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Entre vulcões e música, o Immersion cria sua própria vila na Islândia

Na costa leste da Islândia, onde a paisagem parece mudar de humor antes que o olhar consiga se acomodar, uma vila nórdica construída em escala real para produções cinematográficas se prepara para outra ficção: durante cinco dias e quatro noites, o lugar deixará de ser cenário para funcionar como uma comunidade temporária. É ali, perto de Höfn, que o Immersion Festival realiza sua edição mais ambiciosa, de 1º a 5 de outubro de 2026.

Não se trata apenas de levar pistas de dança a um destino remoto. O projeto nasceu de encontros menores, criados em torno de viagens, música e convivência, e passou por territórios tão distintos quanto o deserto de Gobi, Raja Ampat, o Nilo e a Amazônia. Na Islândia, a proposta cresce para cerca de mil participantes, mas tenta manter o mesmo princípio que orientou as primeiras jornadas: a experiência só faz sentido quando o lugar transforma quem chega.

Uma vila temporária, não um festival convencional

A Viking Village será ocupada integralmente pelo Immersion. A arquitetura, o terreno aberto e a instabilidade do clima não aparecem como pano de fundo, mas como parte da programação. Em vez de uma sucessão rígida de atrações, o festival propõe um fluxo contínuo entre música, descanso, alimentação, encontros e silêncio. O público pode circular por seis ambientes musicais, com propostas que vão do minimal e do house a sessões mais orgânicas, atmosféricas e contemplativas.

A dramaturgia de cada dia começa em movimentos mais introspectivos e ganha intensidade até desembocar na celebração coletiva. Com mil pessoas, esse arco deixa de ser único: surgem narrativas paralelas, permitindo que cada participante construa o próprio ritmo sem perder a sensação de pertencer ao mesmo acontecimento.

“Esse senso de pertencimento é uma das coisas mais importantes, e isso a gente não pode perder nunca.”

Greg Habib, cofundador do Immersion, em entrevista à WAYFARER

O desafio é evidente. A escala que dá corpo ao primeiro Immersion em formato pleno de festival também pode diluir a intimidade que construiu sua reputação. Greg Habib aposta em uma atmosfera leve, colaborativa e suficientemente segura para que as pessoas baixem as guardas. Kim Jackson, seu parceiro na criação, acrescenta à equação uma experiência de mais de uma década em produção de eventos e um olhar voltado à estrutura, à comunicação e à capacidade de transformar relações em um projeto sustentável.

Paisagem aberta da Islândia próxima ao Immersion Festival
A PAISAGEM DA COSTA LESTE DA ISLÂNDIA PASSA A FAZER PARTE DA DRAMATURGIA DO FESTIVAL.

A Islândia como autora da experiência

O vínculo com o país antecede esta edição. Os cofundadores acumulam visitas, longas temporadas e celebrações anteriores na Islândia, uma convivência que lhes apresentou tanto a imprevisibilidade do vento quanto a força das relações pessoais na cultura local. Essa familiaridade aparece na curadoria: segundo Jackson, 41 artistas do line-up nunca tocaram em outras edições do Immersion, e profissionais da cena islandesa participam das conversas e decisões do projeto.

A intenção não é exigir que cada apresentação pareça artificialmente islandesa. O convite é mais sutil: compreender onde se está, viver o território e responder a ele com sensibilidade. Às vezes isso pode resultar em uma colaboração ou formato especial; em outras, muda apenas a maneira como o artista ocupa o espaço. É uma curadoria guiada menos por tendência do que por encontros construídos ao longo do caminho.

Também por isso a viagem começa antes dos portões. A rota terrestre de Reykjavík até Höfn leva aproximadamente seis horas e atravessa algumas das paisagens mais dramáticas do país. Quem preferir pode voar do aeroporto doméstico da capital para Hornafjörður e seguir por um curto trecho de carro. No universo do Immersion, o deslocamento não é intervalo: é prólogo.

