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Congelamento de óvulos: o que a ciência promete e o que não garante

A vitrificação ampliou a margem de escolha de quem adia a maternidade, mas o resultado depende sobretudo da idade no congelamento e do número de óvulos. O que dizem os dados atuais.

Nota editorial: publicada originalmente em 2021 e atualizada em setembro de 2026.

Congelar óvulos não para o relógio biológico. Guarda uma fotografia dele.

A técnica, que durante muito tempo foi reservada a pacientes oncológicas ou a casos de infertilidade, passou a ser procurada por mulheres que escolhem adiar a maternidade por carreira, estudo, viagem ou simplesmente porque o momento ainda não chegou. É o que a medicina chama hoje de criopreservação planejada, ou eletiva. Uma conquista real, que ampliou margens de escolha. Mas uma conquista que pede informação precisa, porque a promessa e a estatística nem sempre coincidem.

A técnica: vitrificação

O método que mudou o jogo se chama vitrificação. Em vez de um congelamento lento, que formava cristais de gelo capazes de danificar a célula, o óvulo é resfriado de forma ultrarrápida e armazenado em nitrogênio líquido, a 196 graus negativos. Nessa temperatura, o tempo biológico praticamente cessa: o óvulo preserva as características da idade em que foi coletado.

Em 2012, a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (ASRM) retirou da técnica o rótulo de experimental. Em 2023, o comitê de ética da entidade reconheceu a criopreservação planejada como procedimento eticamente aceitável para quem deseja ampliar a janela reprodutiva, com uma condição: aconselhamento completo e honesto sobre o que ela pode, e o que não pode, garantir.

O que os números dizem: idade e quantidade

O fator mais importante é a idade no momento do congelamento. Não a idade em que os óvulos serão usados, mas aquela em que foram coletados. Um modelo publicado na revista Human Reproduction, usado como referência em consultórios, estima que dez óvulos maduros congelados aos 34 anos oferecem cerca de 69% de chance de ao menos um nascido vivo. Aos 37, a mesma quantidade cai para perto de 50%. Aos 42, para cerca de 18%.

Dito de outra forma: para chegar a 75% de chance, seriam necessários cerca de 10 óvulos aos 34 anos, 20 aos 37 e mais de 60 aos 42, o que em geral exige mais de um ciclo de estimulação. A ASRM lembra que, por volta dos 38 anos, algo entre 25 e 30 óvulos podem ser necessários para uma chance razoável de um filho. O motivo é conhecido: com a idade, cresce a proporção de óvulos com alterações cromossômicas, e cai a viabilidade dos embriões.

O que ninguém deve prometer

O congelamento não é garantia de gravidez. É um seguro com probabilidades, e as probabilidades dependem da clínica, do número de óvulos e da saúde de quem os congelou. Há também um dado menos comentado: grande parte dos óvulos congelados nunca chega a ser usada, porque muitas mulheres engravidam naturalmente ou mudam de planos. Estudos citados pela própria ASRM registram arrependimento entre pacientes que coletaram menos óvulos do que esperavam ou que não receberam orientação adequada.

Por isso, a recomendação dos especialistas é pedir à clínica os próprios índices de sucesso, não médias nacionais, entender quantos ciclos provavelmente serão necessários e considerar, antes de decidir, todas as alternativas de planejamento familiar.

No Brasil: as regras

No país, a reprodução assistida é regida por resoluções do Conselho Federal de Medicina. A norma em vigor, a Resolução 2.320, de 2022, mantém em 50 anos a idade máxima para gestação por técnicas de reprodução assistida, com exceções avaliadas caso a caso por critérios médicos. A decisão sobre congelar, e quando, deve ser tomada com um especialista em reprodução humana, e os números mostram que o tempo pesa a favor de quem conversa cedo.

Congelar óvulos não para o relógio biológico. Guarda, com precisão, a hora em que a fotografia foi tirada. Quanto antes, mais nítida a imagem.

Redação WAYFARER

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