WAYFARER · Estilo | Paris Fashion Week · Verão 2027
A temporada em que os novos deixaram de ser novos, e Paris começou a separar quem chegou de quem vai ficar.
Paris não abre a temporada. Paris a encerra. E é no encerramento que se descobre quem tinha, de fato, algo a dizer.
De 28 de setembro a 6 de outubro, a Fédération de la Haute Couture et de la Mode reúne 68 desfiles e 33 apresentações no calendário oficial. Os números impressionam menos do que a pergunta que atravessa os salões. Jonathan Anderson na Dior, Matthieu Blazy na Chanel, Pierpaolo Piccioli na Balenciaga, Jack McCollough e Lazaro Hernandez na Loewe, Michael Rider na Celine, Sarah Burton na Givenchy. Nenhum deles é mais estreante. Se a última temporada foi o segundo ato, esta é o terceiro, aquele em que o público deixa de perdoar e começa a julgar.
As estreias de verdade foram duas: Drew Henry, que passou por Phoebe Philo e Burberry, na Courrèges; e Kai Nesselrath, depois de quase uma década na Saint Laurent, na Carven. Há também uma cadeira vazia. A Alaïa apresentou uma coleção assinada pelo estúdio, à espera de um sucessor para Pieter Mulier, agora na Versace.
Nove dias depois, com a semana encerrada pela Louis Vuitton no Louvre, o desenho é nítido. Três caminhos disputam a atenção de um mercado que voltou a perguntar quanto vale uma roupa. O espetáculo. O corpo exposto. E a costura que se deixa ver, ponto a ponto, como argumento.
O que fica da semana
O ouro. Saint Laurent fez dele uma tese; o metal reapareceu em bordados, sandálias e joias por toda a semana.
A leveza como luxo de construção. Organza na Dior, malha vazada na Hermès, vinil translúcido na Chloé, flores infladas na Balenciaga.
A costura à mostra. Pespontos, forros e estruturas internas viraram assunto, da Balenciaga à Margiela.
A pele. Tom Ford, Balmain e Hermès trouxeram o corpo de volta ao centro, com tops faixa, fendas e transparências.
Os pés. Rasteiras de dedo na Hermès, sandálias com berloques na Loewe, chapéus e sapatos de arquivo na Courrèges. O verão 2027 começa pelo chão.
IAs grandes maisons
Saint Laurent: o ouro como despedida



O ouro que envolve tudo o que toca · Saint Laurent · Foto: Divulgação






Anthony Vaccarello completou dez anos na casa com o desfile mais obstinado de sua carreira. No Trocadéro, na noite de 29 de setembro, lustres dourados monumentais pairavam sobre uma passarela negra e espelhada, a Torre Eiffel acesa ao fundo. Uma única cor sustentou a coleção inteira. Ouro pálido, ouro queimado, ouro bizantino, renascentista, art déco, quase brutalista.
Os arquétipos da casa desfilaram dourados um a um. As sahariennes e os trench coats do tempo de Monsieur Saint Laurent, as blusas e saias envelope, e depois os clássicos que o próprio Vaccarello inventou: casacos de ombros firmes, blusões volumosos, tailleurs curtos debruados de pele. Lamê, brocado, renda guipure, jacquard e até látex coberto de folha de ouro. Nos pés, correntes douradas e saltos em forma de serpente, um pequeno arrepio de perigo muito Saint Laurent.
No fim, o ouro cedeu ao preto. Um tailleur de veludo com botões joia, três vestidos de noite como nuvens escuras, e Anja Rubik conduzindo o encerramento, numa inversão deliberada do final todo dourado com que Yves Saint Laurent fechou seu desfile de 1991. Charlotte Gainsbourg cantou para uma plateia com Catherine Deneuve e Kate Moss. A saída de Vaccarello não foi confirmada. Mas poucas vezes uma coleção soou tanto como um adeus.
O que passa às vezes deixa mais luz do que aquilo que fica.
Anthony Vaccarello, nas notas do desfile
Dior: a paciência de uma noz



