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Da Basilicata à Sardenha, os cantos italianos que escapam do turismo de massa

Há lugares que se tornam íntimos por acaso, não por mérito turístico. Ganham essa condição pela repetição: um verão depois do outro, sempre a mesma caminho de terra, o mesmo bar de esquina, a mesma vista que não perde o efeito mesmo depois de tantos retornos. A Itália, apesar de ser um dos destinos mais fotografados do planeta, ainda guarda um repertório de endereços que escapam ao roteiro previsível de Amalfi, Portofino e Capri. São lugares menores em escala, mas não em intensidade: vilarejos, reservas naturais e trechos de costa onde o verão ainda acontece em ritmo lento.

Jovens à beira-mar em Porto Ercole, Toscana, na década de 1960
Porto Ercole, na Toscana, em registro de 1967: a Itália litorânea que precede o turismo de massa.

O critério para esta seleção não é o glamour de temporada, mas a permanência: destinos que sobrevivem ao tempo justamente porque não foram desenhados para agradar multidões. Vão da costa tirrena da Basiliata aos vales alpinos da Lombardia, passando por trechos ainda pouco explorados da Puglia e da Sardenha.

Maratea, no Mar Tirreno

Encravada entre montanha e mar, Maratea é conhecida pela estátua do Cristo Redentor que replica, em menor escala, o gesto icônico do Rio de Janeiro. Mas o verdadeiro atrativo está na hotelaria de autor que a cidade abriga. La Casa di Maratea reúne obras de Ettore Sottsass, Gaetano Pesce, Gio Ponti e Vanessa Beecroft em uma casa de tons vivos entre azul e vermelho, com piscina voltada para o mar. Para quem prefere a atmosfera clássica dos anos 1950, o Hotel Santavenere recebeu hóspedes como Gianni Agnelli e Domenico Modugno em salões que preservam o refinamento de outra época.

Vista da piscina de La Casa di Maratea com vista para o mar
La Casa di Maratea combina arte contemporânea e paisagem tirrena.
Interior decorado com peças de design italiano em Maratea
Peças de Sottsass e Pesce compõem os interiores da propriedade.
Fachada histórica do Hotel Santavenere em Maratea
O Santavenere preserva a atmosfera dos anos 1950 na costa lucana.
Jardim e vista para o mar do Hotel Santavenere
Ambientes clássicos com vista para o litoral de Maratea.

Baratti, na Toscana

Distante do circuito badalado da costa toscana, Baratti guarda casas projetadas pelo arquiteto florentino Vittorio Giorgini, acessíveis apenas por trilha entre o bosque e o litoral. Sem cobertura de celular e quase sem restaurantes, salvo um quiosque de pesca fresca à beira-mar, a região preserva o tipo de isolamento que se tornou raro na Itália costeira. Para dormir, casarões rurais nas colinas próximas oferecem a vista ideal sobre o mar Tirreno.

Paisagem costeira de Baratti na Toscana
O litoral de Baratti, acessível apenas por trilha entre o bosque.
Fachada de casa rural em Le Moraiole, Toscana
Le Moraiole, casario nas colinas a vinte minutos do mar.
Interior rústico de propriedade rural toscana
Ambientes simples e autênticos definem a hospedagem na região.

Torre Guaceto, na Puglia

Se a Puglia funciona como a Ibiza italiana, a reserva natural de Torre Guaceto seria seu Es Vedrà: oito quilômetros de praia livre onde a vegetação mediterrânea encontra o azul do Adriático. O acesso exige disposição, com trilha a pé até a reserva, mas a recompensa é o isolamento raro em uma região que se tornou cada vez mais procurada. Nas proximidades, o mercado artesanal de Savelletri e endereços como o Palazzo Edmondo, com piscina entre colunatas antigas, completam a experiência.

Vista aérea da reserva natural de Torre Guaceto na Puglia
Torre Guaceto preserva oito quilômetros de litoral intocado.
Vegetação mediterrânea na reserva de Torre Guaceto
A macha mediterrânea domina a paisagem da reserva.
Piscina entre colunatas antigas no Palazzo Edmondo
O jardim secreto do Palazzo Edmondo, no coração do Salento.
Fachada tradicional de trullo pugliese
Trullo la Sacchina, arquitetura típica da região do Salento.

Castro, na Puglia

Seguindo a costa adriática rumo ao sul, Castro divide-se entre o centro histórico medieval, a marina e as grutas que marcam o litoral leccês, entre elas a Grotta degli Innamorati e a Grotta Zinzulusa. O bairro alto se percorre a pé ou de trenzinho, com paradas para os pratos típicos salentinos, do rústico ao calzone. A hospedagem ideal fica próxima da natureza e da água, a poucos minutos do centro.

Castelo histórico na cidade de Castro, Puglia
O castelo de Castro domina o centro histórico da cidade.
Vista panorâmica do litoral de Castro na Puglia
O litoral de Castro combina falésias, grutas e enseadas.
Fachada da hospedagem Il Posto delle Fragole em Castro
Il Posto delle Fragole, opção de hospedagem próxima ao mar.

