Estilo · Santa Catarina Fashion Week
Na quarta edição, o Santa Catarina Fashion Week levou a passarela para dentro do Floripa Airport. Três noites, dezenas de marcas, estilistas do Chile e do Peru, estudantes estreando diante de centenas de pessoas e uma indústria que costuma vestir o país dos bastidores, desta vez com nome e sobrenome.
Le Lis. Foto Thalia Reis / Divulgação SCFWUm aeroporto é, por definição, um lugar de passagem. Ninguém vai até lá para ficar. Durante três noites de setembro, o de Florianópolis pediu o contrário: que se parasse, se sentasse e se olhasse.
De 24 a 26 de setembro, o Santa Catarina Fashion Week ocupou o Boulevard 14/32 do Floripa Airport, área integrada ao terminal de passageiros. Foi a primeira vez do evento ali, e a escolha resume a ambição da quarta edição: tirar a passarela da sala fechada e colocá-la no caminho de quem chega, de quem parte e de quem apenas espera um voo.
O cenárioUma passarela entre chegadas e partidas
A sala montada no Boulevard 14/32 tinha passarela branca, telões de LED que mudavam de paisagem a cada marca e plateia dos dois lados, em fileiras cheias até a última noite. Do lado de fora, o lounge e os talks tinham acesso gratuito. Os desfiles pediam ingresso, retirado pelo aplicativo do Circuito Nacional Fashion Week. Na prática, um passageiro com tempo sobrando antes do embarque podia esbarrar numa conversa sobre identidade regional ou numa arara de verão catarinense.
A edição adotou o see now, buy now, formato que as grandes semanas internacionais testaram na última década: as coleções de verão chegaram à passarela prontas para a compra, sem o intervalo de meses entre o desfile e a vitrine. Para marcas regionais, a conta é direta. O desfile deixa de ser só imagem e passa a ser venda.

Quinta-feira · 24 de setembroA abertura e o valor da origem
Antes da primeira modelo pisar na passarela, a semana começou com uma pergunta. O Talk Fashion Sebrae reuniu Gisela Simões e Fernanda Simões sob o tema “O valor da origem: quando moda, território e identidade se encontram”. É a questão que atravessa o evento inteiro: o que acontece quando uma indústria acostumada a produzir para os outros resolve assinar o que faz.
Às 19h, a primeira sequência reuniu UNISUL, Aymée Store, Dristtefani, com os colares artesanais de Adriane Broilo, e Morena Bakana, com moda praia. Às 20h30, a segunda trouxe Le Body, Espinheira Santa, Gusso Atelier, Gabbe com acessórios de Paula Dellart, Nahia, que levou cerca de 30 peças, e Via Fran. Cor, leveza e alfaiataria de verão dominaram a noite, entre o branco quase ritual da Espinheira Santa e as transparências bordadas da Nahia.



Estreantes com histórias de família
O desfile que abriu a noite foi também o mais pessoal. As alunas da UNISUL levaram à passarela peças construídas a partir de memórias de família. Iasmin Brognoli Dutra, de 19 anos, apresentou “Tramas da terra: Mãos que tecem o futuro”, uma peça feita em cerca de 80% de crochê, técnica que aprendeu com as duas avós. Maria Eduarda Avila Barcellos, de 21, neta de costureira, passou cerca de cinco meses no trabalho. Ana Elis Soares, de 23, gaúcha, criou um look em homenagem a uma tia que amava se vestir, cores e moda. Numa semana que discute origem, foi a resposta mais literal: a costura como herança.







Sexta-feira · 25 de setembroA noite em que a sala lotou
A segunda noite passou das 800 pessoas e deu ao evento o que ele buscava: escala. Desfilaram UniSenai, Sou Única com Opus, Tucana com Martti, Soul com Pro Crep, A Poderosa, Le Lis, Léia Gerke, May Rendas, Shoulder, a peruana Vlanco, Manuela Paredes e Matilda Matus.
As parcerias entre marcas, uma assinando a roupa, outra o acessório ou o calçado, deram o tom de cooperação que marca a cadeia catarinense. A UniSenai abriu com volumes de organza sobre silhueta escura; A Poderosa levou lingerie e moda praia em tons de pele; a Le Lis apostou no preto rendado, rente ao corpo.



