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Hearst Castle: Xanadu existe, e fica numa colina da Califórnia

A Roman Pool do Hearst Castle, revestida de vidro veneziano e ouro

Viagem · Califórnia

Hearst Castle: Xanadu existe, e fica numa colina da Califórnia

Entre San Francisco e Los Angeles, a 500 metros acima do Pacífico, William Randolph Hearst passou 28 anos construindo uma casa que nunca terminou. Tetos da Renascença, um templo romano à beira da piscina, zebras no pasto e uma regra severa sobre coquetéis. A WAYFARER sobe a Cuesta Encantada.

Texto Gabriel SilveiradoImagens @austiinjohnSetembro de 2026

Há casas que se constroem. E há casas que se colecionam. O Hearst Castle pertence ao segundo tipo, e essa é a chave para entender tudo o que se vê lá em cima: um homem que comprou tetos inteiros na Espanha, um coro de catedral na Catalunha, uma fachada de templo em Roma, e mandou tudo de navio para uma colina na Califórnia onde, na infância, acampava com o pai.

A Highway 1 chega a San Simeon quase sem aviso. À esquerda, o Pacífico, cinza e sem pressa. À direita, colinas douradas de capim seco, o gado da fazenda Hearst e, muito acima, duas torres brancas que parecem ter sido recortadas de uma cidade andaluza e coladas no céu errado. Os americanos chamam de castelo. Hearst nunca chamou. Para ele, era “the ranch”. Julia Morgan, a arquiteta, escrevia La Cuesta Encantada nos desenhos. A Colina Encantada. Nenhum dos três nomes está errado.

O que segue é um retrato dessa colina, feito com a distância que ela pede e o fascínio que ela impõe.

28anos de obra, de 1919 a 1947, sem nunca chegar ao fim
165cômodos na Casa Grande e nas três casas de hóspedes
3.700cartas e telegramas trocados entre Hearst e Julia Morgan
1,3 mide litros de água na Neptune Pool

I.A arquiteta que ninguém esperava

Em 1919, William Randolph Hearst tinha 56 anos, o maior império de jornais do país e um pedaço de terra herdado da mãe que, somado ao que o pai comprara em 1865, chegaria a 100 mil hectares. Entrou no escritório de Julia Morgan, em San Francisco, com um pedido modesto. Queria “algo um pouco mais confortável” do que as barracas em que a família acampava na colina. Morgan tinha 47 anos e uma biografia que, naquele tempo, não deveria existir.

Foi a primeira mulher a cursar arquitetura na École des Beaux-Arts, em Paris, depois de ser recusada duas vezes por um exame que a instituição não queria que ela passasse. Voltou à Califórnia, foi a primeira mulher licenciada como arquiteta no estado e, ao longo da vida, assinou mais de 700 edifícios. Media pouco mais de um metro e cinquenta, vestia tailleurs escuros, não dava entrevistas e subia em andaimes com a mesma naturalidade com que desenhava capitéis. Em 2014, 57 anos depois de morrer, recebeu a Medalha de Ouro do American Institute of Architects. A primeira mulher a recebê-la.

O trabalho na colina durou 28 anos. Morgan pegava o trem noturno de San Francisco na sexta, passava o fim de semana em San Simeon e voltava para o escritório na segunda de manhã. Fez isso centenas de vezes. As 3.700 cartas e telegramas que trocou com Hearst estão hoje na Cal Poly, em San Luis Obispo, e contam uma história rara: a de um cliente que mudava de ideia toda semana e uma arquiteta que, em vez de resistir, absorvia. Hearst demolia o que não gostava. Morgan redesenhava. Nenhum dos dois pediu desculpas.

“Este é o jeito que Deus teria feito, se tivesse dinheiro.”George Bernard Shaw, hóspede da casa em 1933

Palmeiras e as torres da Casa Grande, no Hearst Castle
As torres da Casa Grande entre as palmeiras. O modelo veio de uma igreja em Ronda, na Andaluzia.

