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Shirish Saraf e a Kalizma, a última lenda flutuante

Shirish Saraf passou a vida refazendo tudo o que adquire. Diante da Kalizma, o iate de 1906 que pertenceu a Richard Burton e Elizabeth Taylor, fez o contrário: escolheu não mudar nada. Dez dias a bordo, navegando a costa do Montenegro, com o homem que se recusa a dizer que é dono da lenda.

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A Entrevista

Shirish Saraf passou a vida refazendo tudo o que adquire. Diante da Kalizma, o iate de 1906 que pertenceu a Richard Burton e Elizabeth Taylor, fez o contrário: escolheu não mudar nada. Uma conversa sobre posse, tempo e a descoberta de que guardar pode ser a forma mais alta de possuir.

A Kalizma ancorada na Boka Bay, na hora dourada
A Kalizma ancorada na Boka Bay. Sobreviveu a duas guerras mundiais e a doze donos.

Embarquei na Kalizma a convite de Shirish Saraf, para uma jornada pela costa do Montenegro. De Tivat às muralhas de Kotor, pelo desenho improvável da Boka Bay, aquele fiorde do Adriático onde as montanhas caem na água e o mar vira um lago. Uma travessia dessas é tempo suficiente para um barco deixar de ser cenário e virar convívio. E é tempo suficiente, sobretudo, para observar um homem dentro da própria casa, que é onde as pessoas param de se apresentar e começam a ser.

Ele recebe sem cerimônia, o que já é uma forma de cerimônia. Não há exibição de posse, nem recitação de proveniência. Saraf senta no convés de popa, óculos rosé contra a luz do fim de tarde, e deixa o barco falar primeiro.

Há uma palavra que atravessa as conversas de toda a jornada, e ele a usa quase sem perceber o peso que ela carrega. Custódio. Alguém que segura uma coisa por um tempo, sabendo que ela vai seguir sem ele. Levaria dias para se entender que a palavra não descreve apenas a relação dele com um iate. Descreve o modo como ele resolveu viver, e que ela lhe foi entregue, muitos anos antes, por outra pessoa.

1906Construção
1967Vira Kalizma
2Guerras mundiais
120Anos no mar
3Filhas no nome

A Kalizma dispensa apresentação para quem conhece a história do século XX. Nasceu em 1906 com o nome de Minona, projetada por G.L. Watson e construída pelos estaleiros escoceses Ramage & Ferguson, no auge da era dourada da vela. Foi rebatizada em 1967 por Richard Burton, que a fretou com Elizabeth Taylor para um cruzeiro pelo Mediterrâneo, se apaixonou pela embarcação, comprou-a, e montou o novo nome com as iniciais de três filhas: Kate, Liza, Maria. Conta a história oficial da embarcação que, ao assinar a compra, Burton escreveu o próprio nome como Richard Taylor, para dar aos paparazzi o que eles queriam. Uma palavra íntima, tornada pública pelas duas pessoas mais observadas do mundo naquele momento.

Há uma coincidência de que ele gosta mais do que admite. No mesmo ano em que a embarcação virou Kalizma, 1967, Saraf nascia, do outro lado do mundo. Quando menciono isso, ele não nega nem abraça. Prefere falar do que sente qualquer pessoa que sobe a bordo. “Ela carrega uma alma diferente, e uma energia diferente”, diz. “E todos nós sentimos essa energia ao subir a bordo.”

Capítulo I

O que o pai dele disse em Dubai

A família tem raízes na Caxemira, nas montanhas. Ele cresceu em Omã, foi educado na Inglaterra, e hoje divide a vida profissional entre Dubai, Hong Kong e a Índia, embora chame Londres de casa. O mar, na infância, era um rumor, não um fato da vida. “Venho da Caxemira, das montanhas”, diz. “O mar me era estranho.”

O primeiro encontro com a Kalizma aconteceu em Dubai, onde ela estava atracada, e ele não estava sozinho. Subiu a bordo com o pai. E foi o pai quem, naquele convés, lhe disse que aquele era um barco a ser guardado. Foi o pai, também, quem lhe deu a única definição da embarcação que Saraf repete até hoje, e que hoje é a assinatura dela: o Orient Express dos mares.