A alfaiataria que aprendeu a flutuar · Dior · Foto: Divulgação
Se Saint Laurent falou alto, Jonathan Anderson escolheu sussurrar. No mesmo 29 de setembro, no Bassin Octogonal do Jardin des Tuileries, 65 looks atravessaram uma passarela branca estendida sobre o espelho d’água, num cenário do Bureau Betak. O ponto de partida foi um objeto mínimo: a noz wénwán, que na tradição chinesa é girada entre as mãos durante anos até revelar sua pátina. Os convites chegaram com um par delas. As notas do desfile vieram impressas em forma de noz.
A coleção fez perguntas em vez de afirmações. E se o tailleur fosse pensado como flou? Até onde uma roupa pode ser leve? A renda consegue segurar o ar? A resposta veio em renda Chantilly incrustada, cetim duchesse, musseline, organza, jacquard plissado. Jaquetas afiadas, abertas sobre saias que parecem flutuar. Barras irregulares, brincos desencontrados, uma simetria que, como disse Anderson, na natureza quase nunca é exata.
O detalhe mais bonito ficou fora da passarela. As árvores do cenário serão replantadas nas Tulherias, onde continuarão crescendo. Para uma coleção sobre sementes e tempo, nenhum final poderia ser mais coerente.
Balenciaga: a camisa branca como alta-costura



O ateliê levado para dentro de uma camiseta · Balenciaga · Foto: Divulgação

Pierpaolo Piccioli apresentou sua terceira coleção de prêt-à-porter para a casa em 1º de outubro, à luz do dia, no Tennis Club de Paris. Chamou-a de “Les Coraux de la Liberté”, o mesmo nome da escultura em linho enrolado da artista Aude Franjou que ocupava o centro do salão. E escolheu o argumento mais sóbrio da semana.
Técnicas da 55ª coleção de alta-costura da Balenciaga foram aplicadas ao guarda-roupa mais comum que existe. Um pesponto emprestado das estruturas internas da alfaiataria moldou camisas brancas, camisetas e jaquetas de couro até ganharem cintura e peplum, ecos das silhuetas de arquivo. O corte enviesado, normalmente reservado a vestidos de noite, foi usado no jeans. Flores imaginárias em organza, infladas com ar comprimido, e inserções de renda de Calais abriram janelas sobre o corpo.
Num momento em que o mercado questiona preços, Piccioli ofereceu a resposta mais elegante possível: a diferença precisa estar visível na construção, não na etiqueta. É alta-costura que se veste numa terça-feira.
Celine: roupa de verdade, usada sem cerimônia
No sábado, 3 de outubro, Michael Rider fez o desfile mais comentado do dia. A trilha abriu com a voz de Dorian Corey, a lendária figura do documentário “Paris Is Burning”, e a referência não foi decorativa. Na cultura dos bailes de Nova York, identidade é construção e roupa é personagem. Rider levou essa ideia para a Celine: não uma mulher única, mas um elenco inteiro.
Quase dois anos depois de chegar, ele já conseguiu fundir fontes que pareciam incompatíveis: a elegância parisiense da casa, as eras de Phoebe Philo e Hedi Slimane, e o sportswear americano que trouxe da Polo Ralph Lauren. Os looks parecem montados ao acaso, um vestido bordado de gola alta aqui, camisas de cetim nos homens ali, chapéus curiosos por toda parte. Nos bastidores, Rider explicou que adora o rigor da casa justamente quando ele é desarrumado por roupas reais, vestidas com espontaneidade.
Loewe: o velho mundo encontra o novo




