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BrazilFoundation no Plaza: a noite em que Nova York falou de doação em português

Na quinta, 17 de setembro, o The Plaza recebeu o New York Gala 2026 da BrazilFoundation, com o tema “Soluções para uma filantropia transformadora”. Alessandra Ambrósio, o Instituto Burle Marx, a Mubadala Capital e o SOFI TUKKER foram homenageados, Morena Leite assinou o jantar pelo terceiro ano e o leilão juntou Kobra, Belmond, Sauer e a casa de Diplo em Pompeia.
Fachada do The Plaza Hotel, em Nova York, sob céu azul Fachada do The Plaza Hotel, em Nova York, sob céu azul
Imagem: Kidfly182/Wikimedia Commons (CC BY 4.0)

WAYFARER · Cultura | Filantropia

Na esquina da Quinta Avenida com o Central Park, no hotel onde Truman Capote deu o Black and White Ball de 1966, o Brasil voltou a ser assunto de black tie. Por uma noite, a conversa em Nova York foi sobre o que se faz com o que se tem.

Na quinta-feira, 17 de setembro, a BrazilFoundation reuniu no The Plaza o seu New York Gala 2026, o principal encontro de captação da organização nos Estados Unidos e um dos mais tradicionais eventos filantrópicos dedicados ao Brasil fora do país. O tema da edição, “Soluções para uma filantropia transformadora”, deu o tom de uma noite que celebrou 26 anos de trabalho e quatro homenageados que, cada um à sua maneira, levam o Brasil para além das próprias fronteiras.

A noite em 30 segundos

  • Quando e onde: quinta, 17 de setembro de 2026, The Plaza, Nova York
  • Tema: Soluções para uma filantropia transformadora
  • Chair: Daniel Urzedo
  • Homenageados: Alessandra Ambrósio, Instituto Burle Marx, Mubadala Capital e SOFI TUKKER
  • Mestres de cerimônia: Roberta Rodrigues e Sandra Coutinho
  • Jantar: Morena Leite, pelo terceiro ano seguido

I. A casa

Vinte e seis anos aproximando quem pode de quem faz

A BrazilFoundation nasceu em Nova York em 2000 com uma ideia simples e, à época, pouco comum: ligar doadores de fora, muitos deles brasileiros vivendo no exterior, a organizações da sociedade civil que trabalham na ponta, no Brasil. Em 26 anos, segundo a própria fundação, foram mais de 61 milhões de dólares destinados a cerca de 1.100 iniciativas, com foco em equidade racial e de gênero, justiça socioambiental e desenvolvimento social. O New York Gala é a vitrine desse modelo e a sua principal fonte de recursos nos Estados Unidos. A edição de 2025, a dos 25 anos, também no Plaza, arrecadou cerca de 1 milhão de dólares.

Na presidência da noite estava Daniel Urzedo, ligado à fundação desde 2006. Foi ele quem, ao longo de quase duas décadas, ajudou a abrir a porta da BrazilFoundation para doadores internacionais e marcas como Ralph Lauren, Moncler, Chanel e Alexandre Birman, além de apoiar projetos como o Ballet Paraisópolis. A sua tarefa, como chair, era a mais delicada de qualquer gala: encher o salão de quem pode e quer contribuir.

Calçadão de Copacabana ao entardecer, com prédios e árvores ao longo da avenida
O Rio que a fundação ajuda a financiar fica a quase 8 mil quilômetros do Plaza. Imagem: Wilfredor/Wikimedia Commons (CC0)

II. A homenageada

Alessandra Ambrósio e o fundo que nasceu de uma enchente

O Philanthropy Leadership Award foi para Alessandra Ambrósio, parceira da fundação há mais de 15 anos. A relação vem de longe: passa por ações beneficentes durante os Jogos Olímpicos do Rio e por campanhas internacionais de captação. Mas o capítulo que pesou na homenagem é mais recente. Em 2024, depois das enchentes históricas no Rio Grande do Sul, o estado onde nasceu, ela criou com a BrazilFoundation o Brazilian Soul Fund, montado com a ajuda do próprio Urzedo.

O fundo começou financiando ajuda emergencial e reconstrução nas comunidades atingidas, ganhou lançamento internacional num jantar beneficente durante o Festival de Cannes e, desde então, ampliou o seu alcance. Segundo a organização, já destinou cerca de 1,7 milhão de reais, perto de 340 mil dólares, a organizações sociais brasileiras. Ao anunciar a homenagem, Urzedo descreveu a trajetória dela como um exemplo de filantropia em ação, de uma geração de brasileiros que usa a visibilidade global para abrir oportunidades reais.

A doação, no Plaza, não foi tratada como gesto. Foi tratada como método.

III. O prêmio novo

Burle Marx, o primeiro legado cultural e ambiental

A grande novidade da edição foi um prêmio que não existia. O Cultural & Environmental Legacy Award estreou com o Instituto Burle Marx, criado em 2019 para preservar e difundir a obra de Roberto Burle Marx (1909-1994), o paisagista que desenhou o Brasil moderno a céu aberto. O instituto guarda um acervo de mais de 150 mil itens, entre projetos, desenhos, fotografias, documentos e cartas que cobrem quase sete décadas de trabalho, e defende uma ideia de cidade mais verde, inclusiva e sustentável.

Vista aérea das ondas em pedra portuguesa do calçadão de Copacabana, com coqueiros
As ondas do calçadão de Copacabana, no desenho de Burle Marx para a orla. Imagem: Donatas Dabravolskas/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

A escolha diz muito sobre o momento da filantropia brasileira. Ao premiar um arquivo e um jardim, a fundação colocou patrimônio e meio ambiente na mesma linha que a assistência social. Quem conhece o calçadão de Copacabana, o Aterro do Flamengo ou o Sítio Roberto Burle Marx, em Guaratiba, reconhecido pela Unesco como Patrimônio Mundial em 2021, entende o argumento: no Brasil, paisagem também é bem comum.

