Por décadas, a energia solar ocupou um lugar secundário na relojoaria, associada a peças de entrada e a mostradores perfurados que denunciavam a tecnologia embutida sob o vidro. Esse cenário está mudando. Manufaturas com reputação consolidada em mecânica estão revisitando o quartzo solar, agora com autonomia estendida, acabamentos mais sofisticados e uma discrição que, até pouco tempo, parecia impossível.
A Maurice Lacroix, conhecida por seu repertório mecânico, lançou o cronógrafo Pontos S com um movimento de quartzo suíço alimentado por energia solar, uma primeira para a coleção. A proposta resolve um problema prático: a troca de bateria passa a ocorrer apenas a cada dez anos, com até cinco meses de autonomia após uma carga solar completa. A luz captada também alimenta o mostrador em duas cores com Superluminova.

“Muitas empresas preferem concentrar seu know-how onde é mais forte, na relojoaria mecânica, tratando o quartzo como um produto de entrada antes da progressão para um relógio mecânico”, observa Samuel Guelat, diretor de marketing internacional da Maurice Lacroix. “Mas o fato é que a energia solar hoje é eficiente o suficiente para ser apresentada como uma peça confiável. Há um apelo evidente em um relógio que não exige atenção por uma década, especialmente entre um público mais jovem, sensível também ao viés ecológico. Não é uma tecnologia nova, mas há claramente uma tendência de retorno ao solar.”
A Frederique Constant seguiu caminho semelhante com o lançamento do Classics Moneta Solarmetre, sua primeira referência equipada com um movimento solar, o calibre FC-120 desenvolvido pela La Joux-Perret. A aquisição dessa manufatura especializada pela LVMH Watches no ano passado sugere que novos investimentos em relógios solares devem chegar em breve. Assim como o modelo da Maurice Lacroix, o Moneta enfrenta os dois obstáculos que historicamente afastaram consumidores da tecnologia solar: a espessura da caixa e a opacidade do mostrador.

Os relógios solares, embora mais finos do que há uma década, ainda tendem para o lado robusto. O Seiko Astron GPS, com 12,4mm, é hoje o mais delgado da categoria, e a marca lançou uma edição limitada em cristal verde neste ano. Segundo Faye Lovenbury, diretora de marketing da Seiko, “tornar a tecnologia ainda mais “invisível” também é uma frente importante de desenvolvimento”. Mostradores estampados, fumê, como no Pontos, ou gravados e texturizados em superfícies translúcidas, como no Moneta, tornaram-se mais comuns: parecem sólidos, mas permitem a passagem da luz.
Se antes os relógios solares exibiam sua tecnologia sem pudor, hoje ela se dissolve no design. A Tag Heuer expandiu sua linha solar este ano com versões dos modelos Aquaracer e Formula 1 em tons pastel, sem qualquer indício visual da fonte de energia.

“Por muito tempo, o mostrador precisava ter perfurações ou não podia ser muito escuro, mas a indústria contornou essa limitação. Olhe para os relógios solares mais recentes e não há como notar a diferença”, afirma Guelat. “No futuro, é possível imaginar outras formas de captação de luz que talvez nem passem pelo mostrador. Espero ver cada vez menos relógios puramente de quartzo e mais modelos solares.”
A Tissot já explora essas alternativas. No ano passado, o PR100 Solar apresentou a tecnologia “Lightmaster”, que embute o painel fotovoltaico não sob o mostrador, como é padrão, mas no próprio cristal de safira, facilitando a captação de luz. Até luz artificial é suficiente, princípio pioneiro do sistema Eco-Drive da Citizen, que completa cinquenta anos.

“À medida que a energia solar é cada vez mais reconhecida como confiável e sustentável, o apelo dos relógios solares se fortalece naturalmente. Mas essa nova tecnologia representa um avanço significativo porque abre um leque muito maior de possibilidades de acabamento e amplia nosso potencial de design”, argumenta Sylvain Dolla, CEO da Tissot. “Estamos trabalhando ativamente em diversos desenvolvimentos nessa área. As inovações recentes, que melhoram desempenho e design ao mesmo tempo, dão um impulso que posiciona os relógios solares como contemporâneos, relevantes e cada vez mais desejáveis.”
O próximo desafio, sugere Lovenbury, é aumentar a potência disponível para viabilizar complicações mais elaboradas. “Trata-se de equilibrar eficiência e integração: aprimorar continuamente a energia captada pela luz para alimentar funções cada vez mais complexas, sem comprometer o design”, conclui.