Nova Inglaterra e Andaluzia no mesmo guarda-roupa · Loewe · Foto: Divulgação
A Loewe completa 180 anos, e McCollough e Hernandez ainda estão aprendendo a carregar essa história. No pátio do Château de Vincennes, dentro da caixa branca que se ergue ali a cada temporada, os arquitetos Casper Mueller Kneer construíram um teatro em arena quase fantasmagórico. O que desfilou foi um encontro de autobiografias: a Espanha barroca da casa e a juventude dos dois estilistas na Nova Inglaterra, com seus colégios internos e seu espírito dos anos 1990.
O resultado foi o preppy americano virado do avesso. Azul-claro, amarelo-limão e verde-menta contra jaquetas de couro preto e marrom. A dupla lembrou que a Loewe, nascida como ateliê de couro, só fez sua primeira roupa em 1960, um blazer de camurça, e o reeditou na passarela. Vestidos trapézio em napa moldada, camisas de miçangas de vidro com aspecto de toalha molhada de praia e a primeira versão deles para a bolsa Puzzle, a leve Puzzle Charm. Nos pés, sandálias com berloques como pulseiras. E detalhes que pedem segunda olhada: polos vestidas de trás para frente, como quem tira e recoloca a camisa no calor, golas de tricô e trench coats feitas de resina de óculos de sol, vestidos de chiffon com o recorte de uma regata de basquete.
Givenchy: a caixa de ferramentas de Sarah Burton
Enquanto parte de Paris deixava o tecido escorrer e se acumular pelo corpo, Sarah Burton respondeu com corte preciso e proporções enxutas. Ela foi buscar as primeiras coleções de Hubert de Givenchy, com sua alfaiataria preta afiada e suas estampas de bicho, e as modelos de rosto marcante daquela época, que ela descreveu como personagens de Hitchcock. Casacos oversized, vestidos esculturais e acessórios que às vezes se fundiam às roupas. Na alfaiataria, foi o trabalho mais experimental dela na casa até agora.
Hermès: o peso do couro entregue ao ar



A leveza como engenharia · Hermès · Foto: Zoé Joubert, divulgação
Nadège Vanhée, há mais de uma década à frente do feminino da Hermès, abriu o sábado com uma coleção que tira o peso da casa sem tirar a autoridade. Começou em brancos cremosos e azuis quase gelo, passou ao camelo e ao preto e terminou em terracota, chocolate e areia. Tricôs vazados deixavam ver tops faixa por baixo, vestidos de malha vinham bordados com tiras finas de couro, cintos de couro marcavam vestidos de seda transparente. Rasteiras de dedo em couro preto, marrom e nude completavam a ideia. A sensualidade, na Hermès, é sempre uma questão de material.
Maison Margiela: o que restou das flores de Raf

Flores que o tempo alcançou · Maison Margiela · Foto: Divulgação
Uma semana depois de se despedir da Diesel em Milão, agora dedicado apenas à Margiela, Glenn Martens apresentou uma coleção mista com “Violet”, do Hole, ecoando pelo espaço. Os modelos passavam diante de paredes inteiras de flores secas, ou morrendo, numa instalação de Mark Colle. A referência era precisa: a estreia de Raf Simons na alta-costura da Dior, em 2012, quando os salões foram forrados de flores frescas. Martens imaginou o que teria acontecido com aquelas flores desde então.
A coleção se chamou “HARD and SOFT” e partiu da divisão clássica dos ateliês parisienses, em que o tailleur cuida da estrutura e o flou, do drapeado. Martens embaralhou as duas coisas. Trench coats ganharam painéis rígidos, jaquetas viraram do avesso escondendo os fechos, vestidos fluidos passaram a se sustentar sobre estruturas endurecidas no peito. Florais e poás deram à casa um vocabulário mais decorativo do que o habitual. Nas bolsas, a ideia ficou cristalina: valises, maletas e necessaires perderam a estrutura interna e mantiveram só as ferragens. O rígido, de repente, cedia nas mãos.

