WAYFARER | Viagem · Nova York
Nova York sempre soube encenar o próprio passado.
Enquanto a quarta temporada de The Gilded Age devolve à tela o fausto que moldou a cidade entre o fim do século XIX e o início do XX, alguns dos hotéis mais emblemáticos de Manhattan seguem oferecendo, fora da ficção, acesso direto a esse repertório. Entre lobbies restaurados e salões que resistiram a décadas de reformas, três endereços condensam as duas estéticas que definiram a identidade arquitetônica da cidade: o Art Deco e a opulência dourada do final do século XIX.
Waldorf Astoria: o Art Deco restaurado
Depois de anos de reforma extensa, o Waldorf Astoria New York recuperou o esplendor original, sobretudo no salão de baile, restaurado pela Skidmore, Owings & Merrill de acordo com a configuração de 1931. O espaço é palco de eventos e peça de museu: pé-direito de três andares, varandas cortinadas e uma atmosfera de ópera italiana.
O Grand Ballroom acumula marcos. Ali aconteceu um dos primeiros Met Galas, além da primeira edição do Tony Awards. O príncipe Rainier III de Mônaco e Grace Kelly celebraram o noivado no salão, que também sediou as cerimônias de indução ao Rock & Roll Hall of Fame a partir de 1986, incluindo a entrada dos Beatles em 1988.

O hotel segue reinventando o uso do espaço. Durante a semana do US Open, o salão de baile vira quadra de tênis regulamentar, transformação rara entre propriedades de luxo. A primeira edição do Waldorf Astoria Racquet Club Ballroom Tennis Invitational reuniu Tommy Paul, Ben Shelton, Leylah Fernandez e Maria Sakkari numa noite só, com plateia que incluiu Anna Wintour e Daniel Boulud.
Se o Grand Ballroom concentra os holofotes, foi no Peacock Alley que a sociedade nova-iorquina se exibia em suas melhores roupas. Hoje é possível reservar uma mesa, pedir um Rob Roy (o coquetel nasceu ali) e ouvir música ao vivo sob o relógio histórico da Feira Mundial de 1893. Vale procurar o piano Steinway restaurado que pertenceu a Cole Porter. Hóspedes registrados podem solicitar visitas privadas ao acervo artístico do hotel.
Lotte Palace: a mansão de 1882
No coração do Lotte Palace New York está a histórica Villard Mansion, erguida em 1882 pelo financista ferroviário Henry Villard, uma das poucas mansões da era dourada ainda de pé na cidade. O Gold Room, um de seus espaços centrais, exibe tetos com folha de ouro e entalhes detalhados, ancorados por arquitetura em arcos, obras originais de John La Farge e um balcão suspenso criado para esconder músicos dos convidados da elite.
Tours privados com um historiador do Lotte Palace podem ser organizados pela concierge e também acontecem aos sábados, às 10h, ambos restritos a hóspedes. Qualquer pessoa, no entanto, pode reservar uma mesa no Gold Room e pedir coquetéis inspirados na época, como o Mrs. Astor, em referência à ícone social Caroline Astor, acompanhado de caviar Osciètre e fritas de trufa negra.

St. Regis: o Beaux-Arts e o bar do Bloody Mary
O St. Regis Hotel New York é outro marco Beaux-Arts da era dourada. Fundado por John Jacob Astor IV, abriu em 1904 e ficou célebre por seus lustres de cristal Waterford, claraboias Tiffany e pelo histórico King Cole Bar. O espaço mais icônico do hotel é esse bar, onde está o mural original de Maxfield Parrish, Old King Cole. Foi ali também que o bartender Fernand Petiot criou, em 1934, o coquetel originalmente chamado de Red Snapper, hoje conhecido como Bloody Mary.
Entre a precisão geométrica do Art Deco e o excesso calculado da Gilded Age, os três endereços oferecem leituras distintas do mesmo período. Basta cruzar a porta para entender por que Nova York ainda se pensa, em parte, através desses salões.