Os númerosUma indústria que raramente sobe à passarela
Santa Catarina costuma aparecer no mapa da moda brasileira pelos bastidores. O estado concentra uma das cadeias produtivas mais completas do país, da fiação e da tecelagem à malharia, à confecção, ao couro e aos calçados, com polos em Blumenau, Brusque, Jaraguá do Sul e Joinville. Os dados da FIESC citados pela organização dão a dimensão: o setor têxtil, de confecção, couro e calçados somava 170.787 empregos formais em 2023, 18,9% do emprego industrial do estado. Santa Catarina responde por 26,7% da produção brasileira de vestuário e acessórios, e a cadeia movimenta cerca de R$ 40,3 bilhões, 12,1% da economia catarinense.
Santa Catarina veste o Brasil há décadas. O SCFW existe para que o Brasil saiba disso.A leitura da WAYFARER
Sábado · 26 de setembroCrianças, revelações e o encerramento
O último dia foi o mais longo. Às 15h, o SCFW Kids abriu a programação com Milon e TA-HI Kids. Às 18h, o SCFW Revela apresentou novos estilistas brasileiros, Wallison Fernandes, Lauany de Lima e Arthur Trindade, ao lado do desfile especial do projeto Tecendo Liberdades, do SENAI do Rio Grande do Norte. Para quem procura o que ainda não tem nome, foi o capítulo mais interessante da semana.
Às 19h, o bloco Vanguarda e Design reuniu o Departamento de Moda da UDESC, Coral Reef, Foxton, Banka Panka e Kallil Nepomuceno. Às 20h30, Moda e Lifestyle trouxe Allba, Lieni, Richards, Deslize, a Harley-Davidson de Florianópolis e os chilenos Alejandra Hernández e Roberto Bugueño. A noite terminou às 22h com o After Heineken Living, de entrada livre. Ao longo da edição, desfilaram ainda Vizzano, Moleca, Molekinha e Molekinho, numa mistura que vai do ateliê autoral à grande indústria calçadista.

Guia rápidoAs marcas para anotar
- Moda praiaMorena Bakana, Via Fran e A Poderosa levaram o verão catarinense à passarela, de biquínis a lingerie em tons de pele, com saídas de praia rendadas.
- Ateliês autoraisGusso Ateliê, de Criciúma, May Rendas Ateliê, Manu Paredes Atelier, Opus Ateliê e Kallil Nepomuceno representaram o lado feito à mão, de rendas a bordados de brilho.
- AcessóriosDristtefani, com os colares artesanais de Adriane Broilo, e Paula Dellart, que assinou os acessórios da Gabbe.
- Marcas nacionaisLe Lis, Shoulder, Richards e Foxton deram escala à passarela, ao lado dos calçados Vizzano e Moleca, da Calçados Beira Rio, que também ocupou o lounge.
- Moda infantilMilon, do grupo catarinense Kyly, de Pomerode, TA-HI Kids, Molekinha e Molekinho abriram o sábado no SCFW Kids.
- Reuso e circularidadeSoul Brechó 2nd dividiu a passarela com a Pro-Crep, numa das parcerias mais inesperadas da semana.
- LifestyleA Harley-Davidson de Florianópolis levou o universo das motos para a passarela, e Allba, Lieni e Deslize completaram o bloco de sábado.
O lounge
Entre um desfile e outro, o lounge aberto ao público virou ponto de encontro, com Boutique dos Tecidos, Fresh Co, Simphonia, Floripa Harley-Davidson, Alpha FM, Bar Dreamks, Sodiê Doces, Amouh e Beira Rio Calçados. O patrocínio foi do Floripa Airport, da Rienza e da Audaces, empresa catarinense de tecnologia para a indústria da moda, com Suq e Direto do Campo entre os parceiros.
Além da fronteiraUm circuito que olha para a América Latina
Nesta edição, a programação se conectou ao LATAMFW Brasil, a Latinoamérica Fashion Week, e recebeu estilistas de fora: do Chile, Alejandra Hernández e Roberto Bugueño; do Peru, Vlanco e Jessica Russo. É um movimento pequeno em números, mas grande em intenção. Uma semana regional que se apresenta ao continente deixa de ser vitrine local e passa a ser plataforma.
Quem fazO circuito por trás da passarela
O SCFW é realizado pelo Circuito Nacional Fashion Week, o CNFW, concebido por KyAnn Kartz para levar semanas de moda além dos centros tradicionais, com produção do Instituto Estação da Vida e de Marina Nuernberg. O apoio vem do Sebrae, do Moda Catarina e de escolas como UniSENAI, UNISUL e o Departamento de Moda da UDESC, que dividiram a passarela com as marcas. Segundo a organização, o evento triplicou de tamanho em relação às edições anteriores.
Aeroportos foram desenhados para que ninguém se demore. Por três noites, o de Florianópolis contrariou a própria função e fez da espera uma plateia. A indústria catarinense passou décadas vestindo o país por trás de etiquetas nem sempre suas. Desta vez, desfilou no portão de embarque, e ficou.
Santa Catarina Fashion Week · 4ª edição. 24 a 26 de setembro de 2026, Boulevard 14/32, Floripa Airport, Florianópolis. Lounge e talks com acesso gratuito; desfiles com ingresso pelo aplicativo do CNFW.
Realização: Circuito Nacional Fashion Week (CNFW). Produção: Instituto Estação da Vida. Patrocínio: Floripa Airport, Rienza e Audaces. Apoio: Sebrae, Moda Catarina, UniSENAI, UNISUL e UDESC.
Fontes: SCFW/CNFW, FIESC. Fotos: @paulojuniorfilmes e Thalia Reis, Divulgação SCFW.
Redação WAYFARER

