Um bar de hotel bem-feito funciona como um refúgio com horário elástico: acolhe o executivo que quer descomprimir depois de um dia longo e também o grupo que decidiu comemorar algo ali mesmo, no balcão. A regra não mudou, mas o cardápio sim. Coquetéis sem álcool deixaram de ser gesto pontual e passaram a ocupar lugar fixo nas cartas mais sofisticadas do mundo.
Uma curadoria internacional dedicada a hotelaria de luxo reuniu, para 2026, os bares que se destacam em 18 países, de Singapura à Escócia. Inspetores anônimos visitaram cada endereço como hóspedes pagantes, avaliando coquetéis, cartas de comida e o padrão de serviço. Só entraram na lista os bares que atingiram pontuação máxima em programa de bebidas, apresentação, fluidez de atendimento e experiência geral do hóspede.

Xangai e Tóquio despontam como as cidades mais premiadas, com três vencedores cada. Cinco bares repetem reconhecimento de edições anteriores: Le Bar, no Capella Shanghai, Jian Ye Li; Le Bar Américain, no Hôtel de Paris Monte-Carlo; Le Bar Botaniste, no Shangri-La Paris; Library by the Sea, no Kimpton Seafire Resort + Spa; e The St. Regis Bar, no St. Regis Macao. Redes como Hilton Luxury e Marriott International concentram seis endereços cada uma, mas hotéis boutique também aparecem com força: seis propriedades independentes entraram na seleção de 2026.
Américas
Em Nova York, o Bemelmans Bar, no The Carlyle, A Rosewood Hotel, mantém o mistério que o consagrou: murais assinados por Ludwig Bemelmans, criador dos livros infantis de Madeline, e uma clientela que atravessa gerações, de Jackie Kennedy a Timothée Chalamet. Os bartenders de paletó vermelho preparam centenas de martínis por noite, sempre com uma carafa lateral gelada para manter a temperatura ideal.
Em Miami, o Champagne Bar, no Four Seasons Hotel at The Surf Club, reúne a maior seleção de champagne da cidade sob tetos arqueados e palmeiras altas. Ali, o martíni Surf Club, com cebolinhas rosadas em conserva, disputa espaço com o Peanut, à base de mezcal Ilegal Reposado, amaro e licor de chile ancho.

Em Cabo San Lucas, o Don Manuel’s, no Waldorf Astoria Los Cabos Pedregal, aposta em identidade mexicana: azulejos talavera, teto de palha e o Pedregal Reyes, releitura da margarita com tequila reposado, licor de chile ancho e xaropes artesanais. Já em Grand Cayman, a Library by the Sea, no Kimpton Seafire Resort + Spa, transforma livros em coquetéis: o Please Look After This Drink presta tributo a Paddington, o urso de origem peruana adotado pela cultura britânica.
Em Los Angeles, o Maybourne Bar, no The Maybourne Beverly Hills, opera o único bar de ostras e caviar da cidade, com omakase de caviar em nove etapas e um Old Fashioned autoral misturando whiskies escocês e japonês. Em Santa Barbara, o Speakeasy, no San Ysidro Ranch, propõe o Surprise Me: o hóspede conta um problema e o bartender responde com um elixir personalizado.

Encerrando a região, o St. Regis Bar, no St. Regis Atlanta, serve o Yuzu Whiskey Sour, floral e aveludado, ao lado de aperitivos como pipoca com pecorino e trufa.
Ásia-Pacífico
Em Xangai, o Aura Lounge, no The Ritz-Carlton Shanghai, Pudong, resgata a atmosfera dos anos 1920 no 52º andar, com jazz ao vivo e vista para o Bund. Os coquetéis, porém, são contemporâneos: o Glazed Shanghai combina vodca e tomate clarificado, enquanto o Art Deco Elixir mistura tequila envelhecida, licor de gengibre e geleia de damasco.

Ainda em Xangai, o Le Bar, no Capella Shanghai, Jian Ye Li, cruza técnica francesa com memória local: o Tamarindus Sour homenageia um doce de tamarindo típico da infância chinesa, preparado com cognac Martell Noblige e frutas de Yunnan. Em Tóquio, o Bulgari Bar, no Bulgari Hotel Tokyo, no 45º andar, recria um jardim mediterrâneo com pratos italianos e o coquetel Night Jewel, inspirado nas ametistas da marca.

Em Chengdu, o Flair, no The Ritz-Carlton, Chengdu, propõe dez coquetéis inspirados em marcos da região Sichuan-Tibete. Em Seul, a Library, no The Shilla Seoul, combina jazz ao vivo, ópera e ingredientes coreanos como artemísia e vinagre hongcho. Já no Lounge Bar Privé, no Palace Hotel Tokyo, o Palace Gin Fizz mantém a receita criada no pós-guerra, quando militares americanos disfarçavam o gim em leite para beber durante o dia sem chamar atenção.
Em Singapura, o Pineapple Room, no Capella Singapore, celebra o abacaxi como símbolo de hospitalidade, com o Cassis Reverie unindo Macallan 12 anos, cassis e shiso. Em Incheon, o Serasé, no Art Paradiso Boutique Hotel, abre a noite com o Fancy Spirits, à base de Aperol, Campari e champagne.