Guarde a cena, porque ela explica tudo o que vem depois. Um pai levando um filho a bordo de um objeto do século passado e dizendo, em resumo, que aquilo não se compra. Se preserva.

Na época, a distância entre ele e o barco não se media em dinheiro. Media-se em imaginação. “Quando a vi em 1995, em Dubai, eu era um banqueiro que ganhava dois mil dólares”, conta, sem vaidade, como quem descreve uma pessoa que já foi. “Imaginaria eu que trinta anos depois estaria sentado sobre Elizabeth Taylor, Richard Burton e o iate deles?” E completa, com a franqueza de quem não tem nada a provar: “Eu não conseguiria nem sonhar com a despesa de um único dia para mantê-la, mesmo que a ganhasse de graça.”

A Kalizma vista de cima, os rastros na água
Cinquenta metros de casco, e mais de um século no mar.

O que veio depois é conhecido de quem acompanha finanças na Ásia e no Oriente Médio. Saraf cofundou a Abraaj Capital, que chegou a administrar mais de seis bilhões de dólares. Em 2008, fundou a própria casa, a Samena Capital. Em 2013, a Asian Investor o listou entre as vinte e cinco pessoas mais influentes do private equity asiático. É o currículo de alguém acostumado a comprar, reestruturar e transformar. Em 2019, comprou a Kalizma. Vinte e quatro anos depois de subir naquele convés ao lado do pai, ele fez o que lhe foi dito que se fizesse.

Capítulo II

A camisa que se veste

Shirish Saraf no convés da Kalizma
Shirish Saraf, custódio da Kalizma desde 2019. Nascido no mesmo ano em que o barco ganhou o nome.

Pergunte a ele por que esta embarcação, e não outra, e a resposta vem por uma imagem. “Toda embarcação é uma camisa que se veste”, diz. “A embarcação tem de servir ao dono.” É uma metáfora reveladora, vinda de um homem que poderia mandar fazer qualquer roupa sob qualquer medida. A Kalizma é a única que ele escolheu não ajustar, aquela em torno da qual decidiu moldar a si mesmo. A camisa, aliás, tem continuação, e é nela que a metáfora vira confissão: “Eu a sinto como um lar.”

Durante a pandemia, conta ele, a Kalizma foi exatamente isso: o refúgio onde se recolheu com a família, quando o mundo fechou as portas. Ele fala desse período com uma gravidade que não usa para mais nada, e menciona, de passagem, a perda do pai naqueles anos. Não se alonga. Não precisa. É o mesmo pai que o levou a bordo em Dubai e mandou guardar aquele barco. Ele terminou de restaurá-lo em 2020, e o pai não estava mais lá para ver.

Há uma frase, dita quase rindo, que resume a inversão de tudo. Não foi ele quem sustentou a ambição pela Kalizma; foi ela que sustentou a dele. “Ela me fez querer ganhar mais.”

Ele é franco, quase a ponto do excesso, sobre o que ela não é. “Os barcos de hoje são mais largos. Num iate de cinquenta metros você terá mais espaço, pés-direitos mais altos, quartos mais luxuosos”, admite, antes que se pergunte. “Mas o que não terá é a magia da parte de cima, ou o aconchego do salão, nem a história junto.” É o argumento inteiro a favor dela, feito pelo homem menos inclinado a elogiá-la.

“Elegância discreta. Numa época em que tudo parece tão temporário e de tão curto prazo, isto é de longuíssimo prazo.”

O salão da Kalizma, com as fotografias de Burton e Taylor
No salão, as fotografias de Richard Burton e Elizabeth Taylor seguem penduradas onde sempre estiveram.

