WAYFARER | Moda · Malharia · Piemonte
Passar o fio da bobina parafinada por todas as frestas, até encaixá-lo no carrinho. Inserir o pente da finura certa entre as fronturas, deslizar o carrinho da direita para a esquerda, conferir a resistência do fio. Baixar as agulhas. Deslizar da esquerda para a direita, soltar o pente. Apertar o botão tuck. Pronto.
São gestos que a malharia pede centenas de vezes, durante meses, até que um ponto saia perfeito: a tensão certa, a elasticidade na medida, a maciez ao toque, a ausência de qualquer defeito. Quem nunca se aproximou do ofício dificilmente entende a meticulosidade de produzir, de forma mecânica e manual ao mesmo tempo, algo que parece simples. Essa precisão ocupa o topo das prioridades da moda, e a Loro Piana conhece bem esse território.
Em 18 de setembro, a maison de origem biellese inaugurou em Ghemme, na província de Novara, entre as unidades de Roccapietra e Quarona, sua nova manufatura dedicada exclusivamente à malharia.

O que acontece em Ghemme
A sede recebeu a imprensa internacional em meio a números que impressionam: 8 mil metros quadrados e a meta de empregar cerca de 300 pessoas na cadeia produtiva, com atenção às novas gerações. Há um escritório de estilo e outro de produto; duas áreas de produção, uma de engenharia e projeto e outra, silenciosa, onde as malhas ganham forma final; setor de passadoria, lavanderia, mais de vinte máquinas para remalhar à mão, laboratório de desenvolvimento de moldes e controle de qualidade. É um pequeno território produtivo e criativo onde fios como o Baby Cashmere, a vicunha, o cashmere e as lãs Merino extrafinas viram suéteres, casacos, cachecóis, calças, meias e bolsas.
Na visita conduzida pela diretora de produto, um detalhe chama atenção: em cada canto dos setores, alinhadas como pequenos módulos, espalham-se mesas luminosas. Telas brilhantes, deitadas ou moldadas em formas tubulares, como braços cintilantes, essenciais para revelar os defeitos mais invisíveis. Ali, até as malhas mais finas, de calibre 13, ganham contornos nítidos, e nada passa despercebido.
As profissionais, maioria absoluta no setor, ocupam um lugar entre observadoras rigorosas e artesãs de talento. Buscam nessas mesas a imperfeição da malha para corrigir, aprimorar, refinar. No fim, trata-se disso: beleza, precisão, domínio técnico.
O processo de revisão nunca se interrompe, segundo a equipe. Cada etapa, da programação digital dos pontos ao estudo de montagem de mangas, corpo, bolsos, colarinhos e botões (nos famosos cardigãs, isso envolve a engenharia de fusão entre a camurça e a malha), passa por avaliação constante. Nada permanece como simples protótipo: até as peças de prova são etiquetadas, acabadas, lavadas, secas e ajustadas no manequim.
Mais que manufatura: memória e novas gerações
O savoir-faire italiano da malharia calata, técnica que produz cada componente de uma peça individualmente, sem cortes ou desperdício, ganha espaço também no museu integrado à entrada. O prédio foi erguido como fábrica de papel e depois convertido em fiação de algodão, ativa por mais de um século. Em sua versão regenerada, com sistemas de captação de água da chuva, painéis fotovoltaicos e tecnologias avançadas de gestão energética, é a primeira unidade produtiva da Loro Piana projetada sem combustíveis fósseis.
A exposição percorre o trajeto produtivo a partir da matéria-prima: pequenas amostras de cashmere e lã, o relato dos países de origem (Austrália, Nova Zelândia, Mongólia, Peru, Argentina e Bolívia), o processo de fiação em Roccapietra, na Valsesia, e a chegada a Ghemme.
Igual relevância é dada à instalação dedicada ao Loro Piana Knit Award. Desde 2016, a marca valoriza jovens designers formados nas escolas de malharia mais prestigiadas do mundo. Na fábrica ficam guardados os looks vencedores das últimas edições, de 2022 até a mais recente, da Swedish School of Textiles, com o tema “Knitting Light, Craft on the Evolution of Colour”.
Em Ghemme, a beleza não se limita à produção: ali se forma conhecimento. Entre os setores está a Accademia dei Mestieri, campus voltado a competências essenciais do ofício, como programação, remalhe, acabamento manual e cerzidura. É uma escola que pretende preservar o saber artesanal e repassá-lo a quem fará a malharia de amanhã.
Passar o fio, baixar as agulhas, soltar o pente. Em Ghemme, os gestos continuam os mesmos, só que agora têm uma casa própria e uma escola para quem vem depois. Talvez seja esse o luxo mais raro da malharia: um ponto perfeito que alguém ainda se dispõe a ensinar.

