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A história da Yellow Boot, a bota amarela da Timberland

Criada em 1973 para o inverno da Nova Inglaterra, a bota amarela da Timberland passou por Milão, pelo hip hop e pelas passarelas sem mudar de forma.

Nota editorial: publicada originalmente em 2018 e atualizada em setembro de 2026.

Nenhum ícone nasce querendo ser ícone. A bota amarela da Timberland nasceu querendo manter secos os pés de quem trabalhava no inverno da Nova Inglaterra.

Lançada em 1973, ela atravessou mais de cinco décadas sem mudar de forma, e talvez esteja aí o segredo. O couro nobuck cor de trigo, a sola de borracha, o colarinho acolchoado, os ilhoses de metal: tudo continua onde sempre esteve. O mundo em volta é que foi mudando de ideia sobre ela.

Origem: uma família de sapateiros

A história começa com Nathan Swartz, sapateiro judeu nascido em Odessa, na atual Ucrânia, que emigrou jovem para os Estados Unidos e fez carreira no ofício da família. Em 1952, comprou metade da Abington Shoe Company, uma pequena fábrica de South Boston que produzia calçados para outras marcas. Pouco depois ficou com o restante e levou os filhos, Sidney e Herman, para trabalhar com ele.

O salto técnico veio nos anos 1960, com a moldagem por injeção, que une a sola ao cabedal sem costura por baixo e permite, enfim, uma bota de couro verdadeiramente impermeável. Para quem passava o dia ao ar livre, no frio úmido da região, era a diferença entre um turno suportável e um pé encharcado.

Em 1969, a empresa mudou-se para Newmarket, em New Hampshire. Quatro anos depois, sob o comando de Sidney, saiu a bota que daria nome a tudo: couro nobuck resistente, costuras seladas, sola de borracha injetada e aquele tom amarelado que ninguém confundiria.

O nome, Timberland, homenageava as florestas e os lenhadores da Nova Inglaterra, e com ele veio o logotipo da árvore. Fez tanto sucesso entre lenhadores, pescadores e operários que, em 1978, a própria empresa adotou o nome da bota e passou a se chamar The Timberland Company.

Milão: o primeiro desvio de rota

No começo dos anos 1980, a juventude milanesa consumia tudo o que vinha dos Estados Unidos, do jeans às jaquetas coloridas. Segundo a história que a marca gosta de contar, um comerciante italiano apareceu em New Hampshire para comprar algumas centenas de pares, vendeu tudo e voltou atrás de mais. Os paninari de Milão adotaram a bota, e dali ela seguiu para o Japão e Hong Kong como sinal de individualidade. A peça de trabalho virava, sem pedir licença, um símbolo do estilo americano.

Nova York: o hip hop assume

O segundo desvio foi mais barulhento. Entre o fim dos anos 1980 e os anos 1990, o hip hop nova-iorquino tomou a bota para si, quase sempre desamarrada, e ela passou a aparecer em capas de disco e letras de Wu-Tang Clan, Nas, Tupac e Jay-Z. Em 1993, o New York Times já registrava o fenômeno. Foi ali que a Timberland ganhou o apelido que resume sua trajetória: o Air Jordan das botas.

Permanência: meio século sem mudar de forma

Desde 2011, a Timberland pertence ao grupo americano VF Corporation. Em 2023, os 50 anos da bota foram marcados pelo projeto Future73, em que seis criadores, entre eles Samuel Ross, da A-COLD-WALL*, Edison Chen, da CLOT, e Humberto Leon, reinterpretaram o modelo de seis polegadas. No ano seguinte, a bota ganhou até uma leitura assinada pela Louis Vuitton. Nada mal para um calçado de canteiro de obras.

O desenho, no entanto, segue praticamente intocado. As mudanças ao longo das décadas foram de construção e conforto, nunca de silhueta. É raro um objeto de uso diário atravessar tantas subculturas, do lenhador ao paninaro, do rapper ao desfile, sem precisar se reinventar.

A bota amarela continua sendo o que era em 1973: couro, borracha e a promessa de pés secos. O resto, o status, as capas de disco, as passarelas, veio por conta de quem a calçou.

Redação WAYFARER

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