Poucas manufaturas resistiram tão deliberadamente ao vocabulário do hype quanto a Patek Philippe. Sem embaixadores de marca, sem parcerias com atletas ou músicos, a casa genebrina construiu sua narrativa sobre outro eixo: herança, precisão técnica e um tipo de permanência que dispensa validação externa. Ainda assim, foi ela quem, em 2012, antecipou uma tendência que hoje domina o luxo experiencial, ao lançar em Dubai a primeira Watch Art Grand Exhibition, mostra itinerante e gratuita que já passou por Londres, Nova York, Tóquio e Munique, reunindo mais de 165 mil visitantes. Em outubro, chega a Milão a sétima edição, e a maior de todas.

Entre 2 e 18 de outubro, o recém-renovado Palazzo delle Scintille, coroado por uma cúpula de 30 metros de altura, receberá 2.900 metros quadrados de exposição divididos em 15 salas temáticas. Serão mais de 500 relógios e objetos em exibição, número que consolida esta edição como a mais extensa já organizada pela marca.

A escolha de Milão não é arbitrária. A Itália ocupa lugar de destaque na história do relógio suíço, tanto pela sofisticação de seus colecionadores quanto pelo papel que desempenhou ao sustentar marcas ameaçadas durante a crise do quartzo. Para a Patek Philippe, a conexão é ainda mais antiga: fundada em 1839, a manufatura vendeu um de seus primeiros relógios a um cliente em Roma. Esse capítulo será celebrado em Milão por meio de peças do museu da marca, incluindo um relógio de bolso esmaltado e cravejado de 1897, pertencente ao rei Umberto I de Saboia, e outro de 1830 com um mapa em esmalte champlevé do norte da Itália.

“Para mim, os clientes italianos ocupam um lugar especial, por esse faro particular para design, moda e espírito de vanguarda”, diz Thierry Stern, presidente da Patek Philippe. “Como meu pai sempre me disse, se um modelo novo funciona na Itália, ele vai funcionar no resto do mundo.”
A seleção reúne desde os modelos mais reconhecíveis da coleção atual, casos do Nautilus e do Aquanaut, até as complicações mais elaboradas já produzidas pela casa. Uma sala inteira, batizada de Super Complications, reúne três dos relógios mais importantes da história da manufatura: o Calibre 89, com 33 complicações, criado para o 150º aniversário da marca; o Grandmaster Chime ref. 5175, seu relógio de pulso mais complexo, com 20 complicações, feito para os 175 anos da casa; e o Star Caliber 2000.

Também em exibição, a coleção Rare Handcrafts confirma seu status de objeto de desejo entre colecionadores, que costumam disputar essas peças assim que deixam o ateliê em Genebra. O métier envolve pintura em esmalte miniatura, esmalte cloisonné, gravação manual, marchetaria em micro-madeira, guilloché e cravação de pedras. Serão 27 peças no total, entre relógios de mesa, de bolso e de pulso, com destaque para o Burano Pocket Watch, tributo à ilha veneziana que empresta o nome à peça: 70 cores de esmalte cloisonné, padrões de ondas em guilloché e acabamento paillonné em ouro e prata.

Outro ponto alto é o relógio de mesa Sicilian Oranges, executado em 49 tons de esmalte transparente, opalescente e opaco, com pintura miniatura em mais de cinco tons pastel. A peça exigiu mais de dez queimas individuais, entre 900°C e 910°C, um processo que resume bem a lógica da casa: tempo e repetição como forma de excelência.

Eric Wind, fundador da negociante de relógios vintage Wind Vintage, ainda se lembra da edição de 2017 em Nova York e do efeito que ela teve na cidade. “Colecionadores vieram do mundo inteiro para ver o que a Patek Philippe estava fazendo, quais peças especiais tinham sido criadas para a mostra e os relojoeiros trabalhando ao vivo”, recorda. “Foi um momento muito especial. Houve jantares, eventos, encontros entre colecionadores. Todo táxi amarelo trazia o anúncio da Grand Exhibition no teto. Foi uma exposição de marca enorme, provavelmente na casa das dezenas de milhões de dólares em valor de mídia, e a experiência se repete em cada edição.”

Milão, agora, assume o papel de anfitriã. Resta ver se a cidade, com sua tradição de design e seu público exigente, vai confirmar a máxima que Stern herdou do pai: o que funciona na Itália, funciona em qualquer lugar.


