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Cinco objetos que estão reescrevendo a casa

A inteligência artificial finalmente saiu do telefone e entrou na sala, na cozinha, no quarto — e até na caixa de areia do gato. Cinco lançamentos recentes mostram que o futuro doméstico não é mais sobre comandos de voz, e sim sobre máquinas que aprendem a viver com a gente.

OBJETOS DO COTIDIANO  ·  TECH

Cinco objetos que estão reescrevendo a casa

A inteligência artificial finalmente saiu do telefone e entrou na sala, na cozinha, no quarto — e até na caixa de areia do gato. Cinco lançamentos recentes mostram que o futuro doméstico não é mais sobre comandos de voz, e sim sobre máquinas que aprendem a viver com a gente.

Por Redação WAYFARER  ·  18 de maio de 2026

Oneisall Ease S1 — imagem de capa
ONEISALL EASE S1  /  CORTESIA DO FABRICANTE

Existe um momento curioso na história dos objetos domésticos. Por décadas, eletrodomésticos foram máquinas mudas — geladeiras, fornos, aspiradores —, dependentes de um humano que apertasse o botão certo na hora certa. Depois vieram os smart, que só deixaram tudo um pouco mais complicado: agora eram máquinas mudas que também exigiam senha, app e atualização de firmware. O que muda em 2026 é o tipo de inteligência embarcada. Sensores, câmeras e modelos de IA fizeram a casa parar de pedir instruções e começar a observá-la — para então, com mais ou menos delicadeza, agir.

A WAYFARER selecionou cinco lançamentos recentes que representam essa mudança de regime. Não são gadgets de catálogo de duty-free: são objetos com pretensão arquitetônica, que disputam o pouco espaço útil de apartamentos urbanos e prometem entregar, em troca, algo que se aproxime de tempo livre. Cada um deles tem um defeito de juventude — o preço, a estética, a dependência de assinatura — mas todos sinalizam para onde a casa contemporânea está indo.


I

DOMÉSTICA SECRETA

Oneisall Ease S1

A caixa de areia automatizada que prova: até o gato merece domótica.

Oneisall Ease S1 em ambiente doméstico
ENGENHARIA SENSORIAL EM AÇO INOX E SILICONE  /  ONEISALL

A Oneisall é uma fabricante chinesa de tecnologia pet — comedouros, aspiradores e purificadores. O Ease S1 é seu lançamento de maio: uma caixa de areia automática, com bandeja elevada e mecanismo pivotante que peneira os resíduos e os deposita, fora de vista e de cheiro, numa gaveta inferior. O objeto não é exatamente bonito — quatro pernas curtas, tampa em formato de viseira, peneira de aço inox de aspecto cirúrgico —, mas ocupa um nicho que ninguém antes tinha tratado com tanto rigor sensorial.

Sensores embarcados no Ease S1
Ciclo de operação do Ease S1

São radar, sensor infravermelho e células de carga nas pernas, todos dedicados a detectar a aproximação do animal e interromper o ciclo de peneiragem caso ele entre no meio da operação. A combinação de aço inox e silicone reduz odores e manutenção. O resultado é uma máquina silenciosa, discreta o suficiente para não assustar gatos tímidos, e quase invisível para humanos avessos a notificações.

O ponto contra: o Ease S1 exige meio metro cúbico de espaço útil, o que em apartamentos paulistanos não é trivial. E há ainda o convencimento do consumidor final — que, neste caso, anda em quatro patas. A própria Oneisall recomenda instalá-lo ao lado da caixa antiga, com um pouco de areia usada espalhada na nova, até que o bicho decida migrar. Tecnologia, no fim, ainda precisa de paciência.

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A inteligência embarcada em 2026 é a que se faz despercebida. Quando a tecnologia desaparece, sobra apenas o objeto — e a casa volta a ser casa.


II

CRIATURA DE CINCO EIXOS

Roborock Saros Z70

O primeiro aspirador robô do mundo com braço mecânico — e a admissão de que o chão limpo deixou de ser o ponto.

Apresentado na CES 2025 e finalmente disponível em escala neste 2026, o Saros Z70 é o primeiro aspirador robô de produção em massa com um braço mecânico dobrável de cinco eixos. A Roborock o batizou de OmniGrip e o vendeu como o que ele de fato é: uma prova pública de que aspiradores robôs amadureceram a ponto de quererem fazer outra coisa além de aspirar.

O braço identifica e remove obstáculos no chão — meias, sandálias, lenços amassados, brinquedos de até 300 gramas — e os deposita em compartimentos pré-definidos pelo usuário no aplicativo. Câmera dupla, iluminação LED e sensores de precisão coordenam o movimento; um sensor de peso impede que o aparelho aperte demais um objeto frágil. Em sua passagem inicial, o robô mapeia os obstáculos; na segunda, volta para retirá-los e limpar as áreas antes bloqueadas.

Os 22.000 Pa de sucção e o sistema de mopping com água quente a 80°C, ainda que poderosos, parecem quase coadjuvantes diante do gesto antropomórfico do braço. E é justamente onde mora o problema: as resenhas mais minuciosas apontam que o reconhecimento ainda é restrito a poucas categorias de objetos e o desempenho em carpete cai diante de concorrentes mais baratos. O Z70 é, antes de tudo, um manifesto — o tipo de produto que justifica o próprio preço porque sinaliza o que virá depois.

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III

TERMOSTATO DO REM

Eight Sleep Pod 5

A capa de colchão que regula a temperatura do casal por algoritmo — e cobra mensalidade para continuar a fazê-lo.

