WAYFARER · Estilo | Paris Fashion Week · Verão 2027
A temporada em que os novos deixaram de ser novos, e Paris começou a separar quem chegou de quem vai ficar.
Paris não abre a temporada. Paris a encerra. E é no encerramento que se descobre quem tinha, de fato, algo a dizer.
De 28 de setembro a 6 de outubro, a Fédération de la Haute Couture et de la Mode reúne 68 desfiles e 33 apresentações no calendário oficial. Os números impressionam menos do que a pergunta que atravessa os salões. Jonathan Anderson na Dior, Matthieu Blazy na Chanel, Pierpaolo Piccioli na Balenciaga, Jack McCollough e Lazaro Hernandez na Loewe, Michael Rider na Celine. Nenhum deles é mais estreante. Se a última temporada foi o segundo ato, esta é o terceiro, aquele em que o público deixa de perdoar e começa a julgar.
As estreias de verdade são duas: Drew Henry, que passou por Phoebe Philo e Burberry, assume a Courrèges prometendo roupas modernas, úteis e diretas; e Kai Nesselrath, depois de uma década na Saint Laurent, chega à Carven. Há também uma cadeira vazia. A Alaïa desfila assinada pelo estúdio, à espera de um sucessor para Pieter Mulier, agora na Versace.
Passada a primeira metade da semana, o desenho é nítido. Três caminhos disputam a atenção de um mercado que voltou a perguntar quanto vale uma roupa. O espetáculo. O corpo exposto. E a costura que se deixa ver, ponto a ponto, como argumento.
I. As grandes maisons
Saint Laurent: o ouro como despedida



O ouro que envolve tudo o que toca · Saint Laurent · Foto: Divulgação
Anthony Vaccarello completou dez anos na casa com o desfile mais obstinado de sua carreira. No Trocadéro, na noite de 29 de setembro, lustres dourados monumentais pairavam sobre uma passarela negra e espelhada, a Torre Eiffel acesa ao fundo. Uma única cor sustentou a coleção inteira. Ouro pálido, ouro queimado, ouro bizantino, renascentista, art déco, quase brutalista.
Os arquétipos da casa desfilaram dourados um a um. As sahariennes e os trench coats do tempo de Monsieur Saint Laurent, as blusas e saias envelope, e depois os clássicos que o próprio Vaccarello inventou: casacos de ombros firmes, blusões volumosos, tailleurs curtos debruados de pele. Lamê, brocado, renda guipure, jacquard e até látex coberto de folha de ouro. Nos pés, correntes douradas e saltos em forma de serpente, um pequeno arrepio de perigo muito Saint Laurent.
No fim, o ouro cedeu ao preto. Um tailleur de veludo com botões joia, três vestidos de noite como nuvens escuras, e Anja Rubik conduzindo o encerramento, numa inversão deliberada do final todo dourado com que Yves Saint Laurent fechou seu desfile de 1991. Charlotte Gainsbourg cantou para uma plateia com Catherine Deneuve e Kate Moss. A saída de Vaccarello não foi confirmada. Mas poucas vezes uma coleção soou tanto como um adeus.
O que passa às vezes deixa mais luz do que aquilo que fica.
Anthony Vaccarello, nas notas do desfile
Dior: a paciência de uma noz



