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Re-Cashmere e Re-Wool: a Prada transforma sobras têxteis em fio novo

Com Re-Cashmere e Re-Wool, a Prada reaproveita resíduos de fiação e aparas de corte para criar fio novo, rastreável por etiqueta NFC, e estende às fibras nobres a lógica circular do Re-Nylon.

ESTILO · Sustentabilidade | Prada

Depois do Re-Nylon, a casa leva a lógica circular às fibras nobres e reaproveita resíduos de fiação e aparas de corte antes mesmo que virem descarte.

Existe uma palavra japonesa que resume, com mais precisão que qualquer jargão corporativo, a urgência de não desperdiçar o que já existe. Chama-se mottainai, e é menos um slogan do que uma ética: reconhecer o valor de um objeto, de um alimento, de uma energia, e por consequência prolongar sua vida útil. A ativista queniana Wangari Maathai, Nobel da Paz em 2004, ajudou a internacionalizar o conceito ao associá-lo aos três erres (reduzir, reutilizar, reciclar), às vezes acompanhados de um quarto: respeitar.

É esse princípio, discreto e exigente, que a Prada decide aplicar à moda com Re-Cashmere e Re-Wool, projeto de abastecimento responsável que estende às fibras naturais a lógica circular já testada com o Re-Nylon.

A diferença está no ponto da cadeia produtiva em que a circularidade entra em ação. Enquanto o Re-Nylon parte de resíduos plásticos pré e pós-consumo, recolhidos em oceanos e aterros, as novas coleções trabalham com sobras pré-consumo: resíduos de fiação, aparas de corte, excedentes que normalmente seguiriam para descarte antes mesmo de chegar ao consumidor.

Do fio curto ao fio novo

O cashmere é, por definição, uma fibra curta. Vem do subpelo, chamado duvet, das cabras da espécie Capra hircus, mais macio e quente que os pelos externos de proteção (a giarra, como dizem os italianos), responsáveis por resguardar o animal do clima extremo em que vive. É justamente essa delicadeza que torna o cashmere especial e, ao mesmo tempo, gerador de descarte abundante durante a fiação.

O Re-Cashmere nasce dessa sobra: um processo inteiramente realizado na Itália, que reaproveita resíduos de fiação e retalhos certificados pela Sustainable Fibre Alliance, recolhidos também na unidade do Grupo Prada em Torgiano, onde são feitos os protótipos da divisão de malharia. Ali, os fragmentos de cashmere são selecionados e separados por cor, o que elimina a necessidade de novo tingimento, antes de serem cardados e transformados em fio novo, certificado pelo Global Recycled Standard.

Caminho semelhante segue o Re-Wool, que extrai seu material de lã e cashmere, tecidos com defeito e aparas de corte provenientes das diferentes linhas produtivas do grupo. O fio resultante combina lã virgem certificada pelo Responsible Wool Standard, lã reciclada e uma pequena proporção de cashmere reciclado, ambos sob certificação GRS. Uma seleção criteriosa isola apenas as fibras aptas a passar pelo desfiamento úmido, processo mecânico auxiliado por líquidos, antes da fiação cardada que origina o fio pronto para tecer calças, casacos, saias e vestidos.

Rastreabilidade na etiqueta

Circularidade e atenção à sustentabilidade não são novidade na trajetória do Grupo Prada. O Re-Nylon, que regenera resíduos plásticos recolhidos em oceanos e aterros, também sustenta uma frente de financiamento ambiental: desde julho de 2023, 1% da receita da coleção Re-Nylon é destinado ao Sea Beyond, programa educativo criado em parceria com a Comissão Oceanográfica Intergovernamental da UNESCO, voltado a sensibilizar novas gerações sobre a preservação dos mares.

Re-Cashmere e Re-Wool representam um desdobramento natural da rota traçada pelo Grupo Prada em 2023 para migrar suas principais matérias-primas rumo a soluções de menor impacto, com a rastreabilidade como ferramenta central na gestão ambiental ao longo da cadeia de valor. Como já ocorre com o Re-Nylon, cada peça das novas linhas traz uma etiqueta NFC que dá acesso à plataforma do Aura Blockchain Consortium, onde é possível acompanhar a origem das fibras, os fornecedores, o país onde os materiais foram processados e as etapas seguintes de fabricação.

Mottainai, diriam em Tóquio: é uma pena desperdiçar. Na Prada, a palavra japonesa ganha tradução industrial. A fibra que antes valia apenas pela raridade passa a valer também pelo caminho que percorreu, e o cuidado com o que já existe deixa de ser discurso para virar, literalmente, matéria-prima.

Da redação da WAYFARER.

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