II.Casa Grande: uma igreja andaluza sem a igreja

As torres gêmeas que se veem da estrada foram copiadas da Santa María la Mayor, em Ronda. Hearst viu a igreja numa foto e decidiu que a queria. Morgan desenhou uma fachada de catedral espanhola do século 16 e, dentro dela, uma casa de 6.300 metros quadrados, com 42 quartos, 61 banheiros e 19 salas. Não há capela nas torres. Há quartos de hóspedes, com vista para o mar e sinos de uma fundição belga que tocam de hora em hora.

O grande truque de Hearst foi outro. Ele não decorou a casa. Ele a montou. Ao longo de trinta anos, por meio de agentes na Europa, comprou cerca de trinta tetos antigos, pintados e entalhados na Itália e na Espanha entre os séculos 14 e 17, e os embarcou desmontados para armazéns no Brooklyn, de onde seguiam para a Califórnia. Morgan projetava as salas em torno dos tetos, e não o contrário. Um teto do século 14, encontrado na Espanha pelo agente Arthur Byne, virou o forro do apartamento privado de Hearst, o Gothic Suite, no terceiro andar. Lareiras de châteaux da Borgonha, portas de mosteiros, lambris de castelos ingleses: cada peça chegava com uma etiqueta e uma sala esperando por ela.

O marchand Joseph Duveen, que vendia Rembrandts a Rockefellers, apelidou Hearst de “the Great Accumulator”. Não era elogio, e Hearst não se importou. Quando os jornais ameaçaram quebrar, na Depressão, ele tinha nos armazéns mais coisas do que jamais conseguiria instalar.

O Refeitório do Hearst Castle, com o coro catalão e os estandartes de Siena
O Refeitório. Coro de catedral catalã nas paredes, estandartes do Palio de Siena no teto e, na mesa, ketchup.

III.O Refeitório e as garrafas de ketchup

É a sala mais fotografada da casa, e a que melhor explica o dono. As paredes são o coro da catedral de La Seu d’Urgell, na Catalunha, comprado inteiro. Do teto pendem os estandartes das contrade de Siena, os mesmos que desfilam no Palio. A mesa, comprida o bastante para 22 pessoas, fica sob candelabros de prata. E, sobre a toalha, a cada poucos lugares, garrafas de ketchup, mostarda e guardanapos de papel.

Não era distração. Hearst insistia nisso. Queria que os hóspedes, por mais famosos que fossem, lembrassem que estavam num rancho, e que aquilo tudo, apesar das aparências, era um acampamento. Servia-se faisão, pato selvagem, perdiz e veado das terras da fazenda. Servia-se também, com a mesma naturalidade, um cachorro-quente.

A regra mais rígida da casa não era sobre comida. Era sobre horário. O único compromisso inegociável do fim de semana eram os coquetéis no Assembly Room, às sete e meia da noite de sábado. E um coquetel só. Hearst limitava o álcool a uma dose por pessoa antes do jantar, por causa de Marion Davies, a atriz que foi sua companheira por mais de trinta anos e que bebia mais do que ele gostaria. Os hóspedes contornavam a regra escondendo garrafas nos quartos. Todo mundo sabia. Ninguém falava.

O poder que não precisa levantar a voz senta à cabeceira de uma mesa de 22 lugares e passa o ketchup.

A biblioteca e um dos salões do Hearst Castle
A biblioteca, com mais de 5 mil volumes e vasos gregos nas estantes, e um dos salões de hóspedes.

IV.A lista de convidados

Os hóspedes chegavam de trem particular, de Los Angeles a San Luis Obispo, e de lá subiam de carro. Depois de 1920, muitos vinham de avião, na pista que Hearst mandou abrir no rancho. A lista, ao longo de duas décadas, é um resumo do século: Charlie Chaplin, Cary Grant, Clark Gable, Greta Garbo, Winston Churchill, Charles Lindbergh, Calvin Coolidge, Bernard Shaw. Cary Grant era tão assíduo que dizia ter passado ali os melhores fins de semana da vida.