A restauração é onde a filosofia dele vira decisão prática. Ele melhora tudo o que possui, é instinto de carreira. Com a Kalizma, pela primeira vez, o reflexo parou num ponto exato, e ele mesmo definiu onde: a intenção declarada, ao começar a obra, era que nada alterasse a alma do barco. Ao longo de 2019 e 2020, os melhores artesãos trabalharam nela com os melhores materiais, sob a supervisão de um designer de interiores de renome internacional. A madeira, o latão, as proporções de 1906 foram preservados com quase teimosia, enquanto o conforto contemporâneo entrou por baixo, invisível. Em 2022, o resultado levou o Judges’ Special Award do World Superyacht Awards, e foi indicado como melhor superiate reconstruído do ano. Andar pelos conveses com ele é notar que toca em pouca coisa, corrige quase nada. Não está mostrando o trabalho dele. Está mostrando o dela.

Capítulo III

A aritmética da sobrevivência

Nada disso teria peso se a Kalizma fosse apenas velha. Velhice é comum; sobrevivência, não. Ela passou mais de um século no que Saraf chama, sem exagero, da substância mais corrosiva do mundo, e continua aqui, o que ele encara menos como um triunfo de manutenção do que como uma espécie de fato quase moral.

“O mar é a substância mais corrosiva do mundo, onde nem o aço sobrevive. Para um iate que sobreviveu 120 anos no mar, é como um único ser humano restante num mundo de sete bilhões.”

O sino de latão da Kalizma, gravado com o ano de 1906
O sino de latão, gravado: Kalizma, 1906. Um comandante da Marinha Real batizou a própria filha com ele.

E o mar, no caso dela, nem foi o pior inimigo. A Kalizma sobreviveu a duas guerras mundiais, servindo nas duas.

Na Primeira, foi requisitada pela Marinha Real britânica e serviu na frota de patrulha auxiliar, de 1914 a 1920. Foi armada. O registro histórico de Sir Archibald Hurd documenta a Minona socorrendo quatro vapores sob ataque de um submarino alemão. Um iate de recreio, construído para o lazer de um vice-comodoro escocês, encarando um U-boat no Atlântico.

Na Segunda, voltou a servir, de 1939 a 1945, agora como H.M.S. Minona, navio-base do serviço de resgate em alto-mar, em Campbeltown. O comandante, o tenente R.D. Robinson, chegou a batizar a própria filha com os sinos dela. O mesmo latão que ainda está no convés hoje, a meio metro de onde tomamos café pela manhã.

É a conta com que vale a pena ficar. Não a fama, não as pedras, a sobrevivência. Tudo o que nela fotografa bem é consequência da única coisa que não fotografa de jeito nenhum: ela não desistiu, nem no mar, nem sob fogo.

Ela carrega, para quem sabe da história, uma galeria de fantasmas ilustres. Os anos Burton e Taylor são os que o mundo lembra: a Kalizma foi o refúgio do casal, o único endereço que as câmeras não alcançavam. A bordo dela, Taylor guardava as joias que ajudaram a torná-la lenda, entre elas o diamante Krupp, de 33,19 quilates. E foi neste convés que ela recebeu, das mãos de um mensageiro, a pedra da Cartier que o mundo nunca esqueceu, os 69,42 quilates comprados em 1969, para usá-la em Mônaco, no baile da princesa Grace.

Elizabeth Taylor e Richard Burton embarcando na Kalizma
Elizabeth Taylor com a tripulação da Kalizma
À esquerda, Taylor e Burton embarcando na Kalizma, em Londres. À direita, Taylor com a tripulação. Arquivo.

E não foi só Hollywood. Em 1983, a Kalizma foi camarote flutuante da America’s Cup, com a realeza a bordo. Saraf conta essa passagem com evidente prazer, e o que ela revela é o que interessa: a embarcação impõe as próprias regras, e todo mundo, coroas incluídas, obedece. Quando se sugere que existem barcos comparáveis, ele corrige com a paciência de quem já respondeu isso antes: “Não existe outra Kalizma. Ela carrega um valor que vem de 1906.”

Capítulo IV

O homem que escreve

Perto do fim da tarde, ele faz uma coisa que ninguém esperava. Recita um poema de cor. É Kipling, os versos sobre encontrar o triunfo e o desastre e tratar esses dois impostores da mesma forma. Não anuncia, não pede licença. Apenas diz, como quem enuncia uma lei da física, e conclui: “Essa é a alma da Kalizma.”

