Estilo · Ícones masculinos
Lewis Hamilton passou anos preso ao uniforme de equipe. Depois fez de um trecho de paddock o desfile masculino mais observado do esporte.
Fazia 32 graus em Monza, e Lewis Hamilton desceu de uma F40 de casaco.
O terno era preto, a gravata também. Havia uma boina, uma pasta de couro e um longo casaco camelo pousado nos ombros. A Sports Illustrated chamou a cena de cinema italiano. Nos comentários, alguém torceu para a F40 ter ar-condicionado. Ele ficou com o casaco.
Para entender esse casaco, é preciso voltar a um trecho curto de chão. Entre a catraca de um autódromo e a garagem da equipe existe uma caminhada que, durante décadas, serviu apenas para chegar ao trabalho. Hamilton a fez de uniforme por boa parte da carreira. À Esquire britânica, lembrou o peso disso: mais de 90 dias por ano fotografado com a mesma camisa, num ambiente que, segundo ele, não era diverso nem inclusivo. “Para mim, isso é fatal. Me mata”, disse.
Neste domingo, em Interlagos, a pista do seu primeiro título, ele larga para o 400º Grande Prêmio, o segundo piloto da história a chegar lá. Tem 41 anos, sete campeonatos e um currículo paralelo que ninguém antes dele tentou construir: capa da edição do Met da Vogue, a lista dos mais elegantes de 2022 do New York Times, o topo do ranking de pilotos mais bem pagos da Forbes em 2025. Mas o interesse das revistas é só o sintoma. O que Hamilton fez foi ampliar o que um homem pode vestir numa profissão de homens uniformizados.
2007 a 2014
O carro alugado
McLaren, o início da Mercedes
Quando chegou à McLaren, em 2007, a regra era simples: piloto usa o kit da equipe. Hamilton contou à Vogue que a moda daquele período era “horrível” e que precisou quebrar algumas normas para ter estilo próprio. A Fórmula 1 registra o detalhe que resume a fase: ele às vezes se vestia de um jeito no circuito e trocava de roupa dentro do carro alugado para voltar a se sentir ele mesmo.
As referências vinham de fora do paddock, sobretudo do hip-hop e do R&B. Os primeiros resultados, ele próprio admite, nem sempre foram bons. A partir de 2010, blazers ajustados e jeans de grife entraram no armário. Ainda era um homem aprendendo a se vestir em público, com a vantagem e o castigo de ser fotografado todos os dias.

Antes de vestir a passarela, ele trocava de roupa escondido num carro alugado.
2015 a 2021
A mesa comprada
Law Roach e o Metropolitan
O ponto de virada tem endereço: a escadaria do Metropolitan. Em 2015, Hamilton estreia no Met Gala com um três-peças azul elétrico da Topshop. Vieram o smoking estampado da Dolce & Gabbana, o branco de Tommy Hilfiger para o tema religioso de 2018 e o metálico bordado em zigue-zague para o Camp de 2019. Com o stylist Law Roach, chegaram as silhuetas amplas, as estampas complexas e um jogo de proporções que o paddock nunca tinha visto. A moda, disse ele, virou “como ar nos pulmões”.
O gesto que mudou a leitura veio em 2021. Hamilton usou Kenneth Nicholson, terno preto com cauda de renda, e comprou uma mesa para receber criadores negros em ascensão, entre eles Edvin Thompson e Jason Rembert. Ali o guarda-roupa deixou de ser só assunto de estilo. Um homem de carreira feita usava o próprio convite para abrir a porta a quem não tinha um.
Em 2024, de Burberry, voltaria ao método: casaco com espinhos no decote, em homenagem a John Ystumllyn, o primeiro jardineiro negro registrado na Grã-Bretanha, e um poema de Alex Wharton bordado por dentro, onde quase ninguém veria.
2022 a 2024
O braço e o macacão
Eric McNeal e o paddock como vitrine
Com o stylist Eric McNeal, a caminhada até a garagem ganhou programação de temporada. Os comentários dele sobre 2022, à Fórmula 1, mostram como a dupla trabalha, com mais humor do que solenidade. Um Ferragamo de Maximilian Davis entrou para dar a um estilista britânico sua primeira grande vitrine com Hamilton. Um agasalho de seda da Acne ganhou um gato pintado nas costas, pelo amor que os dois têm por animais. Em Singapura, sob o calor, o briefing do Versace foi direto: “vamos só mostrar seus braços”.
Aqui em São Paulo, naquele mesmo ano, Hamilton vestiu um colete desfiado de Raf Simons que, segundo McNeal, nem ele próprio teria coragem de usar, e combinou Fendi com botas Timberland. Na mesma pista, em 2023, chegou de Gerrit Jacob, couro vegano nas cores da bandeira e o olhar de Senna, atrás do capacete, nas costas da jaqueta. O Brasil, que já o tinha feito cidadão honorário em 2022, recebe dele as citações mais diretas.
Miami, 2023, deu ao período sua imagem: um macacão roxo de lantejoulas de Rick Owens, feito sob medida, que a Hello! aponta como o estopim do renascimento da moda na F1. E a despedida da Mercedes, em Abu Dhabi, em 2024, foi a aula mais clara de narrativa: branco total de Willy Chavarria no dia de imprensa, jaqueta de Rick Owens em degradê do branco ao vermelho antes da classificação, vermelho Ferrari de Kim Jones para a Dior no dia da corrida.
Três dias em Abu Dhabi contaram uma transferência sem uma única frase.
Maio de 2025
O dândi
Superfine: Tailoring Black Style
Hamilton foi dos primeiros a conversar com Anna Wintour sobre o tema, três anos antes de ele chegar ao museu. Superfine, a exposição inspirada no livro de Monica Miller sobre o dândi negro, foi o momento em que a história pessoal dele e a história da roupa masculina se encontraram. Correu em Miami no domingo e, na segunda, estava em Nova York como copresidente, ao lado de Colman Domingo, A$AP Rocky, Pharrell Williams e Wintour.

