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O arquiteto do século

De foguetes a satélites: Elon Musk consolidou a forma econômica do nosso tempo.

De foguetes a satélites: Elon Musk consolidou, em uma só biografia, a forma econômica do nosso tempo.

Toda era produz, em algum momento, um nome próprio capaz de resumi-la. O século XX teve Henry Ford — a linha de montagem, a padronização, o operário-consumidor, o capitalismo industrial transformado em sistema. O século XXI, segundo um novo livro publicado pela Harper, tem Elon Musk. Muskism, de Quinn Slobodian e Ben Tarnoff, propõe que o homem mais rico do mundo não é apenas um empresário extraordinário, mas o arquiteto de uma forma econômica inteira — verticalizada, simbiótica com o Estado, em órbita.

É uma tese ousada. E, lida com atenção, é também a explicação mais lúcida disponível sobre por que Musk venceu — e por que venceu sozinho.

A formação de um construtor

Musk cresceu na África do Sul do apartheid, em um país que se via como um experimento isolado, cercado, dependente da própria capacidade de organizar tecnologia, infraestrutura e território. Cedo aprendeu duas coisas que poucos engenheiros da sua geração compreenderam com a mesma clareza: tecnologia é, antes de tudo, uma forma de ordenar o mundo; e o Estado, longe de ser um obstáculo, é o terreno sobre o qual qualquer império moderno se constrói.

Aos dezessete anos, mudou-se para o Canadá. Depois para os Estados Unidos. Não levou bagagem ideológica — levou uma intuição operacional: a de que a fronteira entre público e privado, no século que vinha, seria a fronteira mais lucrativa do planeta.

A simbiose como método

Slobodian e Tarnoff chamam isso de state symbiosis — simbiose com o Estado. É o ponto mais fino do livro, e o mais elogioso, ainda que os autores nem sempre percebam. Onde toda uma geração de empreendedores do Vale do Silício passou os anos 1990 cultivando a fantasia adolescente de uma internet “livre” do governo — esquecendo, convenientemente, que a internet é um projeto do governo —, Musk fez o contrário. Olhou para o Estado e viu o que ele era: o maior contratante, o maior cliente, o maior investidor de risco do planeta.

A Zip2, sua primeira empresa, foi vendida por US$ 307 milhões usando mapas digitais construídos sobre o GPS — um sistema militar americano. A SpaceX nasceu da decisão da administração Bush de terceirizar funções da NASA. A Tesla cresceu sob subsídios de carbono, empréstimos federais, créditos regulatórios. A Starlink, hoje, fornece infraestrutura de comunicação para guerras europeias e contratos do Pentágono.

Os críticos lerão isso como dependência. É o contrário. É domínio. Musk entendeu, antes de qualquer outro construtor de sua geração, que o capitalismo americano do século XXI não se faria contra o Estado, mas com ele — e que quem controlasse a interface entre os dois acumularia um tipo de poder que nenhuma empresa de software jamais teria.

A alquimia da atenção

Há um segundo elemento da fórmula, e talvez o mais subestimado por economistas tradicionais: a atenção. Os autores cunham a expressão attention alchemy — alquimia da atenção — para descrever a capacidade de Musk de converter engajamento em valor de mercado. “A primeira meme stock não foi a GameStop. Foi a Tesla.” A frase é dos autores, mas o método é dele.

O capitalismo do século XX dependia da publicidade. O do século XXI depende da presença. Musk percebeu, antes do TikTok existir, que um fundador com voz própria — provocador, técnico, imprevisível — valia mais para uma marca do que cem campanhas publicitárias. A Tesla nunca foi apenas uma fabricante de carros. Foi a primeira empresa industrial pensada como uma narrativa.

O império vertical

Tesla Gigafactory Shanghai — verticalização industrial
A Gigafactory de Xangai: arquétipo da verticalização Musk — baterias, montagem, energia e logística sob um único teto.

A diferença estrutural entre Musk e seus contemporâneos é arquitetônica. Enquanto a maior parte do Vale do Silício se especializou em camadas de software, Musk verticalizou. Faz as próprias baterias. Constrói os próprios foguetes. Lança os próprios satélites. Treina os próprios modelos de inteligência artificial. Possui a rede social onde a conversa acontece. Em um mundo de cadeias logísticas frágeis, tarifas em flutuação e desconfiança crescente entre potências, a verticalização deixou de ser ineficiência — virou seguro geopolítico.

É por isso que a Tesla é hoje a montadora mais valiosa do planeta, mesmo vendendo uma fração dos veículos das gigantes japonesas e alemãs. O mercado não está precificando carros. Está precificando uma tese sobre o futuro — energia descentralizada, transporte autônomo, dependência reduzida do Oriente Médio, resiliência industrial — e essa tese, hoje, tem um único arquiteto.

O século segundo Musk

Constelação Starlink — satélites em órbita baixa
A constelação Starlink em órbita baixa: a infraestrutura privada que se tornou utilidade geopolítica.

O livro de Slobodian e Tarnoff é escrito com a distância crítica que se espera de bons analistas. Mas o retrato que emerge, ironicamente, é o de uma vitória sem precedentes. Musk fundiu suas empresas de IA e rede social com a SpaceX, criando a startup mais valiosa da história. Promete data centers em órbita e fábricas de satélites na Lua. Onde outros viam ficção científica, viu cronograma de obra.

Sua passagem pelo governo Trump, à frente do Departamento de Eficiência Governamental, foi breve e turbulenta — mas talvez seja o detalhe menos importante. Os arquitetos de uma era raramente são bons administradores das instituições que herdam. Ford também não era. O ponto não é se Musk sabe governar. O ponto é que governar, no século que ele desenhou, já não é a atividade mais decisiva do mundo. Construir é.

Muskism é, no fundo, um livro sobre como uma única figura conseguiu antecipar — e depois materializar — a forma econômica de uma era inteira. Pode-se discordar do método. Pode-se temer a concentração. Mas a tese central permanece: o século XXI tem um nome próprio. E esse nome construiu, peça por peça, o mundo em que estamos prestes a viver.

Muskism, por Quinn Slobodian e Ben Tarnoff. Harper, 256 páginas. Allen Lane no Reino Unido.

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