Chloé: a obsessão como método



Broderie anglaise, renda e um temporal passageiro · Chloé · Foto: Divulgação




Em meio a rumores sobre sua saída, Chemena Kamali fez talvez o desfile mais pessoal da semana. Batizou-o de “Obsession” e deixou que suas fixações pela casa conduzissem tudo. A broderie anglaise veio dos antigos “robes de jeunes filles” da Chloé e de bordados de arquivo do século XIX. Flores tridimensionais, dos anos 1960, brotavam das superfícies. A alfaiataria partiu do tailleur “Noel”, de 1972, com seu smoking de bordas recortadas.
No meio do desfile, uma tempestade. Capas de pescador dos anos 1970, chapéus de marinheiro caídos sobre o rosto, vinil transparente em tons fumê inspirado nas capas de chuva dos anos 1950. Depois o tempo abriu, e voltou o verão: conjuntos de broderie anglaise, macacões de tricô canelado cor de citrino, uma Paddington em rattan. Da lingerie, Kamali recortou a renda e deixou só a estrutura, transformada em arreios românticos. Nas notas, uma despedida possível: que o amor derramado na coleção dure para sempre.
Schiaparelli: indo ao essencial



A alta-costura desmontada em peças · Schiaparelli · Foto: Divulgação




Daniel Roseberry recebeu os convidados num salão de lustres e mesinhas de cabaré, com abajures e taças de champanhe, e chamou a coleção de “Going Clear”. A proposta foi desmontar vestidos e decotes da casa em partes de cima e de baixo, um guarda-roupa modular informado pelo sportswear americano e pelas raízes texanas do estilista. A paleta se reduziu a preto, osso e manteiga, com acentos tirados do arquivo: azul martim-pescador, verde musgo, rosa salmão, nas oito versões do clássico casaco Schiap.
Os babados em couro e linho vieram das cortinas que cobriam as janelas do ateliê de Elsa Schiaparelli na Place Vendôme. Um tricô de viscose com textura de casca de árvore resgatou um tecido criado pela própria Elsa. Roseberry ainda propôs o que chamou de “revenge dressing”, variações do pretinho básico, e uma joalheria de bichos: cavalos, golfinhos, porcos, cães, gatos e aranhas. O que desfila, insiste ele, é exatamente o que chega às lojas.
Comme des Garçons: nunca seremos reis
Rei Kawakubo, que costuma recorrer a brocados, cetins e rendas para suas experiências mais radicais, trocou tudo por tecidos humildes: jeans, inclusive listrado e em risca de giz, e gabardine de algodão. As formas continuaram enormes, esculturas que lembravam bonecos de neve, violinos e guitarras, e quase todas as modelos usavam altas coroas de tecido. Os vestidos eram tão largos que elas precisavam passar de lado na passarela estreita. Entre a monarquia e o básico do dia a dia, Kawakubo deixou a pergunta no ar: o que, afinal, uma roupa sinaliza?
Stella McCartney e Dries Van Noten
Com narração de David Attenborough emoldurando o desfile em torno da preservação dos oceanos, Stella McCartney combinou alfaiataria solta e detalhes de cordão com malhas que lembravam corais, barras esculturais e golfinhos pintados a aerógrafo. Jennifer Lopez assistiu da primeira fila.
Na Dries Van Noten, Julian Klausner e a equipe fotografaram e desenharam cartazes de filmes que nunca existiram e os imprimiram em polos e vestidos. O resultado foram estampas em dupla exposição, colagens com algo de pop art e um vestir propositalmente caótico, como peças jogadas umas sobre as outras ao longo de um dia inteiro.
IIAs estreias
Courrèges: Drew Henry sai da caixa branca



