WAYFARER · FLY | Aviação executiva
Na aviação executiva, o maior desperdício raramente é o combustível. É o assento vazio.
Quem frequenta o FBO conhece a cena: o passageiro chega, encontra um conhecido na sala de embarque e descobre, tarde demais, que os dois seguem para o mesmo destino em aeronaves diferentes. Dois charters onde cabia um. É esse intervalo entre coordenação e oportunidade que a FlyWith se propõe a ocupar.
O aplicativo, de acesso restrito a convidados, chega ao mercado de jatos privados com uma proposta direta: permitir que membros compartilhem voos antes mesmo de embarcar. A plataforma cuida de pagamentos, seleção de aeronave e de toda a logística intermediária, e dilui o custo entre pessoas que, em muitos casos, já se conhecem.
“Chamamos isso de serendipidade: saber para onde seus amigos estão indo antes mesmo de eles irem”, diz Brian Corbett, CEO da FlyWith. “Com o aplicativo, você pode descobrir uma viagem que nem imaginava fazer.”

A ideia nasceu de Guy Oseary, cofundador da gestora de venture capital Sound Ventures, que convidou Corbett para dirigir o projeto. Antes da aviação, Corbett construiu repertório em hospitalidade de luxo, em marcas como Inspirato e Exclusive Resorts, e liderou a Ross Aviation, empresa de infraestrutura aeroportuária. Sua primeira reação ao conceito foi de descrença diante da obviedade da lacuna: “Tem certeza de que isso ainda não existe? Faz tanto sentido.” Não existia.
O componente social é o centro da proposta, seja entre amigos, seja como aproximação profissional a dez mil metros de altitude. Segundo dados da própria FlyWith, cerca de 40% dos passageiros frequentes de aviação executiva dizem ter interesse em dividir voos. O aplicativo organiza esse desejo em três modalidades:
- Host. Quem fretou a aeronave decide como compartilhá-la: abre o convite a amigos, a amigos de amigos ou a todos os membros, reserva um bloco de assentos para si ou oferece vagas individuais. O app calcula a divisão de custos, com ajuste manual possível.
- Join. Dá acesso à lista de voos já organizados por outros membros.
- Propose. Permite sondar o interesse coletivo antes de confirmar a reserva.
A frota vem de uma parceria com a Executive Jet Management, braço da NetJets: aeronaves super midsize e de cabine ampla, com capacidade típica entre oito e dez lugares. Corbett descreve o projeto como o preenchimento de um “espaço em branco” do setor e faz questão de dizer o que ele não é. “A FlyWith não substitui as formas como nossos membros já acessam a aviação privada. Se você tem aeronave própria, fração de jato, cartão de voo ou faz charter, nós complementamos esses modelos para os momentos em que compartilhar a experiência e o custo faz mais sentido.”

Há, claro, a questão de dividir a cabine com quem não se conhece. A resposta da FlyWith é a curadoria. A base de membros é formada em parceria com clubes privados e marcas como Discovery Land Company, Zero Bond e Crane Club, que fazem a primeira seleção, e diretrizes rígidas de conduta valem antes, durante e depois do voo. Corbett não espera conflitos, embora a empresa esteja preparada para medi-los caso surjam.
Na interface, o app lembra o Airbnb pela simplicidade: os voos disponíveis aparecem direto na tela inicial, prontos para adesão. Os perfis têm níveis de privacidade, visíveis a todos os membros ou restritos a contatos adicionados manualmente. Para montar um voo próprio, basta abrir a aba “Book”, escolher data, aeroportos e horário de decolagem; a cotação e a confirmação de disponibilidade vêm em poucos toques.
A FlyWith testa o modelo com membros desde agosto e já concluiu os primeiros voos-piloto. “Nossas integrações com os parceiros foram perfeitas, até em pedidos específicos, como garrafas de vidro e nenhum plástico a bordo”, relata Corbett. O lançamento oficial está previsto para outubro, com preços e detalhes revelados apenas aos convidados. Por ora a operação se concentra na América do Norte; a expansão internacional entra no plano assim que o mercado doméstico estiver consolidado.
O luxo da aviação privada sempre foi o de não depender de ninguém. Talvez o próximo seja o de escolher, com precisão, ao lado de quem se voa, e descobrir que o assento que sobrava era, o tempo todo, o convite.