San Teodoro, na Sardenha

As praias brancas de La Cinta, em San Teodoro, seguem entre as poucas de acesso livre na costa mais celebrada da Sardenha. A areia clara e a água transparente, especialmente ao pôr do sol, contrastam com a vista para a ilha de Tavolara. Além da praia, San Teodoro oferece trilhas panorâmicas no Monte Nieddu, enseadas reservadas em Capo Coda Cavallo e mercados noturnos perfumados de murta e artesanato local.

Praia de areia branca em San Teodoro na Sardenha
La Cinta, uma das últimas praias de acesso livre na região.
Vista da ilha de Tavolara a partir de San Teodoro
A ilha de Tavolara emerge no horizonte de San Teodoro.

Bosa, na Sardenha

Na costa noroeste da Sardenha, Bosa é atravessada pelo único rio navegável da ilha, o Temo, que corre sob o Castelo Malaspina e as casas coloridas erguidas na colina. As construções em forma de torre, estreitas e altas, hoje abrigam hospedagens como a Locanda di Corte, que preserva o desenho histórico com toques de artesanato local. No restaurante da pousada, o chef Nicola Ibba reinterpreta a cozinha tradicional sarda com precisão contemporânea. Ao pôr do sol, passeios de barco pelo rio Temo encerram o dia com degustação de Malvasia, vinho típico da região.

Casas coloridas na colina de Bosa, Sardenha
Bosa e suas casas históricas às margens do rio Temo.
Quarto com terraço e vista para o castelo em Bosa
Locanda di Corte preserva a arquitetura histórica de Bosa.
Ambiente do restaurante Locanda di Corte em Bosa
A cozinha sarda contemporânea assinada por Nicola Ibba.

Valdidentro, na Valtellina

Nos Alpes lombardos, Valdidentro oferece vales, trilhas e cicloviás que acompanham o rio até Bormio e Santa Caterina. A região combina esportes de aventura, como mountain bike e escalada, com gastronomia local regada a Sforzato della Valtellina. Termas como QC Terme Bagni Vecchi e Bagni Nuovi, em Bormio, e a Spa do Lac Salin Spa & Mountain Resort, em Livigno, completam a oferta de bem-estar em meio à paisagem alpina.

Lagos de Cancano na região de Valdidentro
Os Laghi di Cancano, ponto de partida para trilhas alpinas.
Paisagem verde do Val Grosina na Valtellina
Val Grosina, um dos vales que compõem a região de Valdidentro.
Prato de pizzoccheri servido em restaurante de Livigno
A cozinha valtellinese tradicional, servida em Livigno.

Valsolda, na Lombardia

Na fronteira com a Suíça, à beira do Lago di Lugano, Valsolda é conhecida por ter inspirado o escritor oitocentista Antonio Fogazzaro, autor de Piccolo mondo antico. A região combina trilhas na reserva natural, mergulhos em rios de água cristalina e passeios de barco, com a vantagem de estar a dez minutos de Lugano e seus museus, e a trinta minutos do outlet Fox Town, em Mendrisio.

Vista do resort à beira do Lago di Lugano
Parco San Marco Lifestyle Beach Resort, na margem do lago.
Vilarejo à beira do Lago di Lugano em Valsolda
Valsolda preserva o cenário que inspirou Fogazzaro.

Vieste, na Puglia

No Gargano, ao norte da Puglia, Vieste ainda escapa do turismo de massa que tomou o restante da região nos últimos anos. Entre olivais e figueiras, a paisagem rural convive com quilômetros de praia livre. Um passeio de barco até as Ilhas Tremiti, onde o cantor Lucio Dalla mantinha residência, e o restaurante Trabucco di Mimì, em Peschici, suspenso sobre o mar, resumem o roteiro ideal para quem busca autenticidade.

Trabucco tradicional à beira-mar em Peschici
O trabucco, estrutura de pesca típica do litoral do Gargano.
Pôr do sol visto do restaurante Trabucco di Mimì
O pôr do sol observado do Trabucco di Mimì, em Peschici.
Fachada da hospedagem Casa Giulia em Vieste
Casa Giulia, endereço para hospedagem em Vieste.

Pietrasanta, na Toscana

Próxima a Forte dei Marmi, Pietrasanta preserva um caráter que resiste às temporadas: cafés na praça com vista para o Duomo, galerias de arte e ruelas que convidam à descoberta. O aperitivo ali é vivido com lentidão, longe da pressa das redes sociais. Para jantar, o Le Bar à Vins mantém receitas de família; para dormir, o Hotel Paradis reforça o vínculo histórico da cidade com a arte, enquanto o agriturismo Il Mulino di Nonna Sà oferece a alternativa rural, poucos minutos do centro.

Ruela histórica de Pietrasanta, na Toscana
As ruas de Pietrasanta preservam o caráter artístico da cidade.
Praça central com vista para o Duomo em Pietrasanta
A praça central, ponto de encontro para o café da manhã.
Fachada do Hotel Paradis em Pietrasanta
Hotel Paradis, referência de hospedagem no centro da cidade.
Fachada rural do agriturismo Il Mulino di Nonna Sà
Il Mulino di Nonna Sà, refúgio rural próximo ao centro histórico.

São paisagens que dispensam grandeza para justificar a viagem. Persistem porque foram construídas devagar, ao longo de gerações, e resistem justamente por não terem sido desenhadas para agradar a todos. No verão italiano, ainda existe espaço para o silêncio das trilhas, para a mesa que não muda de cardápio e para o mar que se alcança apenas a pé.

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