A era espacial, um pouco amassada · Courrèges · Foto: Divulgação




No Palais de Tokyo, em 30 de setembro, o sul-africano Drew Henry estreou dizendo que queria sair da caixa branca. Os convites foram óculos de sol. Henry mergulhou nos primeiros anos da casa, antes da célebre coleção espacial de 1964, quando André Courrèges ainda era o assistente preferido de Cristóbal Balenciaga, e voltou de lá com chapéus de Jean Barthet tirados do arquivo, moles e caídos sobre os olhos.
Os códigos da casa apareceram de propósito um pouco mastigados. Tricôs canelados, jaquetas de vinil rasgadas e remendadas até virar bolsa carteiro, botas go-go com laço inspiradas em originais pintados à mão, minivestidos de vinil vestidos por rapazes, cintos de couro largos deixados soltos na frente. Camisetas diziam “Bonjour” e, quase no fim, “au revoir”. Uma estreia imperfeita e corajosa, com o colorido que faltava à casa.
Carven: Kai Nesselrath pega o lápis de Madame Carven
O convite era um lápis listrado de branco e verde, código histórico da casa, acompanhado de um cartão em branco para desenhar. No Conservatoire National des Arts et Métiers, Nesselrath, que fez carreira na Saint Laurent, apresentou uma introdução educada e jovem: recortes geométricos leves, decotes abertos nas costas, vestidos drapeados de aparência simples, barras cruas como roupas flagradas no meio do gesto. Conjuntos de minissaia e jaqueta, pijamas listrados de branco e verde, um vestido-avental e brincos em forma de raspa de lápis. Mais Carven, dizem, do que a casa era há tempos.
IIIO corpo em cena
Tom Ford: o espelho e o risco



A sedução que dispensa convite · Tom Ford · Foto: Divulgação




Haider Ackermann construiu a temporada em torno de um espelho. Painéis de vidro espalhados pela sala escura faziam os modelos pararem diante do próprio reflexo e se observarem uns aos outros. O olhar deixou de ser de quem assiste e passou a ser de quem desfila. Scott Barnhill abriu com um terno risca de giz, camisa verde-oliva aberta sobre o peito.
Dali em diante, a alfaiataria precisa conviveu com arrastão, couro preto recortado com o logotipo, trench coats militares, vestidos vermelhos de fendas altas e strass. Num dos looks, uma calcinha rosa-clara aparecia sob um suéter, com um casaco de vicunha carregado sobre a bolsa de viagem. O final, em trajes de banho pretos reduzidos ao mínimo, levou a ideia ao limite: a liberdade, para Ackermann, sempre mora perto do perigo.
Balmain e Rick Owens
Na sua segunda coleção para a Balmain, Antonin Tron trabalhou o despir por meio de corsetaria, cintas-ligas, sutiãs à mostra e drapeados fluidos, com referências que iam de fotografias de bastidores de meados do século passado a Jim Morrison e à passagem de Michel Foucault pela Califórnia em 1975. Rick Owens, como de costume sobre o espelho d’água do Palais de Tokyo, traduziu a intimidade do quarto para sua linguagem escultórica, com tule, elástico e calçados carregados de cristais.
IVA nova guarda
Matières Fécales: a rua como passarela
Hannah Rose Dalton e Steven Raj Bhaskaran fecharam o primeiro dia da semana na Place de la République, ponto tradicional de protestos da cidade, e abriram o desfile ao público. “The 99 Percent”, resposta ao “One Percent” da temporada anterior, foi dedicado a imigrantes e forasteiros, com um elenco de 99 modelos não brancos, entre eles amigos e familiares da dupla. Drapeados inspirados no sári, jeans desfiado, vestidos bordados e envelhecidos à mão. No final, uma mulher em lamê dourado carregava dois bonecos de homens brancos de terno. Rihanna e Rick Owens estavam na plateia.
Paris ainda é o único lugar onde uma praça de protesto e um salão de lustres cabem na mesma semana.
Julie Kegels, Hodakova e Anrealage
Vencedora do Prêmio LVMH de 2026, a belga Julie Kegels abriu a semana com “Apple of the Day”, uma reflexão sobre a queda em todas as suas formas, com a maçã de Newton como piscadela. A gravidade puxava as bordas das peças, da braguilha caída de um jeans aos florais que escorriam pelo tecido. Ellen Hodakova Larsson construiu sua coleção a partir do mar: redes de pesca e cabos náuticos tricotados, velas de barco, um look inteiro de retalhos de couro imitando crocodilo.