Árvore de raízes expostas sobre gramado no Sítio Roberto Burle Marx, em Guaratiba
O Sítio Roberto Burle Marx, em Guaratiba, Patrimônio Mundial da Unesco. Imagem: xiquinhosilva/Wikimedia Commons (CC BY 4.0)

IV. Os outros nomes da noite

Do fundo de Abu Dhabi ao duo de Nova York que canta em português

A Mubadala Capital, braço de investimentos com forte presença no Brasil, recebeu o Leadership in Social Impact Award, que reconhece uma parceria estratégica com a fundação iniciada em 2019. É o tipo de homenagem que mostra para onde a filantropia de grande porte caminha: do cheque pontual para o compromisso de longo prazo.

O Brazilian Global Award ficou com o SOFI TUKKER, duo formado por Sophie Hawley-Weld e Tucker Halpern e anunciado também como atração da noite. A escolha tem lastro: Sophie viveu no Brasil, canta em português e fez da música brasileira parte da identidade do grupo, que chegou a disputar o Grammy com “Drinkee”, faixa construída sobre versos do poeta paranaense Paulo Leminski.

Sophie Hawley-Weld, do duo SOFI TUKKER, canta e toca guitarra no palco
Sophie Hawley-Weld, do SOFI TUKKER, homenageado com o Brazilian Global Award. Imagem: Krists Luhaers/Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

A condução ficou com a atriz Roberta Rodrigues e a jornalista Sandra Coutinho. No salão, entre empresários, filantropos, artistas e a comunidade brasileira de Nova York, circularam nomes como o estilista Francisco Costa, a modelo Barbara Fialho, Carolina Doria, Vladimir Roitfeld, Carolina Mendes, Mateus Farah, o designer Naeem Khan e Pierre Snaps.

V. À mesa e no martelo

Tucupi no Plaza e uma casa em Pompeia em leilão

Pelo terceiro ano seguido, o jantar foi de Morena Leite, do Capim Santo, que também comanda o Instituto Capim Santo, de formação profissional e impacto social pela gastronomia. O cardápio atravessou o país: empada de polvo na entrada; medalhão ao molho de pimenta-verde com arroz cremoso, feijão-de-santarém e farofa crocante de banana como prato principal; e, para fechar, pudim de castanha-do-pará com calda de caramelo e cumaru. Tucupi, castanha-de-caju e goiaba completaram a despensa. A chef disse que quis um menu que celebrasse união e filantropia, e o resultado foi um mapa do Brasil servido em porcelana de Manhattan.

Depois do jantar, o leiloeiro Fabio Zukerman assumiu o microfone. Entre os lotes estavam experiências na rede Belmond, joias da Sauer, obras de Eduardo Kobra, Lucas Recchia e Taly Cohen e uma temporada na casa do DJ Diplo em Pompeia, na Itália. A lista de doadores incluiu ainda o Instituto Burle Marx, Lélia Wanick Salgado e o Studio Sebastião Salgado, The Brando, Sant Ambroeus e o Camarote Nº1. A noite terminou na pista, com o DJ Gaspar Muniz e um set de música brasileira. A direção criativa e a cenografia foram de Cristiana Mascarenhas.

A BrazilFoundation não divulgou o total arrecadado nesta edição. Os recursos vão para as iniciativas que a fundação apoia no Brasil.

Casa rosada do Sítio Roberto Burle Marx cercada por plantas tropicais
A casa do Sítio Roberto Burle Marx, onde o paisagista viveu e trabalhou. Imagem: Halley Pacheco de Oliveira/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

VI. O que fica

Uma cultura de doação que ainda está sendo escrita

O Brasil ainda doa pouco para o tamanho que tem, e quase sempre de forma pontual, em resposta a tragédias. O que a BrazilFoundation propõe há 26 anos, e o que o gala de 2026 reforçou, é outra lógica: doação recorrente, com prestação de contas e apoio a quem já trabalha no território. Uma enchente no Sul virou fundo permanente. Um arquivo de paisagismo virou causa ambiental. Um fundo soberano virou parceiro de longo prazo. É uma cultura de solidariedade que se aprende, também, olhando para quem já pratica.

Para quem quer participar, há outros caminhos ao longo do ano. A fundação realiza galas no Brasil, como o de São Paulo e o Gala Trancoso, criado em 2026 com o Instituto Capim Santo, e aceita doações diretas para as organizações que acompanha.


Na esquina da Quinta Avenida com o Central Park, o salão esvaziou como esvaziam todos os salões, perto da meia-noite. O que ficou foi menos a festa e mais a conta que ela ajuda a fechar, a quase 8 mil quilômetros dali. Por uma noite, Nova York falou de doação em português. O resto do ano, quem fala são as organizações que ela financia.

Serviço

BrazilFoundation: organização sem fins lucrativos com sede em Nova York e atuação no Brasil desde 2000. Doações, galas e organizações apoiadas em brazilfoundation.org

Instituto Burle Marx: criado em 2019, guarda o acervo de Roberto Burle Marx, com mais de 150 mil itens. O Sítio Roberto Burle Marx, em Guaratiba, no Rio, recebe visitas guiadas com agendamento.

Gabriel Silveirado, para a WAYFARER.
Imagens: Wikimedia Commons (Kidfly182, Wilfredor, Donatas Dabravolskas, xiquinhosilva, Krists Luhaers, Halley Pacheco de Oliveira)

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