Seria um gesto pitoresco se fosse acaso. Não é. Saraf tem um interesse profundo por literatura e vem escrevendo um romance em verso. É a informação que reorganiza tudo, porque explica de onde vem a linguagem dele. Um homem que descreve um barco como uma camisa, a posse como uma custódia e o mar como o inimigo mais paciente do mundo é um homem que passa o tempo livre procurando as palavras certas. Faz sentido que goste de um poema sobre equanimidade: atravessou os dois lados da fortuna e parece ter concluído que nenhum deles merece confiança excessiva.

A Kalizma navegando em mar aberto
Em travessia. O casco de 1906 mantido como sempre foi, com o conforto contemporâneo escondido por baixo.

Não é coincidência que um sujeito que escreve versos seja também o sujeito que decidiu não tocar num casco de 1906. As duas coisas nascem do mesmo lugar: a suspeita de que certas formas são melhores do que qualquer melhoria que se possa fazer nelas.

Capítulo V

O que ele guarda para os outros

Aqui a palavra custódio deixa de ser sobre o barco.

Em 2015, Saraf criou uma bolsa de estudos em Charterhouse, a escola inglesa onde estudou, destinada a uma criança da Índia, cobrindo até a integralidade dos custos. No ano seguinte, fundou a Samena Foundation, voltada a crianças sem recursos. A fundação apoia o mosteiro de Phaya Taung, em Mianmar, que abriga mil órfãos. Ele foi conselheiro da Little Dreams Foundation, criada por Orianne e Phil Collins. E há o Go Dharmic, o movimento humanitário com o qual distribuiu comida na Índia durante a pandemia. Perguntado sobre isso, ele desviou o crédito com a naturalidade de quem faz isso sempre: “Fiquei tocado com quantas pessoas ele alcançou. Fizemos distribuição de alimentos juntos na Índia durante a COVID: mais de um milhão de refeições. É incrível a escala, a logística, a paixão, o compromisso e a sinceridade com que ele faz isso.”

Repare no que ele fez na frase. Perguntaram do papel dele, e ele respondeu falando do trabalho do outro. Um milhão de refeições aparece de passagem, como um detalhe logístico. É o mesmo movimento que faz no convés quando se fala da Kalizma: sai da frente, e deixa a coisa aparecer.

Junte as peças e o retrato muda. Uma bolsa que ele não vai usar. Um mosteiro que ele não vai habitar. Refeições que ele não vai comer. Um barco que, ele insiste, não vai possuir para sempre. Shirish Saraf construiu uma vida ficando entre as coisas e o futuro delas, segurando-as por um tempo e passando adiante. Aprendeu isso, talvez, num convés em Dubai, com o pai ao lado.

Capítulo VI

A recusa

Chega o momento em que se pergunta a ele, diretamente, se possui a Kalizma. E aqui está o coração de tudo, porque ele recusa a pergunta. Com delicadeza, mas por inteiro. “Como posso dizer que sempre serei dono da Kalizma?”, devolve. “A história mostra que ela teve muitos donos, e, com o tempo, você não foi nada além do custódio da Kalizma, enquanto ela segue a própria jornada.”

Amanda Ford, Shirish Saraf e Gabriel Silveirado a bordo da Kalizma
Amanda Ford, Shirish Saraf e Gabriel Silveirado a bordo da Kalizma, na Boka Bay.

Ele recorre a um relógio para explicar, porque o relógio é o objeto que mais facilmente perdoamos por nos sobreviver. A comparação, vinda de um homem cujo instinto é refazer tudo o que toca, não é modéstia. Modéstia é encenação. Isto é uma concessão.

“Ninguém possui de verdade um Patek Philippe. Você apenas o deixa para a próxima geração. Não quero ter o ego de achar que serei dono dela para a vida toda. Ela encontrará o novo dono quando chegar a hora certa.”

Existe um tipo de luxo que é alto, rápido, e que já passou na estação seguinte. E existe este, o luxo do tempo que se recusa a ter pressa. Saraf chegou, tarde e por um caminho improvável, ao segundo tipo. É o mais difícil dos dois, porque exige que o dono aceite ser ele o passageiro.

