WAYFARER · A Entrevista | A bordo do KALIZMA, Baía de Kotor, Montenegro
Há entrevistas que você conduz. E há entrevistas que a sala conduz por você. Esta foi do segundo tipo.
Estamos ancorados na costa de Montenegro, onde as montanhas despencam direto no mar de um jeito que só acontece aqui. Sob nossos pés está o KALIZMA: construído em 1906, é o iate a motor mais antigo ainda em operação no planeta, o barco que Richard Burton deu de presente a Elizabeth Taylor, batizado com os nomes das três filhas do casal. Latão que sobreviveu a impérios. Teca que se lembra de mais noites célebres do que qualquer um de nós viverá. Hoje ele pertence a Shirish Saraf. E, antes de qualquer pergunta, ele merece uma menção honrosa: um cavalheiro que entende que um barco assim não se possui, se guarda em confiança para a próxima história. Foi ele quem abriu os conveses, com a generosidade discreta de quem sabe que a melhor coisa a se fazer com a beleza é dividi-la.
Julia Bliss senta à minha frente, descalça, o sol virando âmbar atrás dela. A gente começa.
WAYFARER: Vamos começar por onde a gente está. O KALIZMA. O iate de Elizabeth Taylor, na costa de Montenegro. O que uma noite dessas faz com uma pessoa?
JULIA BLISS: Te humilha e te desafia ao mesmo tempo. Você sente cada fantasma célebre deste barco dizendo: vai, faz alguma coisa que valha a pena lembrar. Eu cresci na Sibéria, no frio, onde uma menina como eu não tinha como terminar no iate de Elizabeth Taylor no Adriático. Então, quando eu sento aqui, não me sinto sortuda, sorte é uma palavra pequena demais. Eu me sinto convocada.
“Sorte é uma palavra pequena demais. Eu me sinto convocada.”
WAYFARER: Você já rodou o mundo. Situe Montenegro para quem nunca veio.
JULIA BLISS: Montenegro é um segredo que a Europa ainda não terminou de guardar. É o drama da Noruega com o calor do Mediterrâneo: montanhas imensas e, de repente, um mar de um azul quase sem cabimento. A Baía de Kotor parece um fiorde que resolveu ser glamouroso em vez de gelado. E as pessoas carregam uma dignidade antiga, me lembra o melhor da Rússia, para ser honesta. Eu vivo dizendo ao Gabriel: é o tipo de lugar sobre o qual você não posta, porque quer guardar só para você.
WAYFARER: Esta viagem. Só esta. Qual o momento que você vai guardar?
JULIA BLISS: Não é um momento grande, é uma sequência de pequenos momentos perfeitos. Café no convés antes de todo mundo acordar, com a água feito vidro. Nadar a partir da popa de um barco de mais de cem anos. Conversas que passam das três da madrugada porque ninguém quer ser quem quebra o feitiço. Esse é o luxo que as pessoas não entendem, não é o ouro nem o mármore, é o tempo que se recusa a ter pressa.

WAYFARER: Volta pro começo. A primeira vez que a música eletrônica realmente te alcançou, quantos anos você tinha?
JULIA BLISS: Eu era adolescente na Sibéria, um dos cantos mais frios do mundo, onde a música era a única coisa que mantinha uma casa aquecida. Minha mãe sempre tinha algo tocando. Mas a eletrônica me tocou na adolescência, e não foi uma canção, foi uma sensação. Como se o chão respirasse comigo. Comecei a discotecar aos quinze. Tem menina que acha um hobby nessa idade; eu achei uma língua que ia passar a vida inteira falando.
“Eu não escolhi a música eletrônica. Ela me escolheu antes de eu saber o nome dela.”
WAYFARER: Você largou uma carreira corporativa na Rússia e foi parar na Índia. Como nasce a DJ que o mundo conhece hoje?
JULIA BLISS: Você dá o salto antes de estar pronta, porque a gente nunca está pronta. Vim para a Índia por um emprego corporativo sério, depois de umas férias em Goa, e a Índia simplesmente se recusou a me deixar ir embora. Eu sempre digo assim: a Rússia é o meu janambhoomi, a terra onde nasci; a Índia é o meu karmabhoomi, a terra onde faço o meu trabalho. Foi lá que virei DJ de verdade, toquei no Sunburn, o maior festival da Ásia, por mais de uma década, fui eleita a DJ internacional número um do país e criei o meu lado mais cru, o techno, sob o nome MISS BLISS. A Índia me deu um segundo nascimento.