Em Sanya, o Sky Bar, no The Sanya Edition, exibe mais de dois mil cristais suspensos e o coquetel Show Me the Bunny, servido em um cálice de cobre em forma de coelho. Em Xangai, o SKY59, no MGM Shanghai West Bund, evoca o antigo aeroporto Longhua com o coquetel The Tourist, finalizado com um ramo de zimbro aceso.
No St. Regis Bar do St. Regis Macao, o Macao Egg Tart transforma em coquetel a icônica pastelaria portuguesa da região, com rum escuro, advocaat e uma bolacha em formato de flor. Em Quioto, o Tenjin The Bar, no Roku Kyoto, acompanha as estações com o Hanamonogatari, coquetel de gim que muda conforme a flora local. Em Pequim, o TIAO, no Mandarin Oriental Qianmen, Beijing, presta tributo ao primeiro imperador chinês com o Quicksilver, finalizado com pó de prata que parece flutuar no copo. E em Tóquio, o TwentyEight, no Conrad Tokyo, usa a coleção de arte japonesa do hotel como inspiração para o Oedo Old Fashioned, feito com whisky japonês e shochu de cevada.
Europa
Em Champillon, o Abysse Bar, no Royal Champagne Hotel & Spa, tem vista para as colinas da região de Champagne e uma carta que gira em torno das bolhas, com destaque para o French Cherry, à base de cachaça e bitter de cereja. Em Glifada, o Alelia Bar, no One&Only Aesthesis, escondido entre oliveiras centenárias, serve um Negroni envelhecido que combina gim, vermute artesanal e amaro.

Em Edimburgo, o Bar Prince, no The Balmoral, presta tributo a Sean Connery com o coquetel The Proud Scotsman, e o Claridge’s Bar, em Londres, mantém sua reputação com o dirty martini feito com gim de camomila e ruibarbo forçado de Yorkshire.
Em Monte Carlo, Le Bar Américain, no Hôtel de Paris Monte-Carlo, homenageia a princesa Grace com La Roseraie, à base de vodca infusionada com rosas, e reserva o Bellini para o verão, quando a cor do coquetel muda com a maturação dos pêssegos.

Em Paris, Le Bar Botaniste, no Shangri-La Paris, ocupa o antigo palácio de Roland Bonaparte e serve o Caesar 52, versão floral do French 75. Nas Dolomitas, o Lounge Bar do Lefay Resort & Spa Dolomiti aposta em mocktails complexos como o Alpenoir, com cevada fria e mel.
Em Cannes, o Martinez Bar, no Hôtel Martinez, cultiva paleta vermelha e dourada, do teto às taças do Rouge Martinez, com trilha sonora em vinil e terraço para o jardim. Em Londres, o Northall Bar, no Corinthia London, batiza um coquetel em homenagem ao lustre de cristais Baccarat que domina o lobby. Em Cong, na Irlanda, o Prince of Wales Bar, no Ashford Castle, serve o Last High King, com apenas três ingredientes, em referência ao monarca que unificou três reinos irlandeses.

Em Roma, o Tiepolo Lounge & Terrace, no Rome Cavalieri, inspira-se no acervo de mais de mil obras do hotel para criar o coquetel A… Dollar, tributo a Andy Warhol. Em Amsterdã, o Vault Bar, no Waldorf Astoria Amsterdam, ocupa um antigo cofre bancário e serve o Golden Key, com genever, xerez fino e uma chave dourada como bailarina do drinque. Em Edimburgo, o The Wallace, no 100 Princes Street, reserva acesso exclusivo aos hóspedes das 29 suítes e uma coleção de mais de 250 rótulos de whisky.
Oriente Médio
Em Doha, o Library Lounge, no Four Seasons Hotel Doha, mantém há quase vinte anos o Small Batch Librarian Old Fashioned, envelhecido por 90 dias em barril de carvalho e finalizado com infusão de pistache e amêndoas torradas. Em Dubai, o Lounge, no One&Only The Palm, serve o Riviera Blush, com Aperol, morango e banana, além de masterclasses para hóspedes criarem coquetéis autorais.

Nas Maldivas, o Peacock Alley, no Waldorf Astoria Maldives Ithaafushi, inspira-se no lounge homônimo que abriu em 1897 no Waldorf Astoria de Nova York. Seu Caribe Colada reinterpreta a piña colada, criada no Caribe Hilton de Porto Rico, com um acabamento defumado que atualiza a receita clássica sem perder as notas de abacaxi e coco.

O panorama confirma uma tendência que já não é novidade, mas segue se aprofundando: o bar de hotel deixou de ser apêndice do lobby para se tornar destino próprio, com narrativa, técnica e repertório à altura das melhores mesas do mundo.