Há, na biografia do sono moderno, um antes e um depois da Eight Sleep. A startup nova-iorquina (com pendores marciais de Vale do Silício) consolidou em seu Pod 5 um sistema de três peças: uma capa de colchão atravessada por uma malha fina de tubos d’água, uma base motorizada com ajuste de inclinação e um hub do tamanho de um pequeno desumidificador, que circula água entre 13°C e 43°C. O resultado é um colchão com duas zonas térmicas independentes, gerenciadas por sensores biométricos que rastreiam batimento, respiração, movimento e até roncos — tudo sem wearable.

A camada de IA chama-se Autopilot. Aprende a arquitetura do seu sono ao longo de cerca de uma semana e passa a ajustar a temperatura em cada fase da noite: mais frio no sono profundo, mais quente no REM. Em modelos Ultra, eleva discretamente a cabeceira se detectar ronco. Há um alarme térmico que aquece a cama gradualmente em vez de tocar uma sirene. Um estudo de 2024 reportou ganhos mensuráveis de eficiência do sono em usuários do Pod, ainda que resultados, como sempre, variem.

As ressalvas são conhecidas e legítimas: o hub é volumoso e visualmente fora de lugar em qualquer quarto pensado com algum cuidado; o Autopilot exige assinatura anual depois do primeiro ano; e o preço o coloca firmemente na categoria de luxo. Mas, para quem opera com fuso horário em deslocamento e considera o sono um insumo profissional, é talvez o investimento de bem-estar mais defensável do ano.

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A casa contemporânea não pede mais comandos. Ela observa, aprende e age — discretamente, em silêncio, quase sempre antes que se note.


IV

COMPANHIA SOBRE RODAS

Enabot EBO Max

Um FamilyBot do tamanho de uma bola de futebol, com olhos enormes e uma vocação levemente preocupada.

Enabot EBO Max FamilyBot
EBO MAX FAMILYBOT  /  ENABOT

Enquanto humanoides de duas pernas continuam tropeçando em demonstrações corporativas, é na categoria modesta dos robôs kawaii que algo realmente útil tem aparecido. A Enabot, fabricante de Shenzhen, opera nessa frente discreta há alguns anos e lançou em abril o EBO Max: uma esfera do tamanho de uma bola de futebol que circula pela casa em rodas, com câmera, dois alto-falantes e dois olhos animados grandes demais para serem casuais.

EBO Max — ângulo frontal
EBO Max e docking station

A função declarada é a de assistente móvel: lembra compromissos, anota recados em vídeo, monitora pets, faz patrulhamento noturno e, se cair a bateria, encontra sozinho a base de carregamento. A função menos óbvia, mas potencialmente mais relevante, é a de companhia atenta para pessoas que moram sozinhas. A detecção de queda dispara automaticamente uma chamada de vídeo bidirecional pelo próprio robô, transformando-o em um intermediário entre o morador e a rede de cuidados — uma aplicação de IA que combina visão computacional, processamento de voz e consciência ambiental sem nunca soar invasiva.

A limitação é arquitetônica: como todo aspirador robô, o EBO Max está condenado a um único pavimento. Escadas continuam sendo seu limite metafísico. Mas, dentro desse plano único, ele consegue algo raro entre os gadgets — uma presença afetiva que não pesa, não invade e não exige roteiros de uso. É, em essência, um Alexa que olha de volta.

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V

COZINHEIRO IMPLÍCITO

Anova Precision Oven 2.0

O forno de bancada que reconhece o que você colocou dentro dele — e decide o que fazer com aquilo.

A categoria dos fornos com câmera embarcada, durante muito tempo um clube reservado ao americano June, ganhou em 2025 sua principal rival sofisticada: o Anova Precision Oven 2.0. A Anova, conhecida no Brasil pelos circuladores de sous-vide, transferiu seu rigor termodinâmico para um forno compacto que combina convecção, injeção de vapor, sensor de bulbo úmido e uma câmera interna em alta resolução. Três sensores de temperatura e controle PID mantêm o interior dentro de 0,3°C do alvo — precisão de cozinha profissional num aparelho que cabe na bancada.

A camada de IA opera em duas frentes. A primeira é o reconhecimento visual: a câmera identifica o que foi colocado dentro do forno e sugere um modo de preparo. A segunda é mais interessante — o forno escaneia embalagens de congelados e receitas completas para extrair automaticamente parâmetros de cozimento, alerta o usuário sobre erros (alimento esquecido, temperatura inadequada) e mantém a umidade interna por injeção de vapor. Para quem cozinha sob pressão de agenda, a curva entre ingrediente bruto e prato finalizado se encurta significativamente.

É um produto deliberadamente sério, sem o entusiasmo demonstrativo de outros fornos conectados. A interface frontal é mínima, o gabinete em aço inox escovado se aproxima da estética laboratorial — algo entre o forno doméstico e a estação de sous-vide profissional. Para a cozinha de quem leva o ato de cozinhar a sério (e tem espaço de bancada para isso), o Anova 2.0 é o tipo de objeto que recompensa o investimento em forma de tempo recuperado.

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POSFÁCIO

A inteligência que se faz invisível

Há um padrão que une os cinco objetos desta seleção: nenhum deles se anuncia como “de inteligência artificial”. Em todos, a IA opera em segundo plano — peneirando, identificando, regulando temperatura, observando. É o oposto da estética de assistente conversacional que dominou a primeira década dos smart objects.

A inteligência embarcada em 2026 é a que se faz despercebida, e talvez seja essa a verdadeira métrica de maturidade da categoria: quando a tecnologia desaparece, sobra apenas o objeto — e a casa volta a ser casa, agora com um pouco menos de fricção.

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