Roupa como segunda pele · Anrealage · Foto: Divulgação
Na Maison de la Radio, Kunihiko Morinaga celebrou o 25º desfile da Anrealage em Paris com “SKIN”. Seis vestidos de noite, quase armaduras, carregavam entre mil e duas mil escamas de papel eletrônico cada uma, capazes de mudar de cor quase instantaneamente sem emitir luz própria.
Acne Studios, Cecilie Bahnsen, Icicle e Caroline Hu


Os momentos de um dia · Icicle · Foto: Divulgação
Jonny Johansson fez colidir guarda-roupa histórico e roupa do dia a dia na Acne Studios: anáguas, rufos, gibões e mantos desgastados, ao som de “Prince Charming”, do Adam and the Ants. Cecilie Bahnsen uniu seu romantismo a um pragmatismo de vida ao ar livre, com jeans folgado e uma capa de chuva metálica que virava macacão. Na Icicle, Bénédicte Laloux trocou a sobriedade de sempre por cor, pregas e bordados franzidos. E Caroline Hu transformou um conto de fadas de duas mil palavras, escrito por ela, em vestidos com panier de renda Sophie Hallette e trechos do texto bordados à mão.
Maxhosa Africa: a estreia em cor
A marca sul-africana de Laduma Ngxokolo estreou no calendário oficial e transformou uma rua estreita numa explosão de cor, com convidados usando acessórios inspirados na herança xhosa.
VA reta final
Chanel: um ano de Blazy, sob um céu de pássaros
Quase exatamente um ano depois da estreia que mudou a casa de órbita, Matthieu Blazy voltou ao Grand Palais na segunda-feira, 5 de outubro. Sobre a passarela, uma copa monumental de pássaros dourados suspensos, eco das aves que ele já tinha espalhado pela alta-costura de janeiro. Desfilaram fraques de corte masculino, jaquetas de tweed com painéis transparentes, casacos até a canela cintilando com paetês vermelho-escuros, tudo ao som de Britney Spears. As musas de sempre de Blazy, Anne Vyalitsyna e Stephanie Cavalli, estavam no elenco. A recepção dividiu opiniões, o que, numa casa do tamanho da Chanel, é quase sempre sinal de que alguma coisa está se movendo.
Valentino: a antibiblioteca de Alessandro Michele
O convite era um catálogo de 68 livros nunca lidos, todos inventados, e os convidados foram instruídos a levar um livro de casa, que seria doado a bibliotecas públicas. No domingo, 4 de outubro, na Bibliothèque Sainte-Geneviève, no Quartier Latin, Naomi Watts e Cynthia Erivo sentaram-se às mesas de leitura de madeira enquanto 80 looks passavam entre as estantes. Michele partiu da ideia de “antibiblioteca”, cunhada por Umberto Eco para os livros que temos e ainda não lemos, e a comparou às roupas paradas no armário.
Corpetes de cetim em tons de joia com saias na altura do joelho, renda verde-limão com saia lavanda, barras de penas, calças balão amassadas de propósito, blazers transpassados abotoados fora do lugar. Num momento em que a moda discute máquinas e algoritmos, Michele defendeu o que é feito à mão, uma página de cada vez.
Miu Miu: elegância aplicada ao esporte
No Palais d’Iéna, sobre um carpete roxo, Miuccia Prada chamou a coleção de “Here and Now” e pôs Olivia Colman, Emma Corrin e Gigi Hadid na passarela. A ideia, nas palavras dela, foi olhar para todo mundo vestido de roupa esportiva e levar elegância ao esporte. Jeans Wrangler com amarração frontal, tênis New Balance coloridos, kilts em profusão, tops esportivos cobertos de cristais, minivestidos de seda dos anos 1960 encolhidos e bordados, cordas no lugar do cinto. Parte do público achou demais. Na Miu Miu, isso costuma ser elogio.
Casablanca: o Brasil em Paris




