
Viagem · Expedições polares
A temporada antártica abre em novembro, e menos gente se contenta em olhar o gelo do convés. Com Ricardo Alves, CEO da Velle, a WAYFARER explica o que mudou em quem vai ao último continente, as regras que o protegem e o navio que chega com helicópteros e um submarino a bordo.
A Passagem de Drake não mudou em nada. Continua sendo o trecho de mar mais temido do planeta, cerca de 800 quilômetros entre o Cabo Horn e as Shetland do Sul, dois dias inteiros de navegação sem nenhuma terra no caminho. O que mudou foi quem atravessa.
Até pouco tempo, a Antártida era destino de uma tribo específica: gente de mochila técnica, currículo de montanha e pouca paciência para conforto. Hoje, quem embarca em Ushuaia muitas vezes já fez a Toscana, Tóquio e as Maldivas, e chegou àquele ponto da vida em que nenhum lugar conhecido surpreende mais. Os números da IAATO, a associação que reúne os operadores de turismo no continente, mostram também que esse viajante não quer apenas ver. Quer pisar.
A temporada abre em novembro e vai até março, no verão austral. Quem pretende ir nela está decidindo agora. Para entender o que está em jogo nessa escolha, a WAYFARER conversou com Ricardo Alves, CEO da Velle, empresa que representa com exclusividade no Brasil o Grupo Scenic e vende também expedições da Atlas Ocean Voyages e da Swan Hellenic.
Menos convés, mais gelo
Na temporada 2025-26, cerca de 113,5 mil pessoas visitaram a Antártida, segundo a IAATO. O total caiu um pouco em relação ao recorde de 122 mil, dois anos antes. Mas a composição mudou de um jeito revelador. Os visitantes que desembarcam subiram de cerca de 78 mil para 85 mil. Os que fazem só o cruzeiro, olhando a paisagem do navio sem descer, caíram de 43 mil para 27 mil.
Traduzindo: o turismo antártico está ficando mais seletivo. Menos gente passeia pelo continente como quem assiste a um documentário da varanda, e mais gente paga o que custa para sair num Zodiac, pisar numa praia de cascalho e dividir o espaço com uma colônia de pinguins. No interior do continente, o segmento mais extremo e mais caro, o número de clientes dobrou em dois anos.
O brasileiro ainda é minoria nesse mapa. Na temporada 2024-25, segundo os dados da IAATO, os americanos respondiam por 41,5% dos visitantes, e o Brasil aparecia com cerca de 2%, à frente da França e do Japão. Pouco, para um país que está no Tratado da Antártida desde 1975, mantém ali a Estação Comandante Ferraz, reinaugurada em 2020 com 17 laboratórios, e cujas baleias-jubarte de Abrolhos passam o verão se alimentando nas águas geladas do Mar de Scotia.
Um público que já viu tudo
Ricardo Alves descreve a virada sem rodeios. “Há alguns anos, as expedições polares eram vistas como viagens para aventureiros experientes. Hoje, elas passaram a integrar o portfólio de experiências desejadas pelo viajante de alto padrão, que busca destinos remotos, autenticidade e conhecimento, sem abrir mão do conforto.”
O perfil, diz ele, é o de alguém que esgotou o repertório óbvio. “Em vez de repetir roteiros tradicionais pela Europa ou Caribe, muitos clientes optam por destinos onde a natureza é protagonista e o acesso é limitado.” Não é um capricho brasileiro. O Anuário ILTM Latin America aponta o mesmo movimento e, segundo a Braztoa, 64% das operadoras do país registraram alta nas vendas de produtos premium no primeiro semestre de 2026.
“É um público que valoriza curadoria, conforto e segurança tanto quanto a própria aventura.”Ricardo Alves, CEO da Velle
A frase explica o mercado inteiro. O novo passageiro polar não quer sofrer para merecer a paisagem. Quer a paisagem, e quer voltar para uma suíte aquecida, um jantar à altura e uma conversa com quem entende do que acabou de ver.



