RELÓGIOS · Alta relojoaria | Hermès H08
Quase meio século depois do primeiro relógio, a Hermès ainda trata a legitimidade relojoeira como obra em andamento. E parece não ter pressa.
Há marcas que entram na relojoaria pedindo licença e outras que chegam decididas a reescrever o vocabulário. A Hermès optou por um caminho mais raro: o da paciência deliberada. Em um jantar recente no terraço da boutique da maison no Miami Design District, um convidado observava a imagem do novo H08 Skeleton, em pulseira de borracha verde, e fez a pergunta que ronda qualquer relógio de casa de moda que se aventura no segmento técnico: há interesse real por Hermès entre colecionadores?
A dúvida carrega um subtexto financeiro, mas também identitário. Comprar um relógio Hermès por 21.600 dólares implica confiança em uma trajetória ainda em construção aos olhos do mercado, mesmo que a casa já tenha quase meio século de presença no setor.
Legitimidade leva tempo
Horas antes, em evento no Rubell Museum, dedicado à arte contemporânea, Laurent Dordet, CEO da Hermès Horloger, havia enfrentado essa mesma tensão com calma quase filosófica. “Legitimidade leva tempo”, afirmou, durante conversa mediada por Geoff Hess, chefe global de relógios e vice-presidente sênior da Sotheby’s em Nova York. “Quando a Hermès começou com a seda, nos anos 1940, levou tempo. O mesmo aconteceu com os relógios. Desde 1978, a ambição era clara: ser tão competente quanto os concorrentes em técnica, mas diferente em criatividade, materiais e leveza.”

Da Vaucher ao H08
A virada técnica da marca aconteceu em 2006, com a aquisição de participação na manufatura suíça de movimentos Vaucher, seguida pela compra de fornecedores de mostradores e caixas. “Por muitos anos, a diferença se expressava principalmente em estilo: formas, cores, materiais”, lembrou Dordet. “Depois começamos a parte técnica da nossa história, há vinte anos. Da aquisição da Vaucher até o primeiro movimento próprio, levamos seis anos. A verticalização nos permite hoje criar recursos que antes eram impossíveis.”
É nesse terreno que o H08 se posiciona como experimento contínuo. As novas versões mantêm a caixa almofadada característica, em fibra de vidro com superfície marmorizada e revestimento de alumínio, agora com bezéis em cerâmica acetinada nas cores branco ou azul de Malta, chanfros polidos em espelho e mostrador lacado branco com algarismos arábicos tratados em ródio. No interior, bate o calibre automático H1837, desenvolvido inteiramente pela manufatura.
Lançado em 2021, o H08 funciona como pilar da linha masculina da casa e, segundo Dordet, como plataforma viva para experimentações futuras. “A pergunta é: como fazer o modelo evoluir sem trair sua essência? Os valores são leveza e robustez. Por isso o esqueleto é aberto sem ser excessivo. Precisa ser robusto para ser esportivo, mas também precisa ter desenho.”
Philippe Delhotal, diretor criativo da Hermès Horloger, detalhou o briefing original do modelo. “Queríamos uma forma dentro do vocabulário da Hermès. E ela surgiu naturalmente: um formato redondo dentro de um quadrado. Para um relógio assim, era preciso leveza, materiais diferentes, titânio, carbono. A identidade é urbana, muito específica, distante do relógio tradicional.”

O tempo como aliado
A mesma lógica atravessa todo o repertório relojoeiro da maison, construído deliberadamente fora dos padrões convencionais do setor. Hess, que usava no pulso uma peça esmaltada representando um pássaro fantástico erguido por balões, destacou o traço que distingue a produção da casa: o compromisso com o lúdico sem abrir mão da seriedade técnica. “Falamos tanto de relógios como objetos importantes ou magníficos que esquecemos: relógios também devem gerar alegria. A Hermès não esqueceu disso. Por isso tantas peças combinam complicações sérias com um espírito de brincadeira. Há uma orquestra no meu pulso: madrepérola esculpida à mão, animação, balões girando. Vocês são uma das poucas marcas capazes de equilibrar leveza e seriedade relojoeira.”
Esse equilíbrio foi reconhecido em 2011, quando o júri do Grand Prix d’Horlogerie de Genève, prêmio frequentemente comparado ao Oscar da relojoaria, elegeu o Arceau Le Temps Suspendu como melhor relógio masculino do ano. Delhotal descreve a conquista como ponto de virada: o momento em que a Hermès assumiu de vez seu interesse por complicações não convencionais. “Com o Le Temps Suspendu, queríamos brincar com o tempo, mas de um jeito diferente. O tempo é tratado como um aliado, elástico, nem sempre preciso. A proposta era suspendê-lo. Para um relojoeiro, essa não é uma aposta comum. O exterior tem simplicidade e singularidade; por dentro, conseguimos expressar essa possibilidade de interromper o tempo.”
Uma marca jovem de quase 50 anos
Hoje, Dordet, Delhotal e as 600 pessoas que trabalham nas três unidades suíças da marca (a Vaucher, dedicada aos movimentos; uma segunda fábrica responsável por caixas e mostradores; e uma terceira, onde ocorrem montagem, desenvolvimento e produção) seguem concentrados em transformar a curiosidade de clientes como o comprador de Miami em convicção. “Muita gente ainda não sabe o que fazemos, mas, quando temos tempo de explicar, as pessoas mudam de percepção e passam a nos considerar”, disse Dordet. “Somos uma marca jovem. Nosso primeiro movimento próprio é de 2012. Ainda estamos no caminho. E a ambição é que, a cada ano, tenhamos algo novo para somar à nossa reputação.”
De volta ao terraço de Miami, a pergunta do convidado segue sem resposta definitiva, e talvez seja essa a resposta. A Hermès não pede pressa a quem compra um H08. Pede o mesmo que pediu, décadas atrás, a quem comprou seus primeiros lenços de seda: tempo para que o objeto prove, ano após ano, aquilo que a casa já sabe sobre ele.
Ficha técnica · Hermès H08
- Lançamento do modelo: 2021
- Caixa: almofadada, em fibra de vidro com superfície marmorizada e revestimento de alumínio
- Bezel: cerâmica acetinada, branco ou azul de Malta
- Movimento: calibre automático H1837, de manufatura própria
- Versão em destaque: H08 Skeleton, com pulseira de borracha verde
Da redação da WAYFARER.


