Toda cidade começa como uma aposta sobre a outra margem. Em 1680, os portugueses fundaram Colônia do Sacramento diante de Buenos Aires para disputar o Rio da Prata com a Espanha. Três séculos e meio depois, a mesma costa recebe uma aposta de outra natureza, escrita em código e financiada a partir de Nova York.
A Praxis, organização americana que se apresenta como a primeira “nação digital” do mundo, anunciou em 22 de setembro que escolheu o Uruguai para erguer sua primeira comunidade física. O endereço é o +Colonia, empreendimento urbano à beira do rio, vizinho ao bairro histórico tombado pela Unesco. A meta declarada é mobilizar US$ 1 bilhão em três anos, com os primeiros moradores chegando em meados de 2027.
Dryden Brown, o fundador de 30 anos, comunicou a decisão como quem encerra uma turnê: a volta ao mundo terminou, o Uruguai venceu. Ele pretende se mudar para lá em dezembro.

Da tela para a duna
Até aqui, a Praxis existiu sobretudo como rede. São cerca de 150 mil membros espalhados pelo mundo, entre fundadores, investidores, tecnólogos e artistas, reunidos em jantares, festas e em torno de uma ideia recorrente no Vale do Silício: se as instituições herdadas já não servem, reúne-se uma comunidade coesa e constroem-se outras. Dessa base, segundo a imprensa uruguaia, cerca de 2.700 pessoas declararam interesse em se mudar ou investir.
O Uruguai não foi a primeira escolha. Brown chegou a anunciar uma cidade no Mediterrâneo e depois sondou a Groenlândia, onde a reação local encerrou a conversa. Colônia oferece o que as tentativas anteriores não ofereceram: terra disponível, um parceiro com obras em andamento e um país conhecido pela estabilidade institucional. Buenos Aires fica a cerca de uma hora de ferry. Montevidéu, pela costa.

O que se pretende construir
A primeira fase prevê residências privadas, um resort, restaurantes, praças e uma orla com beach club, além de estúdios de música, fotografia e cinema, galerias e oficinas. Há também um programa de bolsas para jovens artistas, músicos, escritores e fundadores. Eles estarão entre os primeiros a chegar e vão morar em edifícios já erguidos pelo +Colonia, enquanto o bairro da Praxis ganha forma ao redor. A compra de terrenos dentro do empreendimento deve começar no fim de 2027; a imprensa argentina fala em cerca de 350 mil metros quadrados.

A linguagem arquitetônica é o dado mais revelador do projeto. Os estudos divulgados citam o Racionalismo italiano como referência: pedra, bronze, colunatas, pátios silenciosos, uma piscina longa que desce em direção à areia. É uma estética de permanência, desenhada para parecer que sempre esteve ali. E não é uma escolha neutra. O Racionalismo floresceu na Itália dos anos 1930, e a Praxis nunca escondeu que seu projeto passa pela ideia de restaurar certa visão da civilização ocidental.


Uma nação dentro da lei de outra
Por trás do render sereno existe uma trajetória que divide opiniões. A Praxis nasceu próxima ao movimento dos network states, comunidades organizadas pela internet que um dia pretenderiam autonomia territorial, e já foi descrita por críticos como uma utopia para poucos. Nas redes, o anúncio uruguaio foi recebido com uma palavra recorrente: tecnofeudalismo.
Em Colônia, porém, nenhuma soberania foi prometida. Brown afirma que a Praxis vai operar dentro do sistema legal uruguaio, e a empresa diz que pretende trabalhar com construtoras, arquitetos e artistas locais. O +Colonia é conduzido pelo empresário argentino Eduardo Bastitta, conselheiro do presidente Javier Milei, e aposta numa vida entre as duas margens, sem que seja preciso escolher de vez entre Argentina e Uruguai. Na prática, o que se desenha hoje é menos um Estado paralelo e mais um bairro planejado, com ferramentas digitais para que os moradores proponham e financiem projetos comuns.

O teste da vida comum
Os números ainda são promessa. US$ 1 bilhão é intenção de investimento, e interesse declarado não equivale a escritura assinada nem a residência concedida. O teste real virá depois do lançamento, nas estações sem festa, quando uma comunidade nascida no feed precisar lidar com obras, vizinhos, o inverno no Prata e a convivência com uma cidade de 32 mil habitantes que tem história própria e ritmo próprio.

Colônia do Sacramento passou séculos sendo disputada por quem chegava do outro lado da água. Aprendeu a esperar. Suas ruas de pedra, traçadas pelos portugueses conforme o terreno pedia, sobreviveram a impérios mais convictos do que qualquer startup. A Praxis promete o futuro. A cidade ao lado guarda algo mais raro, o tempo. A partir de 2027, veremos quem aprende com quem.
PRAXIS URUGUAY
+Colonia, Colônia do Sacramento, Uruguai
Primeiros moradores previstos para meados de 2027
praxisnation.com/uruguay
Gabriel Silveirado, para a WAYFARER.


