Nota editorial: publicada originalmente em 2020 e atualizada em setembro de 2026.
Algumas fortunas nascem de uma ideia. A de Eric Yuan nasceu de uma recusa.
Em 2020, quando reuniões, aulas, aniversários e happy hours migraram de uma hora para outra para a tela, o Zoom deixou de ser ferramenta de escritório para virar verbo. O nome do fundador, até então conhecido sobretudo em círculos de tecnologia, entrou nas listas de bilionários mais comentadas do planeta. Seis anos depois, com o mundo de volta aos escritórios em alguma medida, a pergunta que interessa é outra: quem é o homem que construiu a sala de reuniões da pandemia, e o que restou dela.

Shandong a San Jose: a persistência como método
Yuan nasceu em 1970 em Tai’an, na província de Shandong, filho de engenheiros geólogos. Formou-se em engenharia na China e, nos anos 1990, decidiu que seu futuro estava no Vale do Silício. Os Estados Unidos discordaram: o visto foi negado repetidas vezes, oito segundo a Forbes, antes de finalmente sair. Em 1997, aos 27 anos, ele se instalou na Califórnia para trabalhar como engenheiro na WebEx, uma das pioneiras em videoconferência, entre os primeiros funcionários da empresa.
Ficou 14 anos. Quando a Cisco comprou a WebEx, em 2007, Yuan chegou a vice-presidente de engenharia. Em 2011, propôs reconstruir o produto do zero, pensado para o celular e para a simplicidade. A ideia foi recusada. Ele saiu e fundou a própria empresa, que por um breve período se chamou Saasbee antes de adotar o nome que o mundo aprenderia a pronunciar.

Do IPO ao pico: a fortuna que a quarentena multiplicou
O Zoom abriu capital em abril de 2019, com Yuan dono de cerca de 22% da empresa, o suficiente para torná-lo bilionário antes que a maior parte do público soubesse seu nome. Um ano depois, a pandemia fez o resto. A plataforma saltou de algo em torno de 10 milhões de participantes diários em reuniões para mais de 200 milhões em poucos meses, e o patrimônio do fundador acompanhou a curva: em setembro de 2020, chegou a cerca de US$ 16 bilhões. No fim daquele ano, a revista Time o escolheu como Empresário do Ano.
A maré baixou na mesma velocidade. Com a reabertura, as ações recuaram de forma expressiva, e a fortuna de Yuan voltou a um patamar mais sóbrio. Em setembro de 2026, a Forbes a estima em US$ 5,4 bilhões, o que ainda o mantém entre os bilionários do mundo, mas longe do pico de 2020.
Depois do vídeo: a aposta na inteligência artificial
A empresa entendeu que não poderia viver de uma única circunstância. Em 2024, tirou a palavra “Video” do nome e passou a se chamar Zoom Communications, apresentando-se como plataforma de trabalho com inteligência artificial no centro, com assistente próprio incluído nas contas pagas. Yuan, ainda fundador e CEO, chegou a descrever publicamente um futuro em que clones digitais poderiam comparecer às reuniões no lugar das pessoas. Em 2025, foi eleito para a National Academy of Engineering dos Estados Unidos.
Perfil: discrição como estilo
Mesmo no auge, Yuan cultivou uma imagem distante da mitologia do fundador excêntrico. Em entrevistas daquele período, disse não se sentir um magnata e resumiu sua filosofia de negócios numa frase curta: clientes felizes, empresa feliz. Mora em Santa Clara, na Califórnia, tem três filhos e é conhecido pelo gosto pelo basquete, a ponto de contar com Andre Iguodala, então jogador do Golden State Warriors, entre os primeiros investidores do Zoom.
Há ainda a história de infância que ele próprio contou à Forbes, sobre os pedaços de cobre que recolhia para vender quando menino e uma disputa com um vizinho que terminou mal e deixou os pais furiosos. É o tipo de anedota que diz menos sobre dinheiro e mais sobre obstinação.
Algumas fortunas nascem de uma ideia. A de Eric Yuan nasceu de um visto negado oito vezes e de um projeto que a empresa onde trabalhava não quis. O resto, a tela confirmou.
Redação WAYFARER


