Nota editorial: publicada originalmente em 2019 e atualizada em setembro de 2026.
Uma cidade inteira nasce no deserto, dura nove dias e depois some sem deixar rastro. Essa é a premissa do Burning Man, e é também o seu paradoxo: um experimento de comunidade e desapego que se tornou, com o tempo, um dos endereços mais cobiçados do calendário de quem pode tudo.
O festival nasceu em 1986, numa praia de São Francisco, quando Larry Harvey e Jerry James queimaram um boneco de madeira de pouco mais de dois metros. Em 1990, mudou-se para o deserto de Black Rock, em Nevada, onde ergue a cada ano a Black Rock City. Os dias terminam no fim de semana do Labor Day americano: o Homem arde no sábado, o Templo, na última noite.


Os princípios: o que o festival diz ser
Em 2004, Harvey organizou a filosofia do evento em dez princípios: inclusão radical, cultura do presente, desmercantilização, autossuficiência radical, autoexpressão, esforço comunitário, responsabilidade cívica, não deixar rastro, participação e imediatismo. O comércio é praticamente banido da cidade. Quem vai leva o que precisa, e o resto se troca, se dá, se constrói em conjunto.
O paradoxo: bilionários no deserto
Na prática, a cidade efêmera virou vitrine. As instalações monumentais de arte se tornaram cenário disputado nas redes, e acampamentos com estrutura completa, cozinheiros e trailers climatizados passaram a atrair celebridades e fortunas do Vale do Silício e de Wall Street. A crítica, dentro da própria comunidade, é antiga: o que nasceu como autossuficiência radical ganhou serviço de concierge.
A edição de 2019, quando esta matéria foi escrita, reuniu 78.850 pessoas. Entre os nomes que circularam pela playa estavam Paris Hilton e o investidor Ray Dalio, fundador da Bridgewater Associates. Os brasileiros também marcaram presença: os DJs Alok e Vintage Culture tocaram juntos, e rostos conhecidos da sociedade paulistana, como Álvaro Garnero, Ivan Marchetti e Enrico Celico, foram registrados no deserto.





O tema daquele ano foi Metamorphosis. O Templo, batizado de Temple of Direction, tinha portais inspirados nos torii do santuário Fushimi Inari, em Kyoto, e ardeu na noite final, como manda o rito. Entre tempestades de areia e uma estética de Mad Max psicodélico, ficou a imagem de uma cidade que se consome a si mesma.


Os anos recentes: lama, poeira e ingressos sobrando
O deserto cobrou seu preço desde então. Em 2023, chuvas fortes transformaram a playa em lama, fecharam as estradas e deixaram dezenas de milhares de pessoas retidas por dias. Em 2025, tempestades de poeira e incidentes graves marcaram a edição. E, pela primeira vez desde 2011, os ingressos de 2024 e 2025 não se esgotaram, sinal de que o apelo, embora intacto, já não é automático. O limite de público gira em torno de 87 mil pessoas.
A edição de 2026 teve como tema Axis Mundi, o eixo do mundo, e aconteceu entre 30 de agosto e 7 de setembro. O ritual permanece: a cidade sobe, o Homem arde, o Templo arde, e a playa volta a ser vazia.

Nove dias, uma cidade, nenhum rastro. O Burning Man continua prometendo o que o dinheiro não compra, e continua atraindo, ano após ano, justamente quem tem dinheiro para comprar quase tudo.
Redação WAYFARER