O protocolo era simples e severo. Chegava-se na sexta. Almoçava-se quando quisesse, jantava-se quando Hearst quisesse. Havia tênis, cavalos, a piscina, a sala de cinema, onde toda noite passava um filme, muitas vezes inédito, muitas vezes de Marion. Havia o zoológico. Hearst mantinha o maior zoológico privado do mundo: leões, ursos, elefantes, girafas, camelos, cangurus, e uma manada de zebras solta no pasto, que os hóspedes viam da estrada ao subir. O zoológico acabou nos anos 1930, quando o dinheiro apertou. As zebras ficaram. Os descendentes ainda pastam entre o gado da Hearst Ranch, e quem passa pela Highway 1 com sorte as vê.

Há um detalhe que resume a época melhor do que a lista de nomes. A casa tinha 80 telefones, ligados a uma central que funcionava 24 horas. Hearst dirigia 28 jornais, 18 revistas e estações de rádio de dentro do Gothic Study. Os hóspedes nadavam. Ele trabalhava.

Terraço do Hearst Castle com busto sobre coluna e o Pacífico ao fundo
O terraço, o busto sobre a coluna antiga e, ao fundo, o Pacífico dissolvido na neblina.

V.Roman Pool: Caracalla em vidro veneziano

Há duas piscinas na colina, e elas não competem. Conversam. A coberta é a Roman Pool, construída entre 1927 e 1934 sob a quadra de tênis, inspirada nas Termas de Caracalla. Tem 25 metros de comprimento e, no ponto mais fundo, três de profundidade. O que a torna irrepetível não é a escala, é a superfície: do chão ao teto, cada centímetro está coberto por tesselas de vidro de Murano de dois centímetros e meio, azul-cobalto e laranja, uma parte delas com folha de ouro fundida entre duas camadas de vidro. O desenho é de Camille Solon, um artista inglês que Morgan trouxe para o projeto. As estátuas em mármore são cópias de deuses romanos. As lâmpadas de alabastro, na borda, foram feitas para parecer a lua.

Quem entra fala baixo sem que ninguém peça. A luz que atravessa as clarabóias e bate na água muda de cor durante o dia, e o ouro, à tarde, parece vir de dentro. É a sala mais silenciosa da casa, e a que mais tem a dizer sobre a diferença entre ostentar e conter. Hearst gastou uma fortuna em cada tessela, e o resultado não grita. Reverbera.

Neptune Pool, no Hearst Castle, com a fachada do templo romano
A Neptune Pool. Um templo romano autêntico, remontado sobre 1,3 milhão de litros de água.

VI.Neptune Pool: um templo construído três vezes

A descoberta, ao ar livre, é a Neptune Pool. Hearst a mandou fazer em 1924, um tanque modesto que a mulher e os filhos pediram para nadar. Não gostou. Mandou refazer em 1926, maior, com uma cascata. Ainda não. A terceira versão, terminada em 1936, é a que existe: 32 metros de comprimento, 18 de largura, 1,3 milhão de litros de água, revestida de mármore de Vermont, cercada por colunatas e estátuas do escultor francês Charles Cassou, e, na cabeceira, a fachada de um templo romano de verdade. As colunas e o frontão, com Netuno e as nereidas, são fragmentos autênticos dos séculos 1 a 4, comprados na Itália e remontados sobre a água pela equipe de Morgan.

Ela é o retrato mais preciso do que Hearst quis fazer na colina: a Antiguidade ao alcance da mão, com a Califórnia como pano de fundo. Nos anos 1930, os hóspedes nadavam ali entre sessões de filme. Em 2014, com a seca e as rachaduras, a piscina foi esvaziada. A restauração levou quatro anos, custou cerca de 10 milhões de dólares e refez o sistema hidráulico inteiro sem trocar uma pedra visível. Voltou a encher em agosto de 2018.

Desde 2019, existe uma única forma legal de nadar nela. A Foundation at Hearst Castle, que cuida da conservação do monumento, abre a piscina em algumas noites de verão para cinquenta pessoas, a cerca de mil dólares cada. As datas de 2026 esgotaram. É o tipo de ingresso que se compra pelo que se sente, não pelo que se vê.

