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Maní: a cozinha brasileira mais premiada do mundo continua sendo a mais honesta

Com uma estrela Michelin, presença constante no Latin America’s 50 Best e quase duas décadas de história nos Jardins, o restaurante de Helena Rizzo segue sendo um dos endereços mais relevantes e emocionantes da gastronomia brasileira contemporânea.

GASTRONOMIA · SÃO PAULO

Com uma estrela Michelin, presença constante no Latin America’s 50 Best e quase duas décadas de história nos Jardins, o restaurante de Helena Rizzo segue sendo um dos endereços mais relevantes e emocionantes da gastronomia brasileira contemporânea.


Há endereços que existem e há endereços que persistem. O Maní, na Rua Joaquim Antunes, 210, no coração do Jardim Paulistano, pertence com folga à segunda categoria. Desde que abriu as portas em março de 2006, o restaurante de Helena Rizzo não apenas sobreviveu às modas e às crises: ele as ignorou com a elegância de quem sabe exatamente o que veio fazer ao mundo. Aqui, a proposta sempre foi uma só, revelar o Brasil através da comida. E essa proposta, dezoito anos depois, nunca soou tão contemporânea.

Entrar no Maní é uma experiência que começa antes do primeiro prato. A casa é uma pequena vila de salas interconectadas com a energia rara de lugares que amadureceram sem perder a graça. Em 2026, para celebrar duas décadas de existência, o restaurante passou por uma reforma cuidadosa que renovou o espaço sem apagar sua alma: os pergolados com galhos de jabuticabeira continuam lá, assim como as estruturas de madeira de demolição e as paredes de textura manual que evocam o imaginário rural brasileiro. O piso de rocha natural da Serra Gaúcha, marca registrada da estética do Maní, agora recobre também o último salão. Novos materiais chegaram, como a taquara no forro (típica da cultura caiçara paulista) e o bar reposicionado com seu grande balcão em pedra branca bruta, mas o resultado é de continuidade, não de ruptura. Uma conversa entre o que o Maní sempre foi e o que ele ainda quer ser.

A chef que trocou a arquitetura pelo fogo

Entender o Maní é, antes de tudo, entender Helena Rizzo. Nascida em Porto Alegre em 1978, filha de artista plástica e engenheiro, ela começou a vida adulta estudando arquitetura, um detalhe que, olhando para trás, parece menos desvio e mais destino disfarçado. Aos dezoito anos desembarcou em São Paulo em busca de independência. Trabalhou como garçonete, fez incursões na moda, testou caminhos. A virada veio quando percebeu que a cozinha era o único lugar onde sentia as duas coisas que mais valoriza: precisão técnica e liberdade criativa.

Com 21 anos, juntou as economias e partiu para a Europa. Na Itália, estagiou nos restaurantes Sadler e La Torre. Na Espanha, depois de muita insistência, conseguiu um lugar no El Celler de Can Roca, em Girona, então já considerado um dos melhores restaurantes do planeta. Foi ali que Helena aprimorou a técnica, a disciplina e a visão de cozinha como linguagem artística. E foi ali que conheceu o chef catalão Daniel Redondo, seu futuro sócio nos primeiros anos do Maní.

De volta ao Brasil em 2004, Helena encontrou a semente do que se tornaria o Maní numa proposta da amiga e apresentadora Fernanda Lima. Com o empresário Pedro Paulo Diniz, Fernanda vinha sonhando com um restaurante que celebrasse ingredientes orgânicos e a culinária brasileira de forma contemporânea. A química foi imediata. Em 3 de março de 2006, com Fernanda Lima, Pedro Paulo Diniz, Giovana Baggio e Rafael Lima como sócios, o Maní abria as portas com a missão de fazer o Brasil saber a si mesmo.

A proposta sempre foi uma só: revelar o Brasil através da comida. Dezoito anos depois, essa proposta nunca soou tão contemporânea.

Produto, memória, técnica, invenção

Se há uma frase que resume a filosofia do Maní, ela está impressa na própria identidade do restaurante: produto, memória, técnica, invenção. As quatro palavras funcionam como uma bússola e também como uma promessa ao comensal. Não se trata de cozinha de exibicionismo, de pratos que existem para ser fotografados. Trata-se de cozinha que existe para ser sentida.

O cardápio é uma declaração de amor ao Brasil biodiverso. Cerca de 90% dos ingredientes utilizados são orgânicos, provenientes de fornecedores cuidadosamente selecionados ao longo dos anos. Jabuticaba, amburana, cachaça, mandioca, caju, moqueca: ingredientes que carregam memória afetiva e identidade nacional são transformados por técnicas de vanguarda em experiências que surpreendem sem alienar. É a cozinha da emoção inteligente.