O mar mais temido do mundo
Antes do primeiro pinguim, há o Drake. A passagem é o único ponto em que a Corrente Circumpolar Antártica, a maior corrente oceânica do planeta, precisa se espremer entre dois continentes. Ela circula a Antártida sem encontrar terra, empurrada pelos ventos que os marinheiros batizaram de quarenta rugidores e cinquenta furiosos, e carrega em Drake um volume de água estimado em até 150 vezes o de todos os rios do mundo somados. As ondas podem passar de 12 metros.
Os tripulantes têm dois nomes para o mesmo lugar. Quando o mar amanhece liso como vidro, é o Drake Lake. Quando não, é o Drake Shake. Ninguém sabe qual dos dois vai encontrar até zarpar. Há ainda uma nota histórica que os ingleses preferem esquecer: a passagem leva o nome de Francis Drake, que a navegou em 1578, mas o espanhol Francisco de Hoces provavelmente chegou antes, em 1525. No mundo hispânico, ela também se chama Mar de Hoces.
É também por isso que o navio importa tanto. Uma embarcação estável, com boa cabine e boa cozinha, transforma dois dias de mar em parte da viagem, e não em pedágio.
Expedição não é aventura
Alves traça aqui a linha mais importante da conversa. “Uma expedição polar não consiste apenas em visitar um destino remoto. Ela é construída sobre três pilares: segurança, conhecimento e respeito ao meio ambiente.”
Na prática, a diferença está em quem viaja a bordo além dos hóspedes. “As melhores operações contam com equipes multidisciplinares formadas por naturalistas, biólogos, glaciologistas, historiadores e especialistas em fauna polar. Cada desembarque, cada navegação e cada palestra têm um objetivo educativo.” O passeio de Zodiac entre icebergs deixa de ser só uma foto e vira uma aula sobre como aquele gelo se formou e para onde vai.
A outra metade é disciplina, e a Antártida tem uma das regras de visitação mais rígidas do planeta. Navios com mais de 500 passageiros não desembarcam ninguém. Em cada ponto, só um navio por vez, no máximo cem pessoas em terra ao mesmo tempo e um guia para cada vinte visitantes. É preciso manter ao menos cinco metros de qualquer animal. Desde a chegada da gripe aviária ao continente, os protocolos proíbem até sentar, ajoelhar ou apoiar a mochila no chão perto da fauna. Botas, bolsos e velcros são inspecionados antes de cada saída, porque uma semente trazida de outro continente pode fazer um estrago irreversível. E nada volta para o navio: nem pena, nem pedra, nem osso.
“As empresas seguem protocolos internacionais bastante rígidos.”Ricardo Alves, CEO da Velle
É esse rigor que mantém a Antártida como ela é. E é também o motivo pelo qual os navios menores chegam a lugares onde os grandes simplesmente não podem.
Sete coisas que ninguém conta sobre a Antártida
- Existe correio. Em Port Lockroy, numa ilha do tamanho de um campo de futebol dividida com cerca de mil pinguins-gentoo, funciona a agência de correio mais ao sul do mundo. De lá saem perto de 70 mil cartões-postais por ano, para mais de cem países.
- Dá para entrar num vulcão de navio. Deception Island é a cratera inundada de um vulcão ativo. A entrada é uma passagem estreita chamada Neptune’s Bellows, e em algumas praias a água é aquecida pelo calor da terra.
- O canal mais fotografado tem 600 metros. O Canal Lemaire, apelidado de Kodak Gap, tem 11 quilômetros de paredes de gelo e montanha, e só 600 metros de largura no ponto mais estreito.
- No verão, faz perto de zero grau. Na Península, a região mais visitada, a temperatura em dezembro e janeiro gira em torno de 0 °C. O frio extremo fica no interior.
- São três pinguins na mesma vizinhança. Gentoo, adélia e barbicha, os três do mesmo gênero, dividem as praias da Península.
- O Círculo Polar anda. A linha de 66°33′ que marca o sol da meia-noite se desloca cerca de 14 metros por ano para o sul. Cruzá-la continua sendo um rito de passagem a bordo.
- O Brasil tem casa lá. A Estação Comandante Ferraz, na Ilha Rei George, foi reconstruída depois do incêndio de 2012 e reinaugurada em 2020, com investimento de cerca de US$ 100 milhões.