Um templo do século 1 refletido numa piscina de 1936. Nenhum dos dois parece deslocado. Esse é o feito.

VII.Xanadu

Em 1941, um diretor de 25 anos chamado Orson Welles estreou um filme sobre um magnata de jornais que morre sozinho numa mansão chamada Xanadu, cercado de estátuas encaixotadas e animais exóticos. Hearst entendeu na hora. Tentou comprar os negativos de Cidadão Kane para destruí-los, proibiu qualquer menção ao filme nos seus jornais e pressionou os cinemas a não exibi-lo. O filme foi lançado mesmo assim, fez pouco dinheiro e virou, para muitos, o melhor da história.

A ironia é que Welles errou o essencial. Kane morre isolado e amargo. Hearst passou os últimos anos rodeado de convidados, de Marion e de obras que não pararam até 1947, quando a saúde o obrigou a descer a colina pela última vez. Morreu em Beverly Hills, em 1951, aos 88 anos. A casa ficou como estava: com um andar inteiro sem acabamento, andaimes na ala norte e uma lista de encomendas ainda por chegar.

Em 1957, a Hearst Corporation doou a propriedade ao estado da Califórnia. Abriu ao público em junho de 1958. Hoje, entre 750 mil e 850 mil pessoas sobem a colina por ano, de ônibus, em grupos guiados, com o mesmo protocolo de sempre: chega-se no horário, não se toca em nada, e ninguém nada.

Como subir a colina

  • Onde ficaSan Simeon, na Highway 1, a meio caminho entre San Francisco e Los Angeles. Cerca de 3h30 de carro de cada uma. O Visitor Center fica em 750 Hearst Castle Road; ninguém sobe de carro próprio. O ônibus leva 15 minutos por 8 quilômetros de estrada sinuosa.
  • Os toursTodos os passeios diurnos incluem as duas piscinas, os jardins e o filme “Building the Dream”. Grand Rooms é o tour de entrada, com o Assembly Room, o Refeitório e a sala de cinema. Upstairs Suites sobe às torres, à biblioteca e ao Gothic Suite. Cottages & Kitchen mostra as casas de hóspedes e a cozinha. Cada um dura cerca de 70 minutos e custa US$ 35. O Julia Morgan Tour, de US$ 110, é o mais longo e o mais raro. Reservas com até 60 dias de antecedência, em hearstcastle.org.
  • À noiteO Art Under the Moonlight (US$ 50), na primavera e no outono, percorre a casa ao entardecer com guias vestidos como nos anos 1930.
  • NadarSó nos jantares beneficentes da Foundation at Hearst Castle, no verão, com 50 vagas por noite e valor próximo de US$ 1.000. As datas de 2026 esgotaram.
  • Onde dormirNão há hospedagem no monumento. Cambria, a 15 minutos ao sul, é a base natural. Para quem prefere ficar no litoral, Big Sur começa 40 minutos ao norte.
  • Quando irA neblina da manhã costuma abrir por volta do meio-dia. Os primeiros tours do dia têm a colina para si; os últimos, a luz.

Há casas que se constroem e casas que se colecionam. Esta foi colecionada por um homem que não sabia parar, desenhada por uma mulher que não sabia desistir, e nunca ficou pronta. Quem desce a colina no fim da tarde, com o Pacífico virando âmbar à direita e as torres de Ronda diminuindo no retrovisor, leva a impressão de que isso era o plano. Um lugar que não termina não pode ser abandonado. Só visitado.

Hearst Castle: 750 Hearst Castle Road, San Simeon, Califórnia. Tours diurnos a partir de US$ 35 (Grand Rooms, Upstairs Suites, Cottages & Kitchen), reservas em hearstcastle.org ou pelo +1 800 444 4445. Fechado em Thanksgiving, Natal e Ano-Novo. Dados de visitação e história: California State Parks, Foundation at Hearst Castle.

Gabriel Silveirado, para a WAYFARER.

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