WAYFARER BRASIL · A ENTREVISTA
A bordo do KALIZMA — Baía de Kotor, Montenegro
O iate a motor mais antigo do mundo já pertenceu a Elizabeth Taylor. Esta noite, ele carrega uma menina siberiana que ensinou a Índia a dançar e construiu seu nome de Ibiza a Dubai — e que está prestes a pisar no Brasil pela primeira vez, neste verão. Uma conversa entre o editor Gabriel Silveirado e Julia Bliss, em algum ponto entre as montanhas e o Adriático.
Existem entrevistas que você conduz, e existem entrevistas que a sala conduz por você. Essa foi do segundo tipo.
A gente está ancorado na costa de Montenegro, com as montanhas caindo direto no mar do jeito que só acontece aqui. Embaixo de nós está o KALIZMA — construído em 1906, o iate a motor mais antigo ainda em operação no mundo inteiro, o barco que Richard Burton deu de presente a Elizabeth Taylor e batizou com o nome das três filhas do casal. Latão que sobreviveu a impérios. Teca que se lembra de mais noites célebres do que qualquer um de nós um dia vai viver.
Hoje ele pertence a Shirish Saraf — e, antes de qualquer pergunta, é preciso uma menção honrosa a ele. Um cavalheiro que entende que um barco como este não se possui: se guarda em confiança pra próxima história. Ele abriu os conveses pra gente com a generosidade discreta de quem sabe que a melhor coisa que se faz com a beleza é dividir. Obrigado, Shirish. Esta conversa existe porque você deixou.
Julia Bliss senta na minha frente, descalça, o sol virando âmbar atrás dela. A gente começa.
GS — Vamos começar por onde a gente está. O KALIZMA. O iate da Elizabeth Taylor, na costa de Montenegro. O que uma noite dessas faz com uma pessoa?
JB — Te humilha e te desafia ao mesmo tempo. Você sente cada fantasma célebre desse barco dizendo: vai, faz alguma coisa que valha a pena lembrar. Eu cresci na Sibéria, no frio, onde uma menina como eu não tinha como terminar no iate da Elizabeth Taylor no Adriático. Então quando eu sento aqui, eu não me sinto sortuda — sorte é uma palavra pequena demais. Eu me sinto convocada.
“Sorte é uma palavra pequena demais. Eu me sinto convocada.”
GS — Você já rodou o mundo. Situa Montenegro pra quem nunca veio.
JB — Montenegro é um segredo que a Europa ainda não terminou de guardar. É o drama da Noruega com o calor do Mediterrâneo — essas montanhas imensas e, de repente, esse mar de um azul quase sem cabimento. A Baía de Kotor parece um fiorde que resolveu ser glamouroso em vez de gelado. E as pessoas carregam uma dignidade antiga. Me lembra o melhor da Rússia, pra ser honesta. Eu vivo dizendo pro Gabriel: é o tipo de lugar sobre o qual você não posta, porque quer guardar só pra você.
GS — Essa viagem. Só essa. Qual o momento que você vai guardar?
JB — Não é um momento grande, é uma sequência de pequenos momentos perfeitos. Café no convés antes de todo mundo acordar, com a água feito vidro. Nadar a partir da popa de um barco de mais de cem anos. Conversas que passam três horas da madrugada porque ninguém quer ser quem quebra o feitiço. Esse é o luxo que as pessoas não entendem — não é o ouro e o mármore, é o tempo que se recusa a ter pressa.
GS — Volta pro começo. A primeira vez que a música eletrônica realmente te alcançou — quantos anos você tinha?
JB — Eu era adolescente na Sibéria, um dos cantos mais frios do mundo, onde a música era a única coisa que mantinha uma casa aquecida. Minha mãe sempre tinha algo tocando. Mas a eletrônica me tocou na adolescência — e não foi uma canção, foi uma sensação. Como se o chão respirasse comigo. Comecei a discotecar aos quinze. Tem menina que acha um hobby nessa idade. Eu achei uma língua que eu ia passar a vida inteira falando.
“Eu não escolhi a música eletrônica. Ela me escolheu antes de eu saber o nome dela.”
GS — Você largou uma carreira corporativa na Rússia e veio parar na Índia. Como nasce a DJ que o mundo conhece hoje?
JB — Você dá o salto antes de estar pronta, porque a gente nunca está pronta. Vim pra Índia por um emprego corporativo sério, depois de umas férias em Goa, e a Índia simplesmente se recusou a me deixar ir embora. Eu sempre digo assim: a Rússia é o meu janambhoomi, a terra onde nasci; a Índia é o meu karmabhoomi, a terra onde eu faço o meu trabalho. Foi lá que eu virei DJ de verdade — toquei no Sunburn, o maior festival da Ásia, por mais de uma década, fui eleita a DJ internacional número um do país, e criei o meu lado mais cru, o techno, sob o nome MISS BLISS. A Índia me deu um segundo nascimento.
GS — E o mundo fora da Índia? Conta da sua vida na estrada.