A logística que ninguém mostra no Instagram
“São viagens que exigem planejamento”, diz Alves. O primeiro obstáculo é aéreo: “praticamente todas as expedições envolvem múltiplas conexões internacionais antes do embarque”. Os pacotes do Scenic Eclipse, por exemplo, começam e terminam em Buenos Aires, com voo fretado até Ushuaia. Há quem prefira pular o Drake e voar de Punta Arenas, no Chile, direto para a Ilha Rei George, num trecho de duas a três horas, mas o formato tem outros operadores e outra lógica.
O segundo obstáculo é o calendário. A Antártida só recebe visitantes entre novembro e março. O Ártico tem janelas diferentes conforme a região, seja Svalbard, a Groenlândia ou o Ártico canadense. Depois vêm os detalhes que fazem diferença a 60 graus de latitude sul: documentação, seguro específico para regiões remotas, bagagem técnica, tempo de adaptação. “A função dos nossos agentes de viagens parceiros vai muito além da emissão da viagem”, diz ele.
O navio decide a viagem
Se há uma ideia que atravessa toda a conversa, é esta: em expedição, o navio não é o hotel, é o instrumento. “Em expedições polares, a escolha da embarcação e da armadora faz toda a diferença na experiência do viajante”, afirma Alves. A Velle prioriza navios menores, “que oferecem uma operação mais ágil, maior proximidade com os destinos e um serviço altamente personalizado”.
O exemplo mais eloquente da carteira é o Scenic Eclipse, que o Grupo Scenic chama de primeiro iate de descoberta do mundo. A inspiração declarada do fundador, Glen Moroney, foi o Octopus, o superiate do cofundador da Microsoft Paul Allen. Construído na Croácia, entrou em serviço em 2019 e foi batizado pela atriz Helen Mirren. Tem 168 metros, casco de classe polar 6, 114 suítes, todas com varanda, e dez restaurantes. Leva 228 hóspedes, mas só 200 na Antártida, e uma tripulação de 176 pessoas, quase uma para cada hóspede.
Os detalhes técnicos contam a mesma história. Os estabilizadores são 50% maiores que os de navios comparáveis, o que faz diferença no Drake. Nos pontos de parada, o iate se mantém no lugar por posicionamento dinâmico, guiado por GPS, sem lançar âncora, o que evita ferir o fundo do mar. Há 12 Zodiacs, caiaques e pranchas de stand-up.


Helicóptero, submarino e um recorde
O que separa o Scenic Eclipse dos outros está guardado no convés: dois helicópteros Airbus H130 e o Scenic Neptune, um submarino da U-Boat Worx para poucos passageiros. Os voos e os mergulhos são pagos à parte e dependem de clima, gelo e autorização de cada região. Na Antártida, por exemplo, helicópteros não podem sobrevoar colônias de aves abaixo de 610 metros.
A burocracia rende boas histórias. Em janeiro de 2022, o Neptune fez em Stromness, na Geórgia do Sul, o primeiro mergulho de submarino naquelas águas em quarenta anos, depois de dois anos de negociação por uma licença que nenhuma operadora comercial tinha conseguido antes. No fim daquele ano, numa saída pelo Mar de Weddell, os helicópteros do Eclipse chegaram a levar hóspedes para pousar no gelo e esquiar.
“Em expedições polares, a escolha da embarcação e da armadora faz toda a diferença na experiência do viajante.”Ricardo Alves, CEO da Velle


O erro da primeira vez
Perguntamos a Alves qual é o erro mais comum de quem contrata a primeira expedição polar. A resposta veio sem hesitação: “Comparar expedições apenas pelo roteiro ou pelo preço.”
O que realmente importa, explica, está nas entrelinhas do contrato. “É fundamental analisar aspectos como o número de desembarques previstos, a proporção entre passageiros e equipe de expedição, a quantidade de especialistas a bordo, as palestras e atividades científicas, os equipamentos fornecidos, a gastronomia, as bebidas, as excursões e até itens como traslados, voos internos, hospedagens pré ou pós-cruzeiro e políticas de seguro.”