Vestiu Wales Bonner: jaqueta curta de marfim, calça de smoking listrada, faixa minuciosamente bordada, boina combinando. Era alfaiataria carregada de pesquisa, e a pesquisa era o recado. À Vogue, disse esperar que as pessoas “pesquisem e pensem a fundo no que estão vestindo”.

2025 e 2026
O casaco em Monza
Ferrari, ou a arte de reverenciar
A Ferrari mudou o tom. A primeira foto em Maranello, de Ferragamo três-peças ao lado de uma F40, diante da casa de Enzo Ferrari, mostrou um homem disposto a pedir licença à história. Vieram o Calvin Klein branco com botas Timberland em Mônaco, o canadian tuxedo de Maison Margiela em Montreal e, em Silverstone, o Burberry com a Union Jack em cristais Swarovski.
A fase teve seus céticos. No início de 2025, o fotógrafo Kym Illman contou roupas de moda em apenas 5 de 18 dias de pista, e o Paddock Journal perguntou abertamente se Hamilton tinha chegado ao auge. A própria F1 notou que o uniforme voltou com frequência. Numa equipe nova, a reverência cobrou algum preço à ousadia.

Em 2026, a ousadia voltou sem pedir licença. Em Paris, na primeira fila da Dior, usou um casaco preto de gola de pele que a imprensa chamou de Tolstoy-chic, com brincos de diamante dos anos 1950. Em Montreal, chegou inteiro de branco, com jaqueta de Loewe e botas Diesel. Monza veio em setembro, e ele manteve o casaco. Nesta quinta, ao chegar a Interlagos, o acessório foi um boné especial da Ferrari feito para o GP.
O balanço
A roupa como ativo
Dior, Hilfiger e o que vem depois
Há também uma conta. Tommy Hilfiger o tem como parceiro desde 2018, e a Dior o fez embaixador e designer convidado em 2024, com uma cápsula de inverno que o Telegraph situou entre o esqui em Courchevel e o surfe na Califórnia. Na lista de 2025 da Forbes, segundo a F1i, os patrocínios somavam cerca de US$ 20 milhões, ao lado de US$ 60 milhões vindos de Maranello. No mesmo ano, ele reuniu seus negócios sob o nome Lewis Hamilton Ventures, e o House 44, com a Soho House, levou a lógica à hospitalidade.
O efeito mais durável está nos outros. Zhou Guanyu e Pierre Gasly citam Hamilton como quem abriu a porta, e Rocco Iannone, da Ferrari Style, já diz que a F1 é o novo tapete vermelho. “Parece que isso libertou todos os outros”, disse Hamilton à Esquire. Ele também afirmou que gostaria de se dedicar muito mais à moda quando deixar o capacete. O oitavo título não veio. A segunda carreira já começou.
O arquivo
Dez looks para entender Hamilton
Para usar
A gramática de Hamilton
Copiar uma roupa dele custa caro e funciona mal. O método sai de graça.
Misture os registros
Terno branco e bota de trabalho. O clássico fica mais interessante quando encontra uma peça de outro mundo.
Tenha um motivo
O poema dentro do casaco, a sequência de Abu Dhabi, o olhar de Senna. A roupa rende mais quando conhece a própria ocasião.
Olhe para quem está chegando
Ao lado das grandes casas, sempre há um nome novo. Um armário só de logotipos conhecidos conta pouca coisa sobre o dono.
Sustente a escolha
Monza ensinou o último item. Quem decide usar o casaco fica com o casaco até o fim.
Fazia 32 graus em Monza, e ele ficou com o casaco. Neste fim de semana, em Interlagos, Hamilton refaz a mesma caminhada pela 400ª vez em dia de corrida, depois de lembrar que venceu no seu 300º Grande Prêmio e dizer que a meta é repetir a dose. No fim do trecho, vai trocar a roupa por um macacão vermelho, como trocava dentro do carro alugado. A diferença é que agora o paddock inteiro para e olha antes da troca.
Ficha
Lewis Hamilton
- Equipe
- Scuderia Ferrari
- Stylist
- Eric McNeal
- Casas ligadas
- Dior, Tommy Hilfiger, Ferrari Style
- Em Interlagos
- O título de 2008 e três vitórias
GP de São Paulo
- Quando
- 6 a 8 de novembro de 2026
- Onde
- Autódromo José Carlos Pace, Interlagos
- Guia
- Guia WAYFARER do Grande Prêmio
Com informações de Vogue, Esquire UK, Formula 1, Motorsport.com, Sports Illustrated, Hello!, The Telegraph, The Paddock Journal, The New York Times, Forbes, F1i, GPFans e Mow.