JB — A estrada é a minha casa de verdade. Ibiza, que é a catedral da música eletrônica. O ADE, em Amsterdam, que é onde a indústria inteira se encontra uma vez por ano. Os anos em que eu morei e toquei pela Itália. E agora Dubai, que virou a minha base pra tudo que é internacional. Cada cidade me deu uma camada. A Europa me ensinou a paciência de um set longo, de construir uma viagem de horas. O Oriente Médio me ensinou o glamour. A Índia me deu a alma. Eu não sou uma DJ de um lugar só — eu sou a soma de todos os aeroportos que já me cuspiram às cinco da manhã.
“Eu não sou uma DJ de um lugar só. Sou a soma de todos os aeroportos que já me cuspiram às cinco da manhã.”
GS — Tem um continente inteiro que você nunca pisou. E é justamente o próximo. O Brasil.
JB — Eu nunca estive no Brasil. Nunca. E talvez seja exatamente por isso que ele me puxa com tanta força. É o último grande território que eu ainda não vivi — o ponto do mapa que continua aceso e que eu nunca toquei. Por anos eu vi de longe: os vídeos, as multidões, aquela coisa que o brasileiro tem com o som, que não é igual em lugar nenhum. Mas ver de longe cansa. Foi o Gabriel e a WAYFARER que chegaram e disseram: chega de olhar pela janela, a gente vai te levar pra dentro. Então isso aqui não é nostalgia. É antecipação pura. É a véspera.
“Eu nunca estive no Brasil. E talvez seja exatamente por isso que ele me puxa com tanta força.”
GS — Então deixa eu te contar o que a gente está montando pra essa estreia.
JB — E é isso que me tira o sono, no melhor sentido. Me falam da D-Edge, em São Paulo, que o mundo do techno respeita. O Gabriel me descreve o Laroc com o sol nascendo em cima da pista, e eu fico tentando imaginar. Dizem que Copacabana no réveillon são milhões de pessoas de branco, com os fogos saindo de dentro da água — eu ainda não consigo nem desenhar isso na cabeça. E tem o Sul: Floripa, Jurerê, casas como a Green Valley e a Warung, que vivem no topo dos rankings globais. Eu não vivi nada disso ainda. Vou viver tudo pela primeira vez, com a WAYFARER abrindo cada porta. Estrear um país inteiro de uma vez — quantos artistas ganham isso numa carreira? Esse é o capítulo que o Gabriel está me ajudando a escrever, e eu quero que a primeira página seja brasileira.
“Estrear um país inteiro de uma vez — quantos artistas ganham isso numa carreira?”
GS — Pra além das pick-ups. Quais são as suas outras paixões — e o que você está construindo agora?
JB — A música é o meu primeiro amor, mas eu tenho muitos. Sou atriz — trabalhei no cinema indiano, e contar uma história na tela me ensinou a segurar uma sala. Sou empreendedora — montei a Julia Bliss DJ Academy e o meu selo, a Bliss Sound Records, porque eu acredito em abrir a porta pra próxima geração, principalmente pras mulheres. E sou viajante de carteirinha. Mas a minha paixão mais profunda é a transformação: pegar uma menina tímida e fazer dela uma DJ; pegar uma sala em silêncio e fazer dela uma celebração.
“Eu não coleciono coisas. Eu coleciono as vidas que tive a sorte de viver.”
GS — A última, e faz dela a que eles vão lembrar. Qual é o sonho — e o que você diz pro moleque que quer a sua vida?
JB — O sonho nunca foi ser o maior nome. O sonho é ser uma ponte — entre Rússia e Índia, Oriente e Ocidente, a menina sem contato nenhum e a carreira pela qual ela reza. É por isso que eu construí a Academy e a Bliss Sound Records — pra formar cem artistas que terminem melhores do que eu, principalmente mulheres. No dia em que uma menina na Sibéria, em Goa ou em São Paulo disser “eu comecei por causa dela”, o sonho está completo.
E pro moleque: protege a sua originalidade como se fosse a única coisa que você tem, porque é. A tecnologia ensina qualquer um a apertar os botões. Ela não ensina ninguém a ter a sua alma. Não corre atrás da tendência — constrói a coisa que a tendência vai copiar daqui a dois anos. E trabalha mais do que o seu talento: talento abre a porta, disciplina é o que te mantém na sala. Eu vim do nada, no lugar mais frio da Terra, sem plano B. Se eu consegui, a única coisa entre você e o mundo é a decisão de começar.
“Seja inegável. O mundo sempre abre espaço pra quem ele não consegue ignorar.”
O sol já se foi. Em algum lugar abaixo do convés, num barco mais velho que o jazz gravado, alguém colocou música pra tocar. A Julia já está balançando o corpo. Daqui a alguns meses ela vai cruzar um oceano e pisar, pela primeira vez, num país que por enquanto só existe pra ela em histórias. Vai ser embaixo de fogos, do outro lado do mundo.
Mas hoje, no KALIZMA, na costa de Montenegro, é só pra gente.
— Gabriel Silveirado, pra WAYFARER Brasil. A bordo do KALIZMA, com gratidão a Shirish Saraf.