O menu degustação, disponível em versões de três ou dez tempos, é a forma mais completa de viver o Maní. Mas o à la carte tem seus próprios momentos de glória. O ceviche de caju reivindica para o Brasil um prato que o mundo associa ao Peru. O fideuá de lula, inspirado na massa espanhola porém absolutamente paulistano em espírito, é de uma riqueza serena que não precisa de explicação. O polvilho artesanal, enorme e aéreo, chega à mesa como uma lembrança de infância reescrita por mãos de mestre. E a sopa fria de jabuticaba com lagostins cozidos na cachaça, nozes de amburana e couve-flor em conserva é, simplesmente, um dos pratos mais bonitos que a gastronomia brasileira já produziu.

Prêmios, estrelas e a permanência do que é genuíno

Os prêmios vieram como consequência natural de uma cozinha que nunca os perseguiu. Em 2013, o Maní entrou pela primeira vez na lista do Latin America’s 50 Best Restaurants e não saiu mais. Em 2014, Helena Rizzo foi eleita a Melhor Chef Feminina do Mundo pela revista britânica Restaurant, a mesma publicação que mantém o 50 Best como o ranking mais influente da gastronomia global. No mesmo ano, o Maní apareceu como o 36.º melhor restaurante do mundo e segundo melhor da América do Sul, atrás apenas do lendário D.O.M. de Alex Atala.

Em 2015, veio a estrela Michelin. Desde então, o restaurante a mantém sem esforço aparente, o que, para quem conhece os bastidores de uma operação de alta gastronomia, é o maior sinal possível de solidez. Em 2019, a Food & Wine incluiu o Maní na lista dos 30 melhores restaurantes do mundo. Em 2024, o restaurante figurava na posição 35 do Latin America’s 50 Best. Os números contam uma história, mas a história verdadeira está nos pratos.

A parceria com Willem Vandeven e o Maní de hoje

Desde 2017, Helena divide o comando da cozinha com o chef belga Willem Vandeven, uma parceria que trouxe ao Maní novas camadas sem alterar sua essência. Vandeven tem passagem por restaurantes europeus estrelados, incluindo o Bras, na França, três estrelas Michelin do celebrado chef Michel Bras, em Laguiole. Sua sensibilidade técnica europeia dialoga com a brasilidade instintiva de Helena num equilíbrio que poucos restaurantes conseguem: dois universos distintos, uma única voz.

O resultado é um cardápio que evolui continuamente, fiel à filosofia de usar os ingredientes mais frescos disponíveis em cada estação. Não há um prato intocável, um clássico imune ao tempo. Há, sim, um espírito imune ao tempo: a convicção de que a cozinha brasileira tem muito a dizer ao mundo, e que o Maní é um de seus melhores intérpretes.

O nome e a lenda que o sustenta

Não é por acaso que o restaurante se chama Maní. A lenda Tupi conta a história de Maní, uma bebê de vida breve e existência prodigiosa. Em seu túmulo, brotou uma planta desconhecida, presente do deus Tupã. Chamou-se mandioca: do tupi-guarani, “casa de Maní”. A raiz que alimentou povos inteiros, que está na tapioca, no beiju, na farofa, no tucupi e no vinho de caju, celebrada em pratos e técnicas com uma reverência silenciosa ao que o Brasil é antes de qualquer influência externa.

Há algo de poético e de preciso nessa escolha. O restaurante carrega o nome de uma criança que morreu e deu origem a algo maior do que si mesma. Uma metáfora, talvez, para o que a cozinha do Maní tenta fazer toda noite: transformar ingredientes comuns em algo que transcende.

O ceviche de caju reivindica para o Brasil um prato que o mundo associa ao Peru. O fideuá de lula é de uma riqueza serena que não precisa de explicação.

O essencial: como viver o Maní

O Maní funciona de terça a domingo para almoço (a partir do meio-dia) e de terça a sábado para o jantar. Reservas são essenciais e podem ser feitas com antecedência pelo site oficial em manimanioca.com.br. O menu degustação completo parte de R$ 695 por pessoa. O à la carte permite uma experiência mais flexível, mas igualmente sofisticada.

O endereço é Rua Joaquim Antunes, 210, Jardim Paulistano, num bairro que por si só já é um programa: rodeado de galerias, cafeterias de design e boutiques que fazem do entorno um programa antes ou depois da refeição.

O grupo Maní conta ainda com o Manioca, versão mais casual da proposta, no Shopping Iguatemi, para quem quer uma dose da filosofia da casa em formato de almoço rápido. Mas o Maní de verdade, o original, o que tem estrela e história e alma, está nos Jardins. E está, felizmente, mais vivo do que nunca.


Maní
Rua Joaquim Antunes, 210 · Jardim Paulistano, São Paulo
Terça a domingo (almoço) · Terça a sábado (jantar)
manimanioca.com.br · @manimanioca
★ Guia Michelin 2025 · Latin America’s 50 Best 2024 · Food & Wine 30 Best Restaurants in the World

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