WAYFARER: E o mundo fora da Índia? Conta da sua vida na estrada.
JULIA BLISS: A estrada é a minha casa de verdade. Ibiza, a catedral da música eletrônica. O ADE, em Amsterdam, onde a indústria inteira se encontra uma vez por ano. Os anos em que morei e toquei pela Itália. E agora Dubai, que virou a minha base para tudo que é internacional. Cada cidade me deu uma camada: a Europa me ensinou a paciência de um set longo, de construir uma viagem de horas; o Oriente Médio me ensinou o glamour; a Índia me deu a alma.
“Eu não sou uma DJ de um lugar só. Sou a soma de todos os aeroportos que já me cuspiram às cinco da manhã.”
WAYFARER: Tem um continente inteiro que você nunca pisou. E é justamente o próximo. O Brasil.
JULIA BLISS: Eu nunca estive no Brasil. Nunca. E talvez seja exatamente por isso que ele me puxa com tanta força. Me falam da D-Edge, em São Paulo, que o mundo do techno respeita. O Gabriel me descreve o Laroc com o sol nascendo em cima da pista, e eu fico tentando imaginar. Dizem que Copacabana no réveillon são milhões de pessoas de branco, com os fogos saindo de dentro da água, eu ainda não consigo nem desenhar isso na cabeça. E tem o Sul: Floripa, Jurerê, casas como a Green Valley e a Warung, que vivem no topo dos rankings globais. Eu não vivi nada disso ainda. Vou viver tudo pela primeira vez, com a WAYFARER abrindo cada porta.
“Estrear um país inteiro de uma vez, quantos artistas ganham isso numa carreira?”

WAYFARER: Para além das pick-ups. Quais são as suas outras paixões, e o que você está construindo agora?
JULIA BLISS: A música é o meu primeiro amor, mas eu tenho muitos. Sou atriz, trabalhei no cinema indiano, e contar uma história na tela me ensinou a segurar uma sala. Sou empreendedora, montei a Julia Bliss DJ Academy e o meu selo, a Bliss Sound Records, porque acredito em abrir a porta para a próxima geração, principalmente para as mulheres. E sou viajante de carteirinha. Mas a minha paixão mais profunda é a transformação: pegar uma menina tímida e fazer dela uma DJ; pegar uma sala em silêncio e fazer dela uma celebração.
“Eu não coleciono coisas. Eu coleciono as vidas que tive a sorte de viver.”

WAYFARER: A última, e faz dela a que eles vão lembrar. Qual é o sonho, e o que você diz pro moleque que quer a sua vida?
JULIA BLISS: O sonho nunca foi ser o maior nome. O sonho é ser uma ponte, entre Rússia e Índia, Oriente e Ocidente, a menina sem contato nenhum e a carreira pela qual ela reza. É por isso que construí a Academy e a Bliss Sound Records: para formar cem artistas que terminem melhores do que eu, principalmente mulheres. No dia em que uma menina na Sibéria, em Goa ou em São Paulo disser “eu comecei por causa dela”, o sonho está completo. E para o moleque: protege a sua originalidade como se fosse a última coisa que te resta. Seja inegável.
“Seja inegável. O mundo sempre abre espaço para quem ele não consegue ignorar.”
O sol já se foi. Em algum lugar abaixo do convés, num barco mais velho que o jazz gravado, alguém colocou música para tocar. Julia já está balançando o corpo. Daqui a alguns meses ela vai cruzar um oceano e pisar, pela primeira vez, num país que por enquanto só existe para ela em histórias. Vai ser embaixo de fogos, do outro lado do mundo. Mas hoje, no KALIZMA, na costa de Montenegro, é só para a gente.
Gabriel Silveirado, para a WAYFARER. A bordo do KALIZMA, com gratidão a Shirish Saraf.


