Estilo · Design
A primeira edição brasileira da Real Leather. Stay Different., competição internacional para estudantes de moda e design, premiou projetos que passam pelo sertão, pelo ateliê de família e pela roda de dança. O couro, nas mãos delas, virou memória.
O couro é um dos materiais mais antigos que a moda conhece, e talvez por isso seja tão fácil olhá-lo sem enxergar. A primeira edição brasileira da Real Leather. Stay Different. pediu a estudantes de moda e design que fizessem o contrário: que tratassem o material como linguagem.
A competição internacional, criada pelo Leather and Hide Council of America, entidade que representa a indústria de couros dos Estados Unidos, chegou ao Brasil com apoio do CICB, o Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil. Quatro projetos saíram vencedores, e nenhum deles fala só de roupa.
Vencedora geral e VestuárioFlamboyant, de Daniela de Abreu
A grande vencedora da edição é Daniela de Abreu, que levou também o primeiro lugar em Vestuário. Flamboyant é uma mini coleção de moda performática, pensada para o palco, que parte de uma canção: “Flor de Flamboyant”, do álbum Dominguinho, de João Gomes, Mestrinho e Jota.pê. A música funciona como símbolo de intensidade, beleza e emoção, e o sertão nordestino entra como paisagem e identidade.
O couro aparece em vermelho escarlate, branco e laranja, trabalhado com corte a laser e bordado. E há uma decisão que diz muito sobre a geração que está chegando: as sobras de couro da produção foram reaproveitadas como apliques florais. O resíduo vira ornamento.
AcessóriosReflection, de Julia Moraes do Nascimento
Na categoria Acessórios, Julia Moraes do Nascimento venceu com Reflection, um chapéu de duas faces. A mesma peça pode ser usada de maneiras diferentes, e cada forma de vestir muda a leitura do acessório. É um exercício de versatilidade que conversa com uma ideia cada vez mais presente no design: comprar menos e usar de mais jeitos.
CalçadosAlma, de Ana Nascimento
Ana Nascimento é estudante do primeiro ano de Design de Produto da Fatec Victor Civita e segunda geração de uma família de artesãos de São Paulo. Cresceu num ateliê de sapataria, aberto em 2013, onde o cheiro do couro e o som das ferramentas eram parte da rotina da casa.
Alma, o projeto vencedor em Calçados, é um sapato Oxford construído à mão, com técnicas tradicionais de sapataria. A proposta é preservar o que passou dos pais para a filha e aproximar esse saber do design contemporâneo, com materiais pensados para durar. O resultado é um sapato que junta duas gerações de artesãos numa só peça.
Voto popularNa Ginga da Roda, de Andeli Alves
O público escolheu Andeli Alves, com Na Ginga da Roda. O vestido parte das danças circulares que aparecem em culturas indígenas, africanas e europeias, as mesmas que ajudaram a formar a cultura brasileira, e recupera memórias de infância e de festas populares: a quadrilha, a ciranda, o samba de roda.
Aqui o couro é material vivo, explorado pela estrutura e pela maleabilidade para criar volumes que acompanham o movimento do corpo. O entrelaçamento representa unidade e história; a durabilidade do material sugere ciclo e permanência. A roupa vira memória que se veste.
O júriQuem escolheu
Entre os jurados da edição brasileira estiveram Patrícia Carta, diretora da Harper’s Bazaar Brasil, Renatta Gomes, Marnei Carminatti e os irmãos Caio e Victoria Nakane da Viga.
Nenhum dos quatro projetos trata o couro como acabamento. Todos tratam o couro como assunto.A leitura da WAYFARER
O que ficaUm material que atravessa gerações
Com linguagens muito diferentes, os vencedores chegam a um ponto em comum: o couro pode ser mais do que função. Pode carregar uma canção do sertão, a herança de um ateliê de família ou a lembrança de uma roda de ciranda. Ao aproximar estudantes, design e indústria, a primeira edição brasileira da competição mostrou que o material mais antigo da moda ainda tem muito a dizer, desde que alguém se proponha a ouvir.
O couro é fácil de não enxergar. Está em sapatos, bolsas e jaquetas há tanto tempo que virou paisagem. Quatro estudantes brasileiras resolveram olhar de novo, e o que encontraram foi música, família e dança. O material é antigo. O olhar, não.
Real Leather. Stay Different. International Student Design Competition. Competição internacional para estudantes de moda e design, iniciativa do Leather and Hide Council of America (LHCA), com apoio institucional do CICB (Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil). Primeira edição brasileira em 2026.
Vencedoras: Daniela de Abreu (geral e Vestuário, Flamboyant), Julia Moraes do Nascimento (Acessórios, Reflection), Ana Nascimento (Calçados, Alma) e Andeli Alves (People’s Choice, Na Ginga da Roda).
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Redação WAYFARER