Costa e formações rochosas da Islândia
O PERCURSO ATÉ HÖFN ATRAVESSA ALGUMAS DAS PAISAGENS MAIS DRAMÁTICAS DO PAÍS.

Entre música, recuperação e presença

Fora das pistas, a vila ganha áreas pensadas para desacelerar. O Recovery & Sanctuary reúne saunas, vapor, água quente, mergulhos no oceano frio e tratamentos voltados à recuperação. Uma área central concentra comida local e internacional e funciona como ponto de convivência; um mercado reúne artesãos islandeses, roupas e objetos conectados à jornada. Há ainda experiências opcionais, como passeios de snowmobile em geleiras, navegações por águas glaciais e roteiros de jipe por paisagens vulcânicas.

A hospedagem acompanha essa ideia de autonomia. É possível permanecer dentro do perímetro em motorhomes, campers, trailers, cabanas ou domos de vidro, estes últimos voltados para quem deseja mais privacidade e, se o céu colaborar, a chance de observar a aurora boreal. Hotéis e imóveis por temporada nos arredores oferecem uma alternativa mais convencional. Hospedagens e passes de veículos são reservados separadamente do ingresso.

Visitante em um campo de flores na Islândia
MÚSICA, RECUPERAÇÃO E CONTATO COM A PAISAGEM SE ALTERNAM AO LONGO DOS CINCO DIAS.

Acesso, impacto e cuidado

Os ingressos são liberados em lotes, de 950 a 1.800 euros. Em um destino reconhecidamente caro, a organização admite que o custo total ainda representa uma barreira. Para ampliar as formas de participação, 10% da capacidade foi destinada ao Ticket Aid, programa de ingressos subsidiados, e outros 10% a voluntários que colaboram durante o evento.

“Mais do que usar diversidade como parte da estética ou da comunicação do festival, nosso objetivo é criar mecanismos reais de participação.”

Kim Jackson, cofundador do Immersion, em entrevista à WAYFARER

Na frente ambiental, o Immersion afirma seguir protocolos de resíduos, circulação, uso consciente de recursos e respeito ao território. Talks e conversas com especialistas, artistas, participantes e representantes locais devem integrar a programação. Jackson reconhece, porém, que esta edição funcionará também como base de aprendizado para que o festival estabeleça metas ambientais mais concretas nos próximos anos.

O cuidado ganha peso especial em uma programação que combina temperaturas baixas, saunas, oceano e práticas corporais. A produção informa que haverá equipe médica, áreas de acolhimento e protocolos específicos para as diferentes atividades, conduzidas ou acompanhadas por profissionais qualificados. Clima, roupas adequadas, hidratação e limites físicos serão comunicados antes e durante o encontro; atividades poderão ser alteradas ou canceladas quando o risco não puder ser administrado.

Ondas chegando a uma praia de areia negra na Islândia
O OCEANO, O FRIO E A INSTABILIDADE DO CLIMA EXIGEM PROTOCOLOS ESPECÍFICOS DE CUIDADO.
   

A natureza tem a palavra final

Entre a promessa de liberdade e a necessidade de estrutura, o Immersion procura um equilíbrio que parece particularmente coerente com a Islândia. Ali, a beleza nunca está dissociada da vulnerabilidade: o vento muda, a luz se retrai, o oceano impõe seus limites. Se o festival conseguir preservar a escuta que marcou seus encontros menores, sua maior edição poderá ser menos um espetáculo instalado na paisagem e mais uma experiência escrita junto dela.

“Na Islândia, a natureza sempre tem a palavra final.”

Kim Jackson, cofundador do Immersion, em entrevista à WAYFARER

Serviço

Evento
Immersion Festival Iceland 2026

Quando
1º a 5 de outubro de 2026

Onde
Viking Village, perto de Höfn, Islândia

Capacidade
Cerca de mil participantes

Ingressos
De € 950 a € 1.800, conforme o lote

Hospedagem
Reservada à parte; opções dentro e fora da vila

Site
immersionfestival.com

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