A alfaiataria que aprendeu a flutuar · Dior · Foto: Divulgação
Se Saint Laurent falou alto, Jonathan Anderson escolheu sussurrar. No mesmo 29 de setembro, no Bassin Octogonal do Jardin des Tuileries, 65 looks atravessaram uma passarela branca estendida sobre o espelho d’água, num cenário do Bureau Betak. O ponto de partida foi um objeto mínimo: a noz wénwán, que na tradição chinesa é girada entre as mãos durante anos até revelar sua pátina. Os convites chegaram com um par delas. As notas do desfile vieram impressas em forma de noz.
A coleção fez perguntas em vez de afirmações. E se o tailleur fosse pensado como flou? Até onde uma roupa pode ser leve? A renda consegue segurar o ar? A resposta veio em renda Chantilly incrustada, cetim duchesse, musseline, organza, jacquard plissado. Jaquetas afiadas, abertas sobre saias que parecem flutuar. Barras irregulares, brincos desencontrados, uma simetria que, como disse Anderson, na natureza quase nunca é exata.
O detalhe mais bonito ficou fora da passarela. As árvores do cenário serão replantadas nas Tulherias, onde continuarão crescendo. Para uma coleção sobre sementes e tempo, nenhum final poderia ser mais coerente.
Balenciaga: a camisa branca como alta-costura



O ateliê levado para dentro de uma camiseta · Balenciaga · Foto: Divulgação
Pierpaolo Piccioli apresentou sua terceira coleção de prêt-à-porter para a casa em 1º de outubro, à luz do dia, no Tennis Club de Paris. Chamou-a de “Les Coraux de la Liberté”, o mesmo nome da escultura em linho enrolado da artista Aude Franjou que ocupava o centro do salão. E escolheu o argumento mais sóbrio da semana.
Técnicas da 55ª coleção de alta-costura da Balenciaga foram aplicadas ao guarda-roupa mais comum que existe. Um pesponto emprestado das estruturas internas da alfaiataria moldou camisas brancas, camisetas e jaquetas de couro até ganharem cintura e peplum, ecos das silhuetas de arquivo. O corte enviesado, normalmente reservado a vestidos de noite, foi usado no jeans. Flores imaginárias em organza, infladas com ar comprimido, e inserções de renda de Calais abriram janelas sobre o corpo.
Num momento em que o mercado questiona preços, Piccioli ofereceu a resposta mais elegante possível: a diferença precisa estar visível na construção, não na etiqueta. É alta-costura que se veste numa terça-feira.
Maison Margiela: o que restou das flores de Raf

Flores que o tempo alcançou · Maison Margiela · Foto: Divulgação
Uma semana depois de se despedir da Diesel em Milão, agora dedicado apenas à Margiela, Glenn Martens apresentou uma coleção mista com “Violet”, do Hole, ecoando pelo espaço. Os modelos passavam diante de paredes inteiras de flores secas, ou morrendo, numa instalação de Mark Colle. A referência era precisa: a estreia de Raf Simons na alta-costura da Dior, em 2012, quando os salões foram forrados de flores frescas. Martens imaginou o que teria acontecido com aquelas flores desde então.
A coleção se chamou “HARD and SOFT” e partiu da divisão clássica dos ateliês parisienses, em que o tailleur cuida da estrutura e o flou, do drapeado. Martens embaralhou as duas coisas. Trench coats ganharam painéis rígidos, jaquetas viraram do avesso escondendo os fechos, vestidos fluidos passaram a se sustentar sobre estruturas endurecidas no peito. Florais e poás deram à casa um vocabulário mais decorativo do que o habitual. Nas bolsas, a ideia ficou cristalina: valises, maletas e necessaires perderam a estrutura interna e mantiveram só as ferragens. O rígido, de repente, cedia nas mãos.

Chloé: a obsessão como método



Broderie anglaise, renda e um temporal passageiro · Chloé · Foto: Divulgação
Em meio a rumores sobre sua saída, Chemena Kamali fez talvez o desfile mais pessoal da semana. Batizou-o de “Obsession” e deixou que suas fixações pela casa conduzissem tudo. A broderie anglaise veio dos antigos “robes de jeunes filles” da Chloé e de bordados de arquivo do século XIX. Flores tridimensionais, dos anos 1960, brotavam das superfícies. A alfaiataria partiu do tailleur “Noel”, de 1972, com seu smoking de bordas recortadas.
No meio do desfile, uma tempestade. Capas de pescador dos anos 1970, chapéus de marinheiro caídos sobre o rosto, vinil transparente em tons fumê inspirado nas capas de chuva dos anos 1950. Depois o tempo abriu, e voltou o verão: conjuntos de broderie anglaise, macacões de tricô canelado cor de citrino, uma Paddington em rattan. Da lingerie, Kamali recortou a renda e deixou só a estrutura, transformada em arreios românticos. Nas notas, uma despedida possível: que o amor derramado na coleção dure para sempre.
Schiaparelli: indo ao essencial