“Uma tarifa aparentemente mais alta pode oferecer uma experiência muito mais completa, enquanto uma opção mais barata pode exigir diversos gastos adicionais ao longo da jornada.”Ricardo Alves, CEO da Velle
Traduzindo para o viajante: antes de olhar o preço, conte os desembarques. Com as regras da IAATO, um navio de 500 pessoas precisa revezar grupos em terra, enquanto um de 200 desce quase todo mundo de uma vez. Dois navios podem passar pelos mesmos lugares e entregar viagens completamente diferentes.
Quanto custa, e quando ir
No Scenic Eclipse, o roteiro de entrada, Antarctica in Depth, tem 13 dias de Buenos Aires a Buenos Aires e aparece a partir de cerca de US$ 18 mil por pessoa no site americano da companhia. Há saídas mais longas, pelo Mar de Weddell, pelo Círculo Polar e pela Geórgia do Sul e as Malvinas, e uma saída especial de Réveillon, de 28 de dezembro de 2026 a 9 de janeiro de 2027. Os valores mudam por mercado e por promoção, e no Brasil a venda é feita pela Velle, por meio de agentes de viagem.
Para o brasileiro, duas saídas têm um sabor particular. Uma delas, no Scenic Eclipse II, combina a Península com extensões por terra em Foz do Iguaçu e no Rio de Janeiro, de 25 de fevereiro a 18 de março de 2027. A outra nasce do calendário do próprio navio: ao deixar a temporada antártica, o Scenic Eclipse faz 17 noites pela Patagônia e pelos fiordes chilenos, de 28 de fevereiro a 17 de março de 2027, e no mesmo dia zarpa de Buenos Aires para 11 noites até o Rio, passando por Ilhabela, Paraty, Ilha Grande e Búzios. “Ter uma saída que liga o litoral brasileiro diretamente à Patagônia, sem escalas fora do continente, é uma oportunidade rara para o nosso mercado”, diz Alves.

Para onde o gelo aponta
A família vai crescer. O Scenic Ikon, terceiro iate de descoberta do grupo, está sendo construído em Rijeka, na Croácia, e estreia em abril de 2028. Terá 135 suítes para 270 hóspedes, casco de classe polar, dois helicópteros, um novo submersível e um spa de cerca de 1.700 metros quadrados. As primeiras temporadas serão no Mediterrâneo Oriental, mas o casco foi desenhado para o gelo.
Alves não prevê uma moda passageira. “A demanda por viagens de expedição continua crescendo, impulsionada por viajantes que buscam experiências autênticas, acesso a destinos remotos e um nível elevado de conforto e serviço.”
“O viajante quer conhecer lugares cada vez mais remotos, mas deseja fazê-lo com conforto, segurança e acesso privilegiado.”Ricardo Alves, CEO da Velle
O equilíbrio é delicado, e ele sabe disso. O lugar para onde esse viajante quer ir só continua valendo a viagem enquanto permanecer intocado. A resposta, para Alves, está em operações “comprometidas com a preservação dos ecossistemas visitados”, e em uma curadoria que saiba dizer ao cliente não só para onde ir, mas com quem.
A Passagem de Drake continua lá, indiferente a quem a atravessa, às vezes lago, às vezes tempestade. Do outro lado, o gelo também não mudou. Mudou quem chega: um viajante que já viu quase tudo e descobriu, no último continente sem cidades, que o mais raro não é chegar longe. É chegar bem, e deixar tudo como encontrou.
Temporada antártica: de novembro a março. Os pacotes do Scenic Eclipse partem e terminam em Buenos Aires, com voo fretado até Ushuaia.
Antarctica in Depth: 13 dias, a partir de cerca de US$ 18 mil por pessoa (site americano da Scenic, temporada 2027-28). Saída de Réveillon de 28/12/2026 a 09/01/2027.
Highlights of Antarctica, Argentina and Brazil: Scenic Eclipse II, de 25/02 a 18/03/2027, com extensões em Foz do Iguaçu e no Rio.
Patagônia e costa brasileira: Scenic Eclipse, de 28/02 a 17/03/2027 pelos fiordes chilenos e de 17 a 28/03/2027 de Buenos Aires ao Rio, a partir de US$ 7.339 por pessoa no trecho brasileiro.
Valores de referência, sujeitos a mudança. Venda no Brasil: Velle, representante exclusiva do Grupo Scenic. Dados de visitação: IAATO.
Redação WAYFARER