Amor e Progresso · Casablanca · Foto: Divulgação
A coleção que mais conversa com o leitor brasileiro veio de Charaf Tajer. “Amor e Progresso” troca a “ordem” do lema da bandeira pelo amor e foi apresentada no Espace Niemeyer, sede do Partido Comunista Francês e a obra mais conhecida de Oscar Niemeyer em Paris, que Tajer via todos os dias na infância em Belleville. O prédio foi tomado por vegetação tropical, as curvas de Niemeyer viraram um novo logotipo, e a passarela misturou alfaiataria branca, camisas de futebol, sedas, crochê, franjas de miçangas e degradês de pôr do sol. Os néons lembravam Rio e São Paulo depois da meia-noite, e até os chinelos de hotel citavam o Copacabana Palace.
Na passarela de sexta, 2 de outubro, estava também a brasileira Livia Nunes, em seu primeiro desfile internacional. A coleção também abriu uma collab com o Alma Rio, camarote carioca do Grupo Live: celebrada em Paris com um after no Espace Niemeyer, a parceria leva Tajer à Sapucaí como anfitrião no Carnaval de 2027, com as camisetas oficiais do camarote assinadas pela Casablanca. A festa está na nossa matéria sobre as noites da Paris Fashion Week.

Livia Nunes e Charaf Tajer · Casablanca · Foto: luiisff1
Jean Paul Gaultier: folclore em três dimensões
Na sua quarta coleção de prêt-à-porter para a casa, Duran Lantink misturou folclore holandês e uma Ibiza dos anos 1980 meio bruxa. Ombros projetados para a frente, aberturas circulares no peito revelando sutiãs cônicos, xadrezes e florais reavivados e um vestido de couro perfurado que pendia da cabeça e balançava em torno do corpo como cabelo. Lantink diz preferir a vista de três quartos à de frente ou de lado, e construiu as roupas para serem vistas de todos os ângulos.
VIO encerramento
Louis Vuitton: desafiando a gravidade
Coube a Nicolas Ghesquière, como de costume, fechar a semana. Na noite de terça-feira, 6 de outubro, na Cour Carrée do Louvre, algumas dezenas de veículos em forma de cunha, sem janelas e com faróis e lanternas saídos dos anos 1970, pairavam suspensos sobre uma passarela de asfalto que atravessava o pátio inteiro. O futurista de sempre armou o seu choque de tempos, e depois fez a coleção mais leve, acessível e bonita de sua passagem pela casa.
Ghesquière disse que buscava uma sensação de simplicidade, quase de pureza. Tecidos dupla face mais finos que chiffon, casacos que pesam menos que uma camiseta, tailleurs de ar espacial, óculos espelhados e vestidos retos com folha de lamê prateado. Lisa e Emma Stone, embaixadoras da casa, estavam na plateia. Depois de nove dias de ouro, nozes, corais, flores secas e pássaros, Paris terminou flutuando.
VIIDepois da última fila
A semana não acontece só nas passarelas. Os jantares, galas e festas que movimentaram Paris entre um desfile e outro estão na nossa matéria sobre as noites da Paris Fashion Week. A próxima temporada feminina em Paris acontece de 1º a 9 de março de 2027.
Paris encerra a temporada como quem apaga as luzes de uma casa grande, cômodo por cômodo. Vaccarello deixou o ouro aceso sob a Torre. Anderson deixou duas nozes na mão de cada convidado, para girar com paciência. Piccioli deixou uma camiseta branca. No terceiro ato, ninguém mais é novo, e é sempre assim: o espetáculo se desmonta na manhã seguinte, e o que fica é aquilo que alguém teve tempo de costurar.
Ficha
Paris Fashion Week Prêt-à-Porter Feminino Primavera-Verão 2027
Datas: 28 de setembro a 6 de outubro de 2026
Organização: Fédération de la Haute Couture et de la Mode (FHCM)
Calendário oficial: 68 desfiles e 33 apresentações
Estreias: Drew Henry na Courrèges, Kai Nesselrath na Carven
Abertura: Julie Kegels · Encerramento: Louis Vuitton
Gabriel Silveirado, para a WAYFARER.
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