A alta-costura desmontada em peças · Schiaparelli · Foto: Divulgação
Daniel Roseberry recebeu os convidados num salão de lustres e mesinhas de cabaré, com abajures e taças de champanhe, e chamou a coleção de “Going Clear”. A proposta foi desmontar vestidos e decotes da casa em partes de cima e de baixo, um guarda-roupa modular informado pelo sportswear americano e pelas raízes texanas do estilista. A paleta se reduziu a preto, osso e manteiga, com acentos tirados do arquivo: azul martim-pescador, verde musgo, rosa salmão, nas oito versões do clássico casaco Schiap.
Os babados em couro e linho vieram das cortinas que cobriam as janelas do ateliê de Elsa Schiaparelli na Place Vendôme. Um tricô de viscose com textura de casca de árvore resgatou um tecido criado pela própria Elsa. Roseberry ainda propôs o que chamou de “revenge dressing”, variações do pretinho básico, e uma joalheria de bichos: cavalos, golfinhos, porcos, cães, gatos e aranhas. O que desfila, insiste ele, é exatamente o que chega às lojas.
Stella McCartney e Dries Van Noten
Com narração de David Attenborough emoldurando o desfile em torno da preservação dos oceanos, Stella McCartney combinou alfaiataria solta e detalhes de cordão com malhas que lembravam corais, barras esculturais e golfinhos pintados a aerógrafo. Jennifer Lopez assistiu da primeira fila.
Na Dries Van Noten, Julian Klausner e a equipe fotografaram e desenharam cartazes de filmes que nunca existiram e os imprimiram em polos e vestidos. O resultado foram estampas em dupla exposição, colagens com algo de pop art e um vestir propositalmente caótico, como peças jogadas umas sobre as outras ao longo de um dia inteiro.
II. O corpo em cena
Tom Ford: o espelho e o risco



