loch Hope
A vista para Ben Hope e Loch Hope, cenário que emoldura toda a experiência.

Hospitalidade como questão existencial

E aqui reside o núcleo do assunto: há algo existencial em jogo. Hope é mais do que um lodge de safári escocês. Passar por ali levanta perguntas, naturalmente, para qualquer hóspede atento ao passado, presente e futuro social, econômico e político da Escócia. Essas questões não deveriam ser o primeiro contato do visitante com o lugar, mas tampouco deveriam estar ausentes da experiência. Hope trata, no fundo, de relações com a realidade. Por mais luxuoso que seja, por mais sedutor que pareça seu convite ao afastamento, por mais revigorantes que sejam os mergulhos, o projeto inteiro é sobre engajamento: consigo mesmo, com o outro, com o habitat. Além de um cenário pitoresco para passar alguns dias, Hope pode ajudar seus hóspedes a entender melhor o próprio lugar no mundo.

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