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Capítulo VII

A vida a bordo

O convés de popa da Kalizma, com as montanhas da Boka Bay ao fundo
O convés de popa. Ao fundo, as montanhas que fecham a Boka Bay como um anfiteatro.

Nem tudo, é claro, é filosofia. A Kalizma é também uma casa que se move, e navegar nela ensina isso melhor que qualquer conversa. A rotina tem a precisão silenciosa das casas bem governadas: o café servido no convés quando a Boka ainda está lisa como vidro, as tardes em que o barco desliza entre as muralhas venezianas de Kotor e as montanhas que fecham a baía como um anfiteatro. Em nenhum momento da jornada a embarcação pareceu um objeto de exibição. Pareceu o que Saraf insiste que ela é: uma casa antiga, extraordinariamente bem cuidada, que por acaso flutua.

Ele fala das travessias recentes com a naturalidade de quem descreve estações do ano: Amalfi, a França, o Sri Lanka, e a Turquia, de que gosta especialmente, das águas mais quentes de Kaş e Kalkan às ruínas romanas que se alcançam a partir do convés. Fala da filha, Aria, que canta e monta a cavalo, com o orgulho desarmado de qualquer pai. E é aqui que o argumento dele sobre longevidade encontra a tradução mais simples. As coisas que ele guarda, ele guarda para alguém. O relógio, a bolsa de estudos, o barco. A próxima geração não é uma abstração retórica na boca dele. Tem nome.

Perguntado sobre ocasiões a bordo, ele oferece, sem que ninguém sugira, uma ideia que formula sozinho: a de a Cartier voltar a se encontrar com a Kalizma, já que a pedra da maison esteve, um dia, sobre estes conveses. A ideia é dele. Nós apenas a anotamos.

Capítulo VIII

A alma, e o que fica

À medida que a luz baixa e o azul da Boka toma o lugar do dourado, a conversa muda de registro. Saraf, que é hindu, oferece uma imagem que resume, melhor do que qualquer outra, a relação dele com a embarcação. “No hinduísmo, dizemos que a alma segue e a embarcação morre”, diz. “Neste caso, a embarcação seguiu, e a alma vai com ela.”

Ouve-se, nessa frase, a forma inteira da relação. Ele não é o melhorador dela. É a testemunha. É um papel menor que o de autor, e lhe cai melhor do que ser autor jamais caiu. O homem que refaz tudo encontrou, enfim, a coisa que o refez. E a descreve como se descreveria uma pessoa, porque em algum momento ela deixou de ser descritível de outra forma.

“Uma velha senhora muito elegante, refinada no gosto, que viu muita coisa ir e vir, como a vida, e encontrou muitos triunfos e muitos desastres pelo caminho.”

A Kalizma ao crepúsculo, luzes acesas
As lendas que a possuíram se foram. O barco, como sempre, permanece.

As lendas que a possuíram se foram. Os capitães que a levaram à guerra se foram. O pai que o levou a bordo em Dubai se foi. Ele também partirá, e diz isso sem hesitar. O barco, como sempre, permanece.

No fim da jornada, desci da Kalizma em Tivat com a sensação inversa à da chegada. Sobe-se a bordo dela pensando em Burton, em Taylor, nos diamantes, no século. Desce-se pensando no homem que hoje a guarda, e no pai dele, que trinta anos antes subiu num convés em Dubai e disse ao filho que aquilo era para ser guardado. Conversamos, o tempo todo, sobre duas coisas ao mesmo tempo: um iate de 1906, e um homem que, tendo o poder de mudar qualquer coisa, passou a vida descobrindo o que não se deve mudar. Ela carrega uma alma diferente, ele diz, e todos sentem essa energia ao subir a bordo. Depois de uma travessia nos conveses dela, é impossível discordar. Mais impossível ainda é não perceber que a frase serve para ele também.

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Gabriel Silveirado embarcou na Kalizma a convite de Shirish Saraf, numa jornada pela costa do Montenegro, entre Tivat, Kotor e a Boka Bay. Entrevista conduzida com Amanda Ford, para a WAYFARER. Fotografia de Anna Sereda.

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