A sedução que dispensa convite · Tom Ford · Foto: Divulgação
Haider Ackermann construiu a temporada em torno de um espelho. Painéis de vidro espalhados pela sala escura faziam os modelos pararem diante do próprio reflexo e se observarem uns aos outros. O olhar deixou de ser de quem assiste e passou a ser de quem desfila. Scott Barnhill abriu com um terno risca de giz, camisa verde-oliva aberta sobre o peito.
Dali em diante, a alfaiataria precisa conviveu com arrastão, couro preto recortado com o logotipo, trench coats militares, vestidos vermelhos de fendas altas e strass. Num dos looks, uma calcinha rosa-clara aparecia sob um suéter, com um casaco de vicunha carregado sobre a bolsa de viagem. O final, em trajes de banho pretos reduzidos ao mínimo, levou a ideia ao limite: a liberdade, para Ackermann, sempre mora perto do perigo.
Balmain e Rick Owens
Na sua segunda coleção para a Balmain, Antonin Tron trabalhou o despir por meio de corsetaria, cintas-ligas, sutiãs à mostra e drapeados fluidos, com referências que iam de fotografias de bastidores de meados do século passado a Jim Morrison e à passagem de Michel Foucault pela Califórnia em 1975. Rick Owens, como de costume sobre o espelho d’água do Palais de Tokyo, traduziu a intimidade do quarto para sua linguagem escultórica, com tule, elástico e calçados carregados de cristais.
III. A nova guarda
Matières Fécales: a rua como passarela
Hannah Rose Dalton e Steven Raj Bhaskaran fecharam o primeiro dia da semana na Place de la République, ponto tradicional de protestos da cidade, e abriram o desfile ao público. “The 99 Percent”, resposta ao “One Percent” da temporada anterior, foi dedicado a imigrantes e forasteiros, com um elenco de 99 modelos não brancos, entre eles amigos e familiares da dupla. Drapeados inspirados no sári, jeans desfiado, vestidos bordados e envelhecidos à mão. No final, uma mulher em lamê dourado carregava dois bonecos de homens brancos de terno. Rihanna e Rick Owens estavam na plateia.
Paris ainda é o único lugar onde uma praça de protesto e um salão de lustres cabem na mesma semana.
Julie Kegels, Hodakova e Anrealage
Vencedora do Prêmio LVMH de 2026, a belga Julie Kegels abriu a semana com “Apple of the Day”, uma reflexão sobre a queda em todas as suas formas, com a maçã de Newton como piscadela. A gravidade puxava as bordas das peças, da braguilha caída de um jeans aos florais que escorriam pelo tecido. Ellen Hodakova Larsson construiu sua coleção a partir do mar: redes de pesca e cabos náuticos tricotados, velas de barco, um look inteiro de retalhos de couro imitando crocodilo.
Na Maison de la Radio, Kunihiko Morinaga celebrou o 25º desfile da Anrealage em Paris com “SKIN”. Seis vestidos de noite, quase armaduras, carregavam entre mil e duas mil escamas de papel eletrônico cada uma, capazes de mudar de cor quase instantaneamente sem emitir luz própria.
Acne Studios, Cecilie Bahnsen, Icicle e Caroline Hu
Jonny Johansson fez colidir guarda-roupa histórico e roupa do dia a dia na Acne Studios: anáguas, rufos, gibões e mantos desgastados, ao som de “Prince Charming”, do Adam and the Ants. Cecilie Bahnsen uniu seu romantismo a um pragmatismo de vida ao ar livre, com jeans folgado e uma capa de chuva metálica que virava macacão. Na Icicle, Bénédicte Laloux trocou a sobriedade de sempre por cor, pregas e bordados franzidos. E Caroline Hu transformou um conto de fadas de duas mil palavras, escrito por ela, em vestidos com panier de renda Sophie Hallette e trechos do texto bordados à mão.
Maxhosa Africa: a estreia em cor
A marca sul-africana de Laduma Ngxokolo estreou no calendário oficial e transformou uma rua estreita numa explosão de cor, com convidados usando acessórios inspirados na herança xhosa.
IV. O que ainda vem
A reta final concentra parte das apresentações mais aguardadas. Elie Saab desfila no dia 3 de outubro. Valentino, sob Alessandro Michele, volta a Paris no dia 4. Sacai retorna ao calendário no dia 5. Chanel, de Matthieu Blazy, e Hermès apresentam na reta final, e a Louis Vuitton, como de costume, encerra a semana no dia 6. A WAYFARER volta ao tema ao fim da temporada.
Ficha
Paris Fashion Week Prêt-à-Porter Feminino Primavera-Verão 2027
Datas: 28 de setembro a 6 de outubro de 2026
Organização: Fédération de la Haute Couture et de la Mode (FHCM)
Calendário oficial: 68 desfiles e 33 apresentações
Estreias: Drew Henry na Courrèges, Kai Nesselrath na Carven
Abertura: Julie Kegels · Encerramento: Louis Vuitton
Paris encerra a temporada como quem apaga as luzes de uma casa grande, cômodo por cômodo. Vaccarello deixou o ouro aceso sob a Torre. Anderson deixou duas nozes na mão de cada convidado, para girar com paciência. Piccioli deixou uma camiseta branca. No terceiro ato, ninguém mais é novo, e é sempre assim: o espetáculo se desmonta na manhã seguinte, e o que fica é aquilo que alguém teve tempo de costurar.
Gabriel Silveirado, para a WAYFARER.
