ESTILO · Moda | Yeezy Season 01
Kanye West sabe como fazer barulho. Agora atendendo por Ye, o rapper e designer provou mais uma vez que domina a arte de reaparecer no momento exato em que todos já haviam parado de perguntar. Bastou um desfile na noite de quarta-feira, 4 de novembro, na abertura da nova loja-conceito da marca, a Droam 1, no número 4317 da Beverly Boulevard, em Los Angeles, para reacender o debate sobre um dos projetos mais influentes, e controversos, da moda recente. Foi o primeiro desfile completo da Yeezy em quatro anos, transmitido ao vivo, num cenário muito diferente daquele que viu a marca nascer.
O retorno leva o nome de Season 01, o primeiro capítulo de uma nova fase. Em 2022, declarações antissemitas de Kanye West provocaram a ruptura com parceiros comerciais de peso, entre eles a adidas, que encerrou a colaboração e desmontou o principal motor financeiro do projeto. Balenciaga e Gap também cortaram relações com o artista. Desde então, Ye tentou reconstruir a marca de forma independente, com produção própria e venda direta.

O peso de um passado bilionário
A parceria entre Kanye West e a adidas foi assinada em 2013 e ganhou escala comercial a partir de 2015. Em 2021, segundo estimativas, a linha teria gerado cerca de 1,7 bilhão de dólares em vendas para a fabricante alemã, número que ajuda a dimensionar o alcance de um projeto que soube se expandir além do tênis. Os Yeezy Boost 350, os Yeezy 700 e, mais recentemente, os Yeezy Slides tornaram-se referência obrigatória, copiados à exaustão pelo design, pela paleta cromática e pelo conforto.

Dali nasceu um universo com estética quase pós-apocalíptica: nenhum ornamento, nenhuma cor de destaque, apenas paletas neutras, silhuetas essenciais e volumes desconstruídos. Se hoje o streetwear circula nas passarelas das grandes maisons, o crédito é em boa parte da Yeezy. Se o minimalismo virou linguagem corrente, a origem passa pelo mesmo lugar. Kanye West, ao lado de Virgil Abloh, Pharrell Williams e poucos outros nomes, percebeu antes da maioria que a moda mudava de direção e que o público pedia novidade real, não nostalgia reciclada.

Uma passarela em círculos
A apresentação fugiu do formato clássico. Os modelos andaram em voltas ao redor de uma grande colina branca, embalados por faixas inéditas de Ye. Entre eles estava o rapper Nettspend. Na plateia, os quatro filhos do designer, North, Saint, Chicago e Psalm, e nomes como Kid Cudi, Big Sean e o designer Jerry Lorenzo. Bianca Censori, mulher de Ye, também acompanhou o desfile.


Um projeto que carrega a marca do seu tempo
Rever a marca depois de tanto tempo levanta uma pergunta inevitável: ela ainda dialoga com quem compra moda hoje? Num momento em que se fala mais em peças atemporais e no valor da roupa bem construída, a proposta de uma moda como segunda pele, entre transparências e tons neutros, soa deslocada. Falta a ela uma lógica prática que o consumidor atual parece exigir.

É preciso reconhecer a Ye o mérito de ter construído uma estética própria e uma comunidade sólida em torno dela, feito raro num sistema de moda que poucos conseguem atravessar vindos da música. Cada capítulo da Yeezy refletiu, inevitavelmente, a evolução de Kanye West como artista, cuja imagem sempre se alimentou de tonalidades desbotadas e cenários distantes da realidade imediata.

Em 2026, ainda há espaço para looks monocromáticos, entre o esportivo e o conceitual? Os tempos são híbridos, como a própria Season 01, mas o desassossego que atravessa a coleção parece descompassado em relação a um período que já é, por si, bastante inquieto. E foi a própria indústria que redescobriu o valor do saber fazer, justificando cada compra pela qualidade e pelo tempo investido numa peça.
Ye sabe fazer barulho, e voltou a fazê-lo, desta vez em círculos ao redor de uma colina branca. O que a Season 01 ainda não respondeu é se, quatro anos depois, o barulho basta.
Serviço
Coleção: Yeezy Season 01, apresentada em 4 de novembro de 2026.
Onde: loja Droam 1, 4317 Beverly Boulevard, Los Angeles, e site da marca.


