
Hotspots · Bela Vista, São Paulo
O Rosewood São Paulo chega ao 6º lugar do The World’s 50 Best Hotels 2026, sobe dezoito posições em um ano e, dias depois, reabre o Herbárea Café na White Box, com Saiko Izawa no comando da confeitaria.
Quem sobe a Rua Itapeva em direção à Paulista vê a torre antes de entender o que ela é. São cerca de cem metros de concreto vestidos por treliças de madeira e jardins, recuando à medida que ganham altura, como uma encosta de Mata Atlântica plantada no meio da Bela Vista. Ao pé dela está o prédio claro da antiga Maternidade Condessa Filomena Matarazzo, onde mais de meio milhão de paulistanos nasceram, e que hoje abriga o lobby, os restaurantes e parte dos quartos do Rosewood São Paulo.
Setembro trouxe duas notícias para esse endereço. A primeira tem alcance internacional: o hotel ocupa agora o 6º lugar do The World’s 50 Best Hotels 2026, dezoito posições acima do ano anterior, no quarto ano seguido em que aparece na lista. A segunda é de escala doméstica e talvez diga mais sobre o hotel do que o próprio ranking: o Herbárea Café, projeto de confeitaria e panificação da chef pâtissière Saiko Izawa, volta à White Box em uma temporada mais longa e aberta a quem não está hospedado. Uma notícia fala para o mundo; a outra, para a vizinhança.
Linha do tempo
Quatro anos, dois movimentos
Dezoito posições em um ano
O ranking
Rankings de hotelaria merecem alguma desconfiança, e o World’s 50 Best não escapa da crítica de que mede reputação tanto quanto mede estadia. O método, porém, tem uma exigência que o separa das listas por indicação: cada um dos mais de 800 integrantes da The World’s 50 Best Hotels Academy, entre hoteleiros, jornalistas e viajantes frequentes, vota em sete hotéis nos quais se hospedou nos 24 meses anteriores. Não se vota no que se leu a respeito. Vota-se no que ficou na memória depois de dois anos de estrada, e esse é um filtro severo.
Nesse contexto, a trajetória do Rosewood São Paulo chama atenção menos pela posição final e mais pela curva. O hotel estreou na lista em 2023, se manteve nela nos anos seguintes e apareceu em 24º em 2025. Saltar para o 6º lugar exige que um número expressivo de votantes, espalhados por regiões diferentes, tenha colocado São Paulo entre os sete hotéis mais marcantes do período. Para uma cidade que raramente entra no roteiro internacional de lazer, e que costuma ser visitada a trabalho, o dado é mais revelador do que parece.
A subida, em escala
Posições no The World’s 50 Best Hotels. A lista é definida pelos votos de mais de 800 especialistas da The World’s 50 Best Hotels Academy.
Há também uma leitura de mercado. Um sexto lugar global coloca o hotel na mesma conversa dos endereços que definem a régua do setor, com efeito direto sobre tarifa, demanda internacional e capacidade de atrair eventos. Para a hotelaria brasileira de alto padrão, que por muito tempo mediu sucesso contra concorrentes locais, é a demonstração de que um projeto feito aqui, com materiais e artistas daqui, disputa a primeira página do mundo.

Uma maternidade e uma torre
Arquitetura
O que sustenta esse reconhecimento começa no terreno. A Cidade Matarazzo ocupa o conjunto do antigo Hospital Umberto I, e o hotel se divide entre dois corpos que não tentam se parecer. De um lado, o edifício da maternidade, restaurado com a fachada e a volumetria de origem, concentra a vida social do hotel. Do outro, a Torre Mata Atlântica, de Jean Nouvel, sobe em 25 andares que recuam conforme ganham altura e se cobrem de treliças de madeira e jardins em cada nível.
Entre os dois fica a imagem mais reproduzida do hotel: a Emerald Pool, uma piscina de contornos orgânicos em tons de esmeralda, cercada de vegetação e de cabanas em alvenaria clara com vitrais coloridos embutidos nas paredes. Vista do alto, parece uma clareira. Vista da espreguiçadeira, parece outra cidade, e é exatamente essa a graça: a Avenida Paulista está a poucos quarteirões, e ninguém ali dentro precisa lembrar disso.

A direção artística ficou com Philippe Starck, que trabalhou com materiais de origem brasileira em toda a obra. O resultado evita o erro mais comum do luxo em mercados emergentes, que é importar uma ideia genérica de sofisticação internacional. Aqui a madeira é escura e trabalhada, as pedras têm veio, os tecidos têm estampa. É um hotel que quer ser reconhecido como brasileiro por quem nunca esteve no Brasil.
É um hotel que quer ser reconhecido como brasileiro por quem nunca esteve no Brasil.
Quartos com cara de apartamento
Hospedagem
São 184 quartos e suítes, distribuídos entre a torre e o edifício histórico, além das residências privadas. O Grand Premier Room dá a medida do padrão: paredes revestidas de madeira, janelas altas, uma poltrona de leitura, fotografia em preto e branco acima da cama e, pendurado na parede, um violão. O objeto funciona como assinatura. Não é decoração temática; é a sugestão de que alguém mora ali e toca de vez em quando.
A Matarazzo Suite leva essa ideia adiante, com sala separada, sofá curvo em estofado mostarda, toca-discos sobre a escrivaninha e livros de arte espalhados pelas superfícies. É o tipo de suíte em que a curadoria de objetos pesa mais do que a metragem, e isso é escolha deliberada: o hóspede que reserva uma unidade dessas já viu mármore suficiente na vida. O que ele não encontra em outro lugar é a sensação de estar na casa de um colecionador paulistano com repertório.



No alto da torre, a Penthouse muda de escala. Dois pavimentos, janelas do piso ao teto e a vista aberta para o skyline do centro transformam São Paulo em paisagem, algo raro numa cidade que costuma ser vista de dentro do trânsito. É a unidade que coloca o hotel na conversa das grandes suítes urbanas do mundo, e que explica parte de sua presença crescente nas listas de quem viaja muito e escolhe bem.

Arte como infraestrutura
Coleção
A coleção do Rosewood São Paulo reúne mais de 450 obras comissionadas a 57 artistas brasileiros, e o número impressiona menos do que a forma como elas estão distribuídas. Não existe uma galeria para onde a arte foi levada. Ela está no revestimento dos elevadores, no teto dos bares, nas cabeceiras e nos corredores, e o hóspede convive com ela sem precisar procurá-la.
No Rabo di Galo, o bar de coquetelaria com música ao vivo todas as noites, o teto em arco foi pintado com ondas, e o ambiente mistura luminárias de palha, uma guitarra vermelha na parede e artesanato de diferentes regiões do país. É um espaço de personalidade forte, que em outro contexto poderia soar excessivo e aqui soa coerente, porque o hotel inteiro fala a mesma língua.

Detalhe de projeto
O herbário do elevador
Nas cabines dos elevadores, pranchas de ilustração botânica ocupam painéis iluminados do chão ao teto: orquídeas, folhagens, sementes e raízes desenhadas com o rigor dos naturalistas que catalogaram a flora brasileira. Um trajeto de trinta segundos vira visita a um gabinete de curiosidades.
O detalhe ganha outra leitura agora. O nome Herbárea vem da mesma raiz, e a nova casa de confeitaria do hotel parte da mesma ideia: sazonalidade, ingrediente observado de perto e um repertório que se renova. A paleta abaixo foi extraída das pranchas.
#EDE6D8
#5F6B3C
#A0523A
#4A3223

Seis endereços em um hotel
Mesa e bar
O hotel soma seis restaurantes e bares, e o melhor elogio que se pode fazer a eles é que não parecem pertencer ao mesmo grupo. Cada um tem cozinha, luz e público próprios, e juntos cobrem o dia inteiro, do café da manhã ao último coquetel. O Blaise, brasserie que parte da tradição francesa para trabalhar ingredientes de pequenos produtores brasileiros, completa uma oferta que dispensaria o hóspede de sair para comer, se São Paulo não fosse São Paulo.

Le Jardin
Grand café, do café da manhã à madrugada
Sob uma cobertura envidraçada, com colunas envoltas em vegetação, poltronas de couro e mesas próximas o bastante para que o salão tenha movimento de rua. Funciona do café da manhã ao fim da noite, tem opções kosher no cardápio e, no fim da tarde, vira ponto de encontro de quem trabalha nos arredores da Paulista. É o espaço que melhor traduz a intenção do hotel de ser frequentado pela cidade, e não apenas pelos hóspedes.

Taraz
Cozinha sul-americana na brasa
Pratos pensados para dividir, preparados no fogo e servidos num terraço entre colunas de pedra clara e oliveiras. Aos domingos, o almoço ganha música latina, e é quando o hotel mostra seu lado mais descontraído. Para quem visita São Paulo pela primeira vez, é a forma mais direta de entender que a cozinha do continente cabe numa mesa de hotel de padrão internacional sem perder o sotaque.

Bela Vista Bar
Cozinha mediterrânea e coquetelaria autoral
Salão em abóbadas, poltronas de estampa floral, cadeiras de palhinha e desenhos traçados diretamente nas paredes. A cozinha é mediterrânea, a carta de coquetéis é autoral e a escala é a de uma sala de estar. É o endereço mais íntimo do conjunto e, para quem quer entender o humor do projeto de Starck, talvez o mais revelador.

Le Jardin, à noite
O mesmo salão, outro ritmo
Quando a luz do dia sai da cobertura, o salão troca de temperatura: luminárias baixas, estantes acesas e mesas mais longas. O mesmo espaço que recebe reuniões de trabalho à tarde vira jantar sem cerimônia, e essa capacidade de mudar de função sem mudar de endereço é parte do que faz o hotel funcionar como bairro.

Asaya, com assinatura Guerlain
Bem-estar
O Asaya Spa by Guerlain é, segundo o hotel, o único da parceria na América do Sul, e a presença da casa francesa é visível desde a recepção, onde os frascos com abelhas em relevo ficam expostos em prateleiras de latão como peças de acervo. A área de tratamentos segue o cuidado de materiais do resto do hotel, com mármore claro, abóbadas baixas e luz indireta.


O circuito inclui uma banheira de imersão esculpida no mármore, sob abóbada, e uma sala revestida por cerca de 400 cristais de quartzo branco, detalhe que poderia soar esotérico e que, na prática, resulta num dos ambientes mais fotogênicos do hotel. Para o hóspede que chega a São Paulo com agenda cheia, é o equipamento que justifica acrescentar uma noite à viagem.

Herbárea, a vitrine que se move
Confeitaria
É nesse contexto que o Herbárea Café ganha sentido. Depois da primeira edição, em 2025, o projeto volta à White Box com identidade mais definida e uma proposta mais ampla, aberta a hóspedes e visitantes de terça a domingo. A mudança é de natureza: a confeitaria deixa de ser vitrine pontual e passa a acompanhar diferentes momentos do dia, da pausa para o café a uma refeição leve e sem cerimônia.
O cardápio salgado reflete a virada. Entram ciabattas artesanais, bagels, viennoiseries salgadas, croissants recheados e uma quiche de alho-poró com queijo Maratimba, que resolvem um almoço rápido sem transformar o café em restaurante.
A confeitaria, porém, continua no centro do projeto. Saiko Izawa, que assina as criações de pâtisserie do Rosewood São Paulo desde 2021, mantém os clássicos que o público já conhece e introduz de duas a três sobremesas novas por semana. Canelés, financiers, florentins, barras de chocolate com frutos secos, petit fours e cookies compõem uma vitrine que muda com a estação e com a semana, o que dá ao paulistano um motivo concreto para voltar.
É uma estratégia inteligente. Hotéis de padrão internacional raramente conseguem entrar na rotina da cidade onde estão; costumam ser lugar de ocasião, de reunião marcada, de visita de fora. Com um café aberto ao público e uma vitrine que se renova toda semana, o Rosewood cria um hábito, e hábito é o ativo mais difícil de comprar em hotelaria.
Uma notícia fala para o mundo; a outra, para a vizinhança.
O que o sexto lugar mede
Veredito
O ranking e o café parecem notícias de tamanhos diferentes, mas respondem à mesma pergunta: para quem é este hotel. A resposta do Rosewood São Paulo é ambiciosa. É para o viajante que coleciona os melhores endereços do mundo e agora encontra um deles em São Paulo, e é para a cidade, que ganha uma vitrine de confeitaria aberta seis dias por semana no quarteirão onde meio milhão de paulistanos nasceu.
A maioria dos hotéis de luxo escolhe um desses públicos e tolera o outro. O Rosewood trata os dois como parte do projeto, e é essa recusa em se isolar que o coloca à frente de concorrentes com mais tradição e melhor posição no mapa turístico. O sexto lugar mede reputação entre quem viaja muito. O Herbárea mede algo mais difícil de conquistar: a disposição de São Paulo em atravessar a rua para voltar.
Rosewood São Paulo, Rua Itapeva, 435, Bela Vista, São Paulo. rosewoodhotels.com/sao-paulo · @rosewoodsaopaulo
Herbárea Café, de terça a domingo, das 11h às 20